A Capela e o Recolhimento de Nossa Senhora do Parto (IV)

IV

Ana Campista e Matilde tinham-se encontrado no recolhimento do Parto. Mas um ódio inflexível as separava para sempre. Eram ambas criminosas, estavam ambas igualmente corrompidas pelo vício. Matilde, porém, era ainda menos repulsiva do que Ana Campista.

O tempo foi correndo, e pouco e pouco caiu no esquecimento a história das desordens e loucuras das duas esposas adúlteras, e foi também esmorecendo a vigilância que se tivera sobre elas.

Lopo de Freitas e Gil Soares, escravos dos encantos dessas reclusas, sentiam redobrar a paixão que os devorava, por isso mesmo que a violência erguera muralhas insuperáveis e duras grades de ferro entre eles e suas amantes.

As reclusas e os dois apaixonados conseguiram escreverem-se. Mais tarde, Gil Soares e Ana Campista, Lopo de Freitas e Matilde encontraram-se e falaram-se algumas vezes no locutório.

Libertino e audaz como Gil Soares, Lopo de Freitas seguia também como ele o mesmo caminho. Seus destinos pareciam medidos pelo mesmo pensamento. Ambos, porém, ignoravam que iam marchando no mesmo terreno, e semelhantemente Ana Campista e Matilde mal pensavam que a vida e o proceder de uma eram ali, no recolhimento, verdadeira cópia da vida e do proceder da outra.

Adiantava-se o ano de 1789. Estava chegando ao seu termo o mês de julho.

Um acontecimento tristíssimo preocupava todos os espíritos, e tinha feito ainda mais esquecer as duas reclusas.

Descobrira-se em Minas Gerais o trama da famosa e patriótica revolução chamada do Tiradentes. Haviam sido presos em Minas os principais chefes da conspiração, e no Rio de Janeiro, além do infeliz Tiradentes, um outro comprometido e muitos inocentes.

Luís de Vasconcelos tornava-se suspeitoso e perseguidor.

A desconfiança e o terror estavam derramados na capital do Brasil. Falava-se em forcas e horrorosos castigos, espalhavam-se boatos de projetadas desordens para se soltarem e salvarem os patriotas. Os corpos militares estavam alerta. O povo vivia em sobressalto.

A monção era favorável aos atrevimentos de um amor impetuoso e louco. Matilde ardia por ver-se fora e longe do recolhimento do Parto, e desde o mês de julho trabalhou por preparar os meios de sua evasão, de acordo com Lopo de Freitas.

O pensamento dominante na alma de Matilde era aquele mesmo que manifestara no dia do seu casamento. Era um incêndio.

Lopo resistiu. Mas por fim cedeu. Na sua última conferência com Matilde ficou resolvido que esta lançaria fogo ao recolhimento na madrugada de 24 de agosto e que, aproveitando a consequente desordem, fugiria para ir encontrar-se com o seu amante na rampa do largo do Paço, onde, embarcando-se ambos em algum batelão, atravessariam a baía e iriam ocultar-se em algum longínquo distrito do interior. Este plano tinha sido forjado e absolutamente adotado no locutório a 21 de agosto.

Entretanto, a mesma ideia de incêndio e de evasão fora também concebida e planejada por Ana Campista e por Gil Soares, que igualmente assentavam de efetuá-la nas primeiras horas do dia 24 de agosto.

Por que essa coincidência na escolha do dia para a execução dos sinistros projetos? É fácil de explicar. Um prejuízo havia e há ainda hoje, fundado, aliás, em observações repetidas de fenômenos atmosféricos muito constantes no mês de agosto. Por esse prejuízo acredita-se na infalibilidade de furacões e ventos fortíssimos no dia de S. Bartolomeu. Ora, uma ventania era útil para dar toda a veemência ao incêndio. E portanto, as duas reclusas designaram, cada uma de sua parte, a madrugada do santo das tempestades para fazerem arder o recolhimento.

Ana Campista e Gil Soares tinham assentado encontrarem-se no locutório a fim de tomarem as últimas disposições ao começar a noite de 22 de agosto.

Como mais tarde veremos o locutório das recolhidas do Parto era na igreja que ficava por baixo do coro.

Na tarde de 22 de agosto, estava o sacristão da capela de Nossa Senhora do Parto muito cansado, varrendo a sacristia, e a lembrar-se de que ainda tinha de varrer a nave da igreja e os corredores, quando desatou a rir, ouvindo uma voz bem conhecida repetir-lhe em tom baixinho:

Reverendo sacristão,
que estás com a vassoura em punho,
varrerei por ti a igreja,
se me deres cruz e cunho. (81-A)

– Toma lá, Bota-bicas – exclamou o sacristão atirando com a vassoura ao poeta varredor.

Bota-bicas era um doido inofensivo, às vezes divertido, que então vivia na cidade do Rio de Janeiro, tão guloso como apaixonado das libações alcoólicas. Improvisava quadrinhas, quando tinha fome ou sede.

Por que o chamavam Bota-bicas? Não sei. Certo é que o próprio doido perdeu a lembrança do seu nome de batismo, habituando-se à alcunha que lhe tinham posto.

Bota-bicas era uma notabilidade burlesca da cidade. Conhecia todos os seus habitantes e era de todos conhecido. O mesmo vice-rei recebera dele, uma ou outra vez, cumprimentos em consoantes.

O sacristão foi passear e Bota-bicas ficou varrendo, com a esperança de receber alguns vinténs. Acabou de varrer e deixou-se na igreja à espera do sacristão. E tanto esperou, que de cansado sentou-se, e recostando-se a uma das colunas do coro estava quase adormecendo, quando sentiu rumor e viu Gil Soares aproximar-se do locutório, a quem logo depois veio falar Ana Campista.

Curioso de ouvir a conversação de uma recolhida, Bota-bicas fingiu dormir e começou a roncar como um endemoninhado.

– Quem está aí? – perguntou Ana.

– É o Bota-bicas – respondeu Gil Soares.

– É preciso despertá-lo e fazê-lo sair.

– Mas esse doido conhece-nos, e se nos visse aqui poderia falar.

– E se nos ouvisse?

– Um homem que dorme não ouve. Aproveitemos o tempo.

Sobreveio algum inconveniente que possa contrariar o nosso plano?

– Não. Depois de amanhã, à 1 hora da madrugada, um incêndio estará devorando este maldito recolhimento, e às 2 horas conto achar-me fora dele e correndo para encontrar-te.

– À meia-noite em ponto – respondeu Gil Soares. – Postar-me-ei com dois fogosos cavalos à entrada do caminho de Catumbi.

É aí que te espero, Ana, para nunca mais nos separarmos, porque o asilo a que nos recolheremos é tão longe da capital como aprazível e seguro.

Nesse momento soou o toque de uma sineta.

– Adeus – disse Ana Campista. – Conta comigo. Até depois de amanhã às 2 horas da madrugada.

– Sim. Às 2 horas da madrugada.

Ana retirou-se. Gil Soares saiu da capela. E Bota-bicas deixou de roncar, e abriu os olhos.

– Fogo no Parto! – balbuciou ele espantado e levantando-se.

Era noite fechada. Bota-bicas não pensou mais no sacristão e, atirando-se para a rua, começou a correr e a bradar:

– Fogo no Parto! Fogo no Parto!

Todos aqueles que ouviam os gritos de Bota-bicas punham-se a rir.

– Ah! vocês riem-se? Pois é verdade! Fogo no Parto! Fogo no Parto!

Todos, porém, continuavam a rir do Bota-bicas e este a correr e a bradar, até que uma mão de ferro lhe travou o braço e uma voz grave e um pouco trêmula lhe disse:

– Basta, já sei. Queres tu cear e beber uma garrafa de bom vinho?

O terror de Bota-bicas dissipou-se de súbito ao encanto daquele convite.

– Se quero!

– Acompanha-me.

O doido obedeceu prontamente, e seguindo as pisadas do homem que lhe falava e que se conservava cuidadosamente rebuçado, entrou em uma taverna do largo da Carioca e foi sentar-se defronte no misterioso personagem, junto de uma rude mesa, em um gabinete escuro e úmido que havia no fundo da venda.

– Ninguém deve entrar aqui. Preciso estar só – disse o rebuçado ao taverneiro. – Mande vir peixe, pão e vinho.

O taverneiro desapareceu imediatamente.

Bota-bicas sentiu uma impressão suavíssima, ouvindo falar em peixe, pão e vinho. Não pôde conter-se e bradou:

– Sardinhas fritas, pimentões e aguardente!

– Terás tudo isso e mais ainda – tornou o rebuçado. – Responde, porém, primeiro. Quem ainda há pouco saiu antes de ti da capela do Parto?

– Foi o Sr. Gil Soares – respondeu o doido.

– E o que fez ele na igreja?

– Conversou no locutório.

– Com quem?

– Com a filha do Sr. Leôncio Peres.

O rebuçado violentou-se para conter uma imprecação.

O taverneiro trouxe quatro grandes postas de peixe frito, um prato de sardinhas com pimentões, farinha, pão e uma garrafa de vinho.

– Falta a aguardente – disse Bota-bicas, começando a devorar.

O rebuçado encheu de vinho um copo de quartilho, mas deteve o doido que se lançava já ao licor atrativo.

– Antes de beber hás de repetir-me a conversação de Gil Soares e… da recolhida.

– Fogo do Parto! – gritou Bota-bicas.

– Não grites, desgraçado! Explica-me isso em voz baixa, ouviste? Se gritares, deitarei fora o vinho.

O doido contou tudo quanto ouvira.

O rebuçado fê-lo repetir dez vezes todas as particularidades da trama.

– Podes beber – disse, entregando o copo a Bota-bicas. A garrafa de vinho ficou logo esgotada.

– Mais vinho e meia garrafa de aguardente! – bradou o rebuçado.

Bota-bicas exultou de prazer.

– Ouve – tornou daí a pouco o rebuçado. – Não quero que fales mais em fogo no Parto.

– Menos essa! – disse o doido.

– Por quê?

– Não quero que se queime a igreja.

– Não falarás.

– Fogo no Parto! – gritou Bota-bicas.

– Não te darei mais aguardente nem vinho.

– Algum outro me dará amanhã – respondeu o doido, e tornou a gritar!

– Fogo no Parto!

Ouviam-se risadas da gente que estava na taverna.

O rebuçado tranquilizou Bota-bicas, oferecendo-lhe um copo de aguardente.

– Gostas de genebra? – perguntou logo depois.

– Venha – disse Bota-bicas.

Às 9 horas da noite o doido estava completamente bêbedo, e saiu do gabinete quase arrastado pelo misterioso rebuçado.

– Mais um copo de aguardente – disse este.

E o pobre doido bebeu ainda e foi cambaleando pela rua, preso pelo braço do rebuçado, que o levou assim até o princípio da Rua da Cadeia, (82) e que, aí chegando, bradou por socorro com voz alterada e aflita.

Acudiram logo alguns soldados da guarda da cadeia.

– Este bêbedo ofendeu-me e persegue-me – exclamou o rebuçado.

Bota-bicas não podia defender-se, e foi conduzido pelos soldados, que o trancaram na cadeia, enquanto o rebuçado voltava tranquilamente para sua casa.

No dia seguinte Bota-bicas acordou espantado, achando-se na prisão. Lembrou-se vagamente do que lhe acontecera na véspera, sentia-se possuído de uma espécie de terror ao recordar-se do rebuçado, e voltando outra vez à sua ideia, tantas vezes gritou – Fogo no Parto! – que o carcereiro teve de impor-lhe silêncio ameaçando-o com pancadas.

O pobre doido calou-se, e, abraçado com as grades da janela da sala em que estava preso, passou o dia a olhar para a rua e a sofrer silencioso as zombarias dos meninos e dos garotos.

Ao cair da tarde, Bota-bicas viu o vice-rei Luís de Vasconcelos, que, saindo a cavalo, passava diante da cadeia. Perdendo então o medo ao carcereiro, bradou:

Bota-bicas está preso,
deves mandá-lo soltar,
Porque, preso, o Bota-bicas
não pode bicas botar.

O vice-rei pôs-se a rir e ordenou que soltassem o pobre doido.

Esta ordem foi logo cumprida, e Bota-bicas, festejado pelos rapazes, achou logo entre eles um que mais velho parecia, e que o levou a comer sardinhas fritas com pimentões e a beber aguardente em uma tasca do beco, hoje Rua do Cotovelo, (83) onde o reteve até alta noite.

Esse apreciador do Bota-bicas era um caixeiro da casa comercial de Leôncio Peres.

A espécie de caridade que esse caixeiro mostrara converteu-se no mais repreensível abuso da miséria e do vício do doido.

O caixeiro evidentemente trabalhava por embebedar outra vez Bota-bicas, esforçando-se por fazê-lo beber vinho, aguardente e genebra, que não cessava do mandar vir.

Bota-bicas lutava heroicamente com o seu vício dominante. Cedendo à atração dos licores que o caixeiro lhe oferecia, levava os copos à boca, bebia algumas gotas. Mas deitava logo fora quase todo o vinho, aguardente e genebra.

– Por que não bebes? – perguntou-lhe o caixeiro.

– Não quero embebedar-me. Preciso falar ao vice-rei antes da meia-noite.

Mas o vício não ficava de todo vencido. Bota-bicas não se embebedava. Não tinha, porém, ânimo de sair da tasca.

O cheiro da aguardente encantava-o e retinha-o. Fê-lo esquecer que as horas corriam e prendeu-o à tasca por tanto tempo que o pobre doido soltou um grito e levantou-se desesperado, ouvindo os sinos de algumas igrejas darem o sinal da meia-noite.

Bota-bicas, sem atender ao caixeiro que o procurava reter, correu para o palácio e declarou que queria falar com o vice-rei.

Os soldados da guarda do vice-rei a princípio riram-se do doido. Um deles, porém, aborrecido da sua insistência, deu-lhe tal empurrão, que o fez cair estirado nas pedras.

Bota-bicas soltou um gemido pungente. Levantou-se a custo e retirou-se, murmurando:

– Não foi culpa do Bota-bicas.

Reinava o silêncio.

No recolhimento do Parto dormiam as recolhidas em profundo sono.

Mas, ao soar aquela hora solene da meia-noite, Ana Campista ergueu-se. Prendeu ao braço esquerdo uma pequena trouxa, acendeu uma lanterna, envolveu-a com um lenço para encobrir a luz, tomou algumas velas de que já se tinha munido, saiu para o corredor e seguia em direção à igreja, quando a porta da cela de Matilde abriu-se, e as duas esposas adúlteras acharam-se em frente uma da outra.

Matilde trazia também uma lanterna na mão direita e algumas velas na esquerda.

Ana Campista havia recuado um passo. Logo, porém, adivinhando pelos seus os desígnios de Matilde, avançou para ela e murmurou a seus ouvidos com acento ameaçador:

– Incendiária!

Matilde estremeceu, cambaleou, e cairia desmaiada no assoalho, se Ana Campista a não recebesse nos braços.

Não foi a compaixão nem sentimento algum de humanidade que impediu aquela queda. O ruído não convinha a Ana Campista, que por isso prevenira com o auxilio dos seus braços o baque de um corpo.

Logo depois, a ousada e terrível mulher descansou no assoalho Matilde desmaiada, deixou junto dela a lanterna, cuja luz apagou, e as velas que lhe pertenciam, e prosseguiu com passos rápidos e leves para a capela.

À uma hora da madrugada os habitantes da capital despertaram sobressaltados aos dobres dos sinos e ao rufar dos tambores.

O vice-rei montou a cavalo e saiu. As autoridades correram aos seus postos, os corpos militares já estavam em armas.

No primeiro momento supôs-se que rebentara uma conspiração a favor dos presos políticos comprometidos na projetada revolução de Minas Gerais.

Os tranquilos habitantes da cidade do Rio de Janeiro hesitavam em sair de suas casas. Mas em breve encheram-se as ruas com a notícia de que se incendiara o recolhimento do Parto.

Fantasmas de negro fumo e horríveis línguas de chamas atestavam o grande infortúnio.

Uma fogueira colossal iluminava a cidade.

Ana Campista tomara com habilidade todas as suas medidas. Fora atear o incêndio no fundo da igreja, e o fogo desenvolveu-se sem ser sentido nesse lugar afastado.

Quando a luz infernal e ondas de fumo sufocante acordaram as recolhidas, já era tarde. O incêndio tinha conquistado toda a capela e invadia o recolhimento.

É inexprimível o terror e a desordem de que se apoderaram as infelizes recolhidas. Todas gritavam misericórdia, todas tentavam debalde salvarem-se.

Matilde, encontrada sem sentidos caída no corredor, tendo junto de si algumas velas e uma lanterna, foi logo reputada autora do horrível malefício.

Mas enfim, as portas começaram a ser despedaçadas, penetraram guardas e homens dedicados no recolhimento. As recolhidas arrojaram-se espantadas para a rua e Matilde foi levada nos braços de dois soldados para fora do edifício inflamado.

Entre as reclusas, uma, porém, houve que se mostrou intrépida e capaz de afrontar a morte.

O fogo abrasava a igreja toda. A reclusa heroica lembrou-se das imagens santas, e, esquecida de si própria, arrojou-se à nave coberta e cercada de flamas. Uma nuvem de fumo escureceu-lhe a vista. Mas nem assim recuou, e, voando por entre as chamas, desaparecendo na fumaça, correu ao altar-mor, tomou em seus braços a imagem de N. S. do Parto, e, sem dúvida defendida por tão sagrado escudo, apareceu sã e salva no meio da multidão, que a vitoriou entusiasmada.

O fogo consumiu todas as outras imagens.

No indizível tumulto e na desordem imensa a que o incêndio dava lugar, Ana Campista conseguira desaparecer.

Quando se fez a conta das recolhidas, deu-se por falta dela. Uns a acreditaram vítima do incêndio, outros pensaram que, aproveitando a confusão geral, ela tinha escapado a uma reclusão que aborrecia.

Mas faltava o tempo para as reflexões.

Empenhavam-se todos os esforços para atalhar o fogo. O fogo, porém, triunfava de todos os esforços do homem.

Com o estalido das madeiras, com o ruído dos tetos que desabavam, com o sussurro sinistro das chamas, misturavam-se os gritos da multidão, as reclamações dos bombeiros e as ordens dos chefes, dadas em alta voz.

Lia-se em todos os semblantes a dor, chegavam a todos os corações os gemidos e as lamentações das recolhidas, e no meio dessa aflição de tantos, desse pesar de quase todos, retumbava de espaço a espaço uma gargalhada estridente.

Era Bota-bicas, que em sua loucura ria-se daqueles que não tinham querido acreditar no seu prudente brado! – Fogo no Parto!

Enquanto o incêndio devorava assim a capela e o recolhimento de N. S. do Parto, Ana Campista corria para o sítio onde Gil Soares a devia estar esperando.

Sem temor e sem refletir no mal que havia feito, sem receio da justiça dos homens e da justiça de Deus, impávida e resoluta, Ana Campista foi, com acelerado passo, atravessando o campo do Rosário, depois o campo de Santana, e avançando sempre para o sítio desejado.

Em sua marcha rápida encontrara grupos de curiosos que se dirigiam ao lugar do incêndio. Ninguém lhe falou, ninguém procurou conhecê-la.

Uma única vez ouviu a voz de um desconhecido, que exclamou, ao vê-la passar:

– Onde irá essa infeliz?

Ana estremeceu. Aquela pergunta inesperada, aquela palavra – infeliz – soou a seus ouvidos como um presságio funesto. Era tarde, porém, para o arrependimento.

A incendiária do recolhimento do Parto continuou a caminhar, e, arfando de fadiga, saudou, enfim, de perto a entrada do caminho de Catumbi.

Alguns passos ainda, e achar-se-ia nos braços de Gil Soares.

Ana Campista caminhou um pouco mais; de súbito, porém, hesitou, parou e teve medo.

Gil Soares devia estar só e Ana começava a entrever alguns vultos exatamente no lugar onde o seu amante prometera esperá-la.

A esposa adúltera julgou ouvir um gemido abafado. Aterrada, pensou em voltar e fugir, mas faltaram-lhe as forças e ficou imóvel.

Um dos vultos avançou para ela, deixou cair uma capa em que se envolvia, e mostrando bem de perto o rosto, perguntou-lhe com voz surda e lúgubre

– Conheces-me?

A desgraçada reconheceu seu pai e caiu de joelhos.

Leôncio Peres arrastou-a para onde estavam os outros vultos.

Ana viu de um lado dois homens mascarados, do outro Gil Soares com uma mordaça na boca, atado a uma árvore, e perto dele dois cavalos selados.

O sítio era ermo. Não havia ali socorro possível.

– A cavalo! – disse Leôncio Peres à sua filha. Queriam fugir, fugiremos.

Ana estava a ponto de desmaiar.

– A cavalo! – repetiu o velho terrível e cruel.

E como não fosse logo obedecido, Leôncio fez que Ana Campista se aproximasse de Gil Soares, e, tirando um punhal do seio, tornou a dizer:

– A cavalo!

Ana pareceu não ouvir.

O velho descobriu o peito de Gil Soares, e marcando o lugar do coração, aplicou aí a ponta do punhal, que penetrou algumas linhas.

A vítima gemeu. Ana sentiu o sangue do amante salpicar-lhe as mãos e soltou um grito de dor extrema.

– A cavalo! – bradou Leôncio com a mão no punhal.

Ana Campista, trêmula e arquejante, montou a cavalo.

O velho imitou-a logo, e disse aos mascarados:

– Podeis retirar-vos. E… silêncio!

E quando não ouviu mais o ruído dos passos daqueles ferozes cúmplices de uma vingança bárbara e inumana, Leôncio Peres tocou para diante do seu o cavalo em que ia sua filha e obrigou-a a romper em rápida carreira.

Dentro em pouco Gil Soares nem mais ouviu o tropel dos cavalos.

Quando se dissiparam as trevas daquela tormentosa noite, Gil Soares foi encontrado ainda com a mordaça na boca, com os vestidos cheios de sangue e atado à arvore, como o deixara Leôncio Peres.

Debalde procuraram fazê-lo dar esclarecimentos sobre os motivos e os autores de semelhante violência. Gil Soares não se atreveu a acusar aquele pai cruel e selvagem. Porque também a si acusaria, publicando a verdade.

Leôncio Peres e Ana Campista desapareceram para sempre. O fim que ambos tiveram foi um mistério que nunca se revelou, e de que provavelmente a natureza deveu horrorizar-se.

Eis aqui a história do incêndio da capela e do recolhimento de N. S. do Parto, como a ouvi daquele padre velho de quem tenho já falado aos meus companheiros de passeio.

Mas eu estou convencido de que esse meu respeitável informante arranja de vez em quando, e apesar de ser padre, suas petas muito honradamente. E, pois que não desejo que nos nossos passeios a verdade seja sacrificada aos encantos da imaginação, vou dizer o que é preciso para impedir esse grave inconveniente.

Quem quiser prestar fé inteira à história que me contou o padre velho pode fazê-lo, na certeza de que não virá por isso grande mal ao mundo, e tenho a consolação de afirmar que muitas outras correm por aí tão autênticas e positivas como esta.

Pela minha parte, creio que o padre velho arranjou um romance em vez de contar-me uma história verídica. Entretanto, estou habilitado para assegurar que há nesse romance algumas verdades que convém indicar.

É exato que Ana Campista e Matilde existiram, foram casadas, esposas infiéis encerradas por seus maridos, em castigo das suas infidelidades, no recolhimento do Parto.

É exato que viveu no tempo do vice-rei Luís de Vasconcelos o tal doido Bota-bicas, e é absolutamente autêntica a sua prisão, como é autêntica a quadrinha pela qual o vice-rei o mandou soltar.

É exato que alguns pensaram e propalaram ter sido Matilde que pusera fogo ao recolhimento. Sobre Ana Campista, porém, recaíram ainda mais veementes suspeitas da perpetração desse crime, porque a sua fuga pareceu a muitos seguro indício de culpa.

É ainda verdade que Ana Campista desapareceu na madrugada de 24 de agosto, aproveitando-se do tumulto e da confusão a que deu motivo o incêndio para efetuar uma fuga tão afortunada ou tão fatal, que não foi possível descobrir-se o retiro a que se acolheu, ou o fim que teve essa desgraçada, de quem não houve mais notícia, apesar de todas as indagações e diligências das autoridades.

É, enfim, da mais completa exatidão o belo feito daquela recolhida que ousou arrostar as chamas para salvar a imagem sagrada de N. S. do Parto.

Resume-se nisto o pouco que sei de mais positivo a respeito do incêndio do recolhimento e da capela do Parto. Contento-me com esse pouco, e deixo as glórias do romanesco e dos alinhos de imaginação ao meu amigo e informante, o padre velho.

Notas

81-A. Alusão às moedas da época, com a cruz e o cunho d’armas do reino de Portugal.
82. Da Assembleia. Ia ter à cadeia velha, depois edifício da Câmara dos Deputados (atual Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – N. do E.).
83. Hoje Rua Vieira Fazenda. Nessa rua nasceu o grande historiador da cidade (com o desmonte total do histórico Morro do Castelo, obra iniciada em 1921, na administração do Prefeito Carlos Sampaio (Governo de Epitácio Pessoa), a Rua Vieira Fazenda, situada na encosta do monte, desapareceu também. (Augusto Maurício) – N. do E.).

Fonte

  • Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Edição revista e anotada por Gastão Penalva e prefaciada por Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1942. (Edições do Senado Federal, vol. 42, Brasília, 2009).

Imagem destacada

  • Atual Igreja de Nossa Senhora do Parto na Rua Rodrigo Silva, 7.

Mapa