A Capela e o Recolhimento de Nossa Senhora do Parto (V)

V

Enquanto com energia e atividade se empregavam todos os meios para atalhar o incêndio que devorava a capela e o recolhimento de N. S. do Parto, o vice-rei Luís de Vasconcelos ocupava-se também das pobres recolhidas que não podiam ficar na rua, nem acolher-se onde o seu recato não estivesse plena e religiosamente defendido. (84)

Em falta de melhor asilo, foram às recolhidas hospedar-se na casa dos terceiros franciscanos, que servia de hospital, como ainda hoje o é, e ali receberam elas todos os cuidados e socorros.

Matilde seguiu o destino de suas companheiras, que sem de todo absolvê-la da culpa daquele incêndio, acabaram por considerar Ana Campista a principal criminosa.

Ao romper do dia 24 de agosto, o incêndio tinha sido, enfim, dominado. Mas da capela e do recolhimento só restavam as paredes enegrecidas.

Luís de Vasconcelos observava triste, aos primeiros raios do sol, os restos fumegantes dos dois edifícios, quando, ao voltar os olhos, viu a dois passos o mestre Valentim.

– Está vendo, mestre? Perdemos em poucas horas o nosso trabalho de dois anos!

– Senhor vice-rei – disse o arquiteto friamente – a fazenda real, o culto religioso e a piedade perderam muito por certo, mas a arte…

– Que tem com isto a arte?

– Não perdeu coisa alguma.

Luís de Vasconcelos sorriu e tornou, logo depois:

– Perdôo-lhe esse egoísmo de artista. Mas o seu gênio vai sofrer um novo tormento.

– Como?

– Não temos dinheiro para levantar monumentos, e pois que ainda nos ficaram as paredes da capela e do recolhimento, é preciso que as aproveitemos nas novas obras da reedificação.

– Nas novas obras…

– Que devem começar imediatamente debaixo da sua direção.

O mestre Valentim conhecia bem o homem que lhe falava, e portanto, não replicou.

Luís de Vasconcelos tinha palavra e vontade forte, e no arbítrio e no despotismo recursos vigorosos para fazer-se obedecido.

Quando encontrava um obstáculo que lhe impedia a marcha, franzia as sobrancelhas, e o obstáculo desaparecia. Em uma hora, com quatro ordenanças, realizava mais do que hoje o Ministério das Obras Públicas em um ano, com toda a sua secretaria e com todos os seus engenheiros, empregados e exército de trabalhadores.

Apesar disso, confesso que não quisera ter vivido no tempo em que a liberdade e a sorte dos brasileiros pendiam dos cabelos das sobrancelhas do vice-rei.

Porém, Luís de Vasconcelos quis, mandou e fez-se.

Quentes estavam ainda as cinzas resultantes do incêndio, e tinham já começado as obras da reedificação da capela e do recolhimento de N. S. do Parto.

Como por encanto, apareceram madeiras, materiais e trabalhadores de sobra.

E dirigindo as obras, solícito, infatigável e zeloso mostrava-se, correndo de um para outro lado, e falando e gritando, com um acento minhoto muito forte que adquirira em Portugal o feio, mas habilíssimo mestre Valentim, a quem todos conheciam mesmo de longe pelo infalível capote de pano cor de vinho, que nas horas de trabalho e em seus passeios à noite trazia constantemente, quer fizesse calor, quer frio.

O capote cor de vinho do mestre Valentim era célebre no Rio de Janeiro, e mais de uma vez tinha sido o denunciante de seu dono, em algumas empresas amorosas.

Com tanto vigor e atividade foram as obras executadas, que se acharam prontas no fim do mesmo ano de 1789, e no dia 8 de dezembro puderam voltar N. S. do Parto ao seu trono e as recolhidas ao seu asilo.

A reedificação não mudou o aspecto nem as proporções dos edifícios, o que não pouco incomodava o mestre Valentim.

– Então, mestre? – perguntaram-lhe uma vez. – Concluiu, enfim, as suas obras?

– Aquelas obras não são minhas – respondeu o arquiteto. – Aquelas obras são do vice-rei.

Na tarde do dia 8 de dezembro de 1789, toda a população da cidade do Rio de Janeiro acudiu ao largo da Carioca, à ladeira de S. Antônio e à Rua do Parto para testemunhar a aparatosa solenidade da volta de N. S. do Parto e das recolhidas aos seus antigos domínios.

Houve uma brilhante procissão em que tomaram parte diversas corporações religiosas e todas as pessoas gradas da capital.

A Senhora do Parto foi conduzida em um rico andor carregado aos ombros do vice-rei Luís de Vasconcelos e dos homens mais graduados que a cidade contava.

Imediatamente depois do andor, vinham as recolhidas, duas a duas, com os olhos baixos e dando graças ao céus em piedosas orações.

O povo mostrava entre as recolhidas a mísera Matilde, que caminhava menos alegre e mais perturbada que todas as suas companheiras.

A procissão, que saíra da igreja de S. Antônio, onde tinha sido recolhida a imagem sagrada, seguiu logo para a capela reedificada, e aí foi a Senhora do Parto colocada no seu trono, e em seguida encerraram-se as recolhidas no seu asilo.

No dia seguinte, celebrou-se uma pomposa festividade religiosa na capela nova.

O vice-rei Luís de Vasconcelos fez doação do que se despendera com as obras da reedificação da capela e do recolhimento à mitra do Rio de Janeiro, ficando, pois, desde então, uma e outra debaixo da guarda e como propriedade episcopal, o que ainda mais confirmou a portaria do Ministério dos Negócios do Reino, datada de 30 de setembro de 1812.

Dezessete anos mais tarde, outra portaria, de 13 de novembro de 1829 (essa, porém, do bispo do Rio de Janeiro, passou a capela e a casa do recolhimento de N. S. do Parto para o domínio do seminário episcopal de São José, como parte do seu patrimônio, com a obrigação de sustentar o mesmo seminário o culto religioso na capela).

Mas, a esse tempo, já o recolhimento pertencia apenas à história do passado, tendo desaparecido essa instituição em consequência de uma espécie daquelas aposentadorias que, em seguida à vinda da família real portuguesa para o Brasil, puseram a tanta gente com os trastes na rua.

O palácio real tinha, em 1808, conquistado o convento dos Carmelitas e a igreja dos mesmos, que se tornara em capela real. E pouco depois, operou a conquista do hospital da Ordem Terceira do Carmo, que ficava contíguo, e ali estabeleceu a biblioteca também real, que foi franqueada ao público. Sendo, porém, indispensável compensar a perda sofrida pela Ordem Terceira, deu-se-lhe a casa do recolhimento de N. S. do Parto para aí ser arranjado o hospital.

Essa mudança efetuou-se em 1814. Desde 1812, porém, o recolhimento já tinha deixado de existir, ou porque se calculasse com a necessidade da compensação, que se realizou dois anos mais tarde, ou porque tivesse parecido a casa das recolhidas precisa e conveniente para algum outro mister.

A Santa Casa de Misericórdia foi o seio onde se abrigaram as meninas e moças que então ainda havia no recolhimento. É certo, porém, que nem todas seguiram esse destino, e que uma ou outra ficou vivendo no século, e recebendo uma pensão ou mensalidade paga, creio eu, pela mitra.

Ainda hoje, vê ir correndo o tempo, e rende, por isso e por outros favores, graças a Deus uma, pelo menos uma, das antigas recolhidas de N. S. do Parto. Mas não quero dizer quem é, nem onde mora, para poupá-la às visitas e perseguições dos curiosos que de ordinário se mostram sobremaneira impertinentes.

Assim, pois, o ano de 1812 pôs um ponto final ao recolhimento de N. S. do Parto.

Devemos ter saudade dele? Creio que não.

Esse recolhimento nem era um estabelecimento criado para instrução e educação de meninas, nem um convento de freiras. Abrigo de mulheres sem voto, serviu também, e muitas vezes para reclusão de filhas e de esposas condenadas por seus pais e por seus maridos.

Como simples retiro destinado àquelas que, aborrecidas do século, desejavam fugir ao mundo e consagrar-se exclusivamente a Deus, era, sem a menor dúvida, muito desnecessário, porque a mulher que, desenganada das ilusões do século, quer engolfar-se no amor divino, tem o mais completo dos retiros do mundo no exclusivismo desse amor puro e santo. Que receia ela fora das grades e dos muros de um recolhimento? A tentação do Diabo? Ah! porventura o Diabo não tem penetrado mil vezes nos recolhimentos e nos claustros? Não é o hábito que faz o monge.

Como reclusão para filhas desobedientes e esposas infiéis, era um abuso da prepotência do homem sobre a mulher e um castigo que a lei não autoriza nem pode autorizar, porque, além de tudo, permitia que o homem fosse ao mesmo tempo juiz e algoz, e que a ré, criminosa ou não, fosse julgada, condenada e punida sem que pudesse um só momento fazer-se ouvir.

Convenho em que era um excelente recurso para os maridos que se aborreciam de suas mulheres. Mas a religião não deve proteger a prepotência.

Como estabelecimento de educação para o sexo feminino, poderia ser muito útil, uma vez que fosse bem dirigido. Mas ainda bem que não perdurou, sendo o que era. Porque, se houvesse perdurado, talvez estivesse agora entregue a certas professoras de religiosa importação, que no Brasil florescem fora da lei ou acima da lei, pois que nem ao menos são sujeitas a exame das matérias que ensinam, sendo, aliás, isso a todos determinado e de todos exigido pelos regulamentos da instrução pública.

E bom foi que não tivesse sido convento de freiras, em vez de simples recolhimento de mulheres sem voto, o asilo de N. S. do Parto, porque assim contamos de menos um desses anacronismos de pedra e cal que ainda hoje existem, uma dessas tristíssimas prisões onde, a par de algumas, talvez bem poucas, respeitáveis e santas vocações, gemem em perpétuo tormento muitas pobres senhoras que poderiam ter sido dignas e virtuosas mães de família, e dado à pátria filhos prestantes e beneméritos.

Não me chamem irreligioso. A religião não pode andar em briga com a natureza. A primeira lei de Deus não pode ser ultrajada pelos homens em nome do mesmo Deus.

A mulher que por vocação, por arrependimento ou por qualquer outro motivo entender que lhe cumpre separar-se do mundo e procurar ser agradável a Deus, sujeitando-se a quantas privações e austeridades se observam nos conventos mais rígidos, pode bem fazê-lo em sua casa, e por certo que será prática mais meritória a observação de todas as regras claustrais no seio da liberdade do que dentro dos muros de uma prisão, e em consequência de um voto perpétuo, que equivale a um suicídio moral.

Os conventos são sepulturas de muitos corações que palpitam, almejando debalde a vida.

Um voto de freira é um roubo feito à sociedade. É a morte antes de se ter morrido. Nas portas dos conventos estariam bem cabidas as palavras que o Dante escreveu na entrada do seu Inferno.

Mas por onde vou eu? Fiz protestos de concisão, e estou divagando como um deputado que fala sobre o voto de graças. E em que me fui meter? Quem sabe se desabará sobre mim alguma horrível trovoada?

Corro a abrigar-me no seio sagrado. Entro na capela de N. S. do Parto.

Já dei uma ligeira ideia do triste e feio aspecto exterior desta capela e do antigo recolhimento que se exteriormente não é feio nem triste, mostra-se, pelo menos, irregular, muito comum e sem beleza alguma de arquitetura.

Completarei agora aquela rápida e insuficientíssima descrição, estudando o interior da capela.

Do antigo recolhimento falarei mais tarde, quando visitarmos o hospital da ordem terceira do Carmo.

O nosso muito ligeiro exame e passageira apreciação hão de limitar-se à sacristia e ao corpo principal da capela.

Comecemos pela sacristia.

É ela uma sala simples e pobre, mas proporcionada em tudo ao resto do edifício de que faz parte.

Entretanto, encontram-se presos às paredes desta sacristia preciosos tesouros artísticos que devem ser conservados com amor.

Além de um retrato do atual e venerando bispo, conde de Irajá, obra de arte devida ao pincel do Sr. Silva Manuel, e de um retrato cujo autor não conheço e que perpetua o nome de frei Francisco de Gênova, missionário apostólico, capuchinho, ex-procomissário, falecido no dia 3 de abril de 1852, religioso, sem dúvida, prestante, a quem a venerável Ordem Terceira de N. S. das Mercês, em agradecimento aos seus relevantes serviços, fez retratar para conservar a sua memória, além desses dois, digo eu, ainda há um retrato do vice-rei Luís de Vasconcelos, e mais dois quadros cujo valor aumenta à medida que o tempo vai correndo.

O primeiro desses quadros representa o incêndio do recolhimento e capela de N. S. do Parto, lendo-se abaixo da pintura a seguinte nota: “Fatal e rápido incêndio o que reduziu a cinzas em 23 de agosto de 1789 a igreja, suas imagens e todo o antigo recolhimento de N. S. do Parto, salvando-se unicamente ilesa dentre as chamas a milagrosa imagem da mesma Senhora.”

Cumpre observar que nesta nota vem marcado o dia 23 de agosto, como aquele em que teve lugar o incêndio. É um erro a que deu causa o haver-se ateado o fogo nas primeiras horas do dia 24. Todos os cronistas marcam o mesmo dia e a mesma data que marquei, exceto o padre Luís Gonçalves dos Santos, que, nas suas Memórias, diz na noite de 23 para 24 de agosto de 1787, o que é erro ainda maior.

O segundo quadro representa a capela e o recolhimento já reedificados, e traz, como o primeiro, a sua nota: “Feliz e pronta reedificação da igreja e todo o antigo recolhimento de N. S. do Parto, começada no dia 25 de agosto de 1789 e concluída em 8 (2 – N. do E.) de dezembro do mesmo ano.”

Nestes painéis se descobrem as figuras do vice-rei Luís de Vasconcelos e do mestre Valentim, e são ainda mais apreciáveis, e o serão dobradamente para os vindouros, porque aí se podem estudar os trajos da época desenhados com fidelidade e beleza. (85)

Estes dois painéis e o retrato de Luís de Vasconcelos são do mestre Leandro Joaquim.

Além das obras de arte que acabo de mencionar há na sacristia uma porção de parede coberta de pés e pernas, mãos, cabeças, seios e até meninos de cera, cumprimentos de promessas devotas e agradecidas à bondade e misericórdia divina. São os testemunhos em cera dos milagres que têm dado assunto a mil epigramas de certos viajantes que, quanto menos observam, mais falham.

A capela propriamente dita contém, além do altar-mor, onde é adorada N. S. do Parto, mais quatro altares, e ainda um portátil, do lado da Epístola, e uma capelinha de N. S. das Dores, do lado do Evangelho.

A imagem de N. S. do Parto ainda hoje é, e deve ser sempre a mesma que foi salva das chamas.

Os quatro altares laterais têm um painel de Santa Cecília e alguns outros, que são todos obra de Leandro Joaquim.

Duas palavras sobre este artista.

Leandro Joaquim foi contemporâneo do célebre Manuel da Cunha, que pintou o teto da capela do Senhor dos Passos na capela real e hoje imperial. Teve um pincel suave, como diz o Sr. Porto Alegre, e deixou muitos quadros na igreja de S. Sebastião do Castelo, (86) na de N. S. do Parto, conforme acabamos de ver, e provavelmente em outras.

Nada mais sei de Leandro Joaquim, e pena é que tão pouco se sabia dos nossos artistas.

Acabemos com o estudo da capela.

O coro chama agora, e por último, a nossa atenção. Encontram– se aí, embora em quase abandono, os sinais postremos do antigo recolhimento.

O coro da capela, aberto aos músicos que devem acompanhar com seus cantos as solenidades religiosas, está colocado entre um outro, defendido por grades de pau, que era o coro das recolhidas, e o locutório, que se mostra ainda no fundo da capela, vedado por grades também de pau.

O locutório servia também de comungatório às recolhidas e, além de comungatório, de sepulcrário a essas pobres criaturas.

Hoje em dia, está o antigo locutório reduzido a armazém de trastes velhos. Quem entra, porém, ali, ainda vê no meio de cadeiras e de armários desconjuntados o esquife em que eram por algumas horas depositados os cadáveres das recolhidas que morriam, e ainda pode contar as sepulturas que as esperavam, cárceres da morte preparados no seio de um cárcere da vida.

Não tenho mais que descrever. Restam-me, porém, algumas, bem poucas, recordações a deixar aqui registradas.

A capela de N. S. do Parto já teve o seu tempo de esplendor.

Celebravam-se nela festas pomposas, sendo entre outras muito notável a de Santa Cecília, cujo culto os músicos tinham e têm tomado a seu cargo.

Ouviram-se nessa capela os nossos principais oradores sagrados. Mas, por certo, que não se pode contar no número deles um padre Fuão de tal Macedo, que andava de hábito de Rilhafoles, (87) e que ali ia pregar muitas vezes com o fim de doutrinar o povo.

Esse padre Macedo não pregava sem ajudante, e o seu ajudante era sempre algum menino por ele industriado.

O padre subia ao púlpito, e em baixo do púlpito postava-se o menino.

Começava o orador o seu discurso, e imediatamente estabelecia um diálogo com o ajudante, que em caso de aperto, por esquecimento do seu papel, tinha o recurso de responder a tudo, bradando: “Sim, padre! Sim, padre!”

Ainda vivem pessoas que ouviram alguns desses sermões em diálogo, pregados pelo padre Macedo.

Organizaram-se na capela de N. S. do Parto algumas irmandades, e entre elas floresceu bastante a de Santa Cecília, irmandade de que proveio, penso eu, a sociedade de música do Rio de Janeiro, instituição de beneficência, a que deve o Brasil a fundação de um conservatório de música, que andou manquejando por muito tempo, e ainda hoje não anda o melhor possível, sendo de esperar (a esperança é tão doce!) que dentro em pouco marche perfeitamente como convém ao país e à arte musical.

Uma das irmandades estabelecidas na capela de N. S. do Parto deve desvanecer-se de uma singularidade, pois, se não me engano, tem uma reforma do seu compromisso aprovado, e talvez sancionada por portaria ou talvez por decreto de um juiz de paz.

A reitoria do seminário de S. José, pelo direito que lhe deu o bispo com a portaria de 13 de novembro de 1829, se ocupa desde algum tempo em recuperar diversos bens pertencentes à capela de N. S. do Parto, e que, segundo parece, não eram por ela aproveitados, e consequentemente forçada se tem visto a demandar com o governo e com irmandades.

Reivindicando a posse da casa do antigo recolhimento, mostrou aquela reitoria o seu direito ao governo, e com este conseguiu, a 15 de abril de 1861 fixar um contrato de locação da mesma casa por nove anos.

Em suas questões com algumas irmandades das estabelecidas na capela de N. S. do Parto, vai sendo igualmente feliz a reitoria do seminário de S. José.

Não tenho nem tempo, nem disposição para estudar profundamente essas questões judiciais da mitra ou do seminário de S. José com o governo e as irmandades estabelecidas na capela de N. S. do Parto. Preciso seria fazê-lo para que, no tribunal do meu passeio, desse eu a minha sentença.

Salto por cima dessas questões, e deixo a cada uma das partes o cuidado de sustentar e provar o seu direito. Mas não nosso abster-me de confessar que tenho motivos para fazer uma censurazinha, ou mesmo censurazona ao seminário de S. José e às irmandades estabelecidas na capela de que trato.

Quem entra nessa capela encontra os altares cheios de poeira, as paredes nunca espanadas, e uma falta de asseio e de cuidado que são verdadeiras ofensas ao culto.

Quem deve carregar com a culpa de tanta incúria? Sobre quem deve cair tanta poeira? Não discuto, não sei. Sustento somente que há necessidade de algumas escovadelas.

Tal foi o recolhimento, e tal foi e tal é a capela de N. S. do Parto.

Notas

84. As duas telas de Leandro Joaquim, que se admiram na sacristia da igreja do Parto, dão bem ideia do incêndio e das providências do vice-rei e de mestre Valentim. (As pinturas do Incêndio e Reedificação do Recolhimento do Parto de Francisco Muzzi encontram-se hoje no Museu Castro Maya na Chácara do Céu, no Rio de Janeiro – N. do E.)
85. Não só os trajes, como o mobiliário, a arquitetura e os tipos populares.
86. Mudada após o desmonte da colina histórica, para a igreja nova da Rua Haddock Lobo.

Fonte

  • Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Edição revista e anotada por Gastão Penalva e prefaciada por Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1942. (Edições do Senado Federal, vol. 42, Brasília, 2009).

Imagem destacada

  • Interior da atual Igreja de Nossa Senhora do Parto na Rua Rodrigo Silva, 7.

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