Convento de Santa Teresa (I)

I

Nos meus anteriores passeios já vos ocupei bastante com a longa história de um palácio e de um jardim. No palácio vimos os grandes da terra, um governador, alguns vice-reis, uma rainha, um rei, dois imperadores, princesas e príncipes; vimos a falange lisonjeira e inconstante dos cortesãos, falange que, à semelhança do mar, tem o seu fluxo e refluxo, porém irregulares e só determinados pelos anúncios da próspera ou adversa fortuna da realeza; ouvimos o ruído das festas e, enfim, também os ecos das intrépidas lutas políticas que vinham retumbar em suas salas.

No jardim vimos o povo, a multidão, artistas ávidos de glória, os folguedos, gozos inocentes, as flores e quadros prazenteiros; ouvimos cantos, testemunhamos os risos suaves da prosperidade, as contrações dolorosas da decadência e a alegria esperançosa da regeneração.

Basta por ora de cenas animadas pelo movimento, pelas solenidades e pelo encanto ardente da vida ruidosa do mundo. Vamos procurar painéis diferentes e sensações de outra natureza em algum daqueles piedosos asilos onde o silêncio é apenas quebrado pelo brando sussurro das orações ou pelas harmonias de um coro religioso.

Quero levar-vos hoje ao mosteiro das freiras carmelitas reformadas, ao retiro melancólico das filhas de Santa Teresa.

Vamos, pois, subir tanto quando for preciso aquele pitoresco monte; não vos guiarei, porém, por nenhuma dessas novas ruas que o trabalho inteligente do homem civilizado tem aberto pelas encostas do morro com um declive suave e insensível, e bordado de casas de campo e de jardins galantes. Terei de contar-vos daqui a pouco uma história do passado, que iria mal se fosse referida por entre as flores e as galas da atualidade.

O monte em que está situado o convento que vamos estudar não é mais o que era dantes, nem no nome, nem nas condições, nem no aspecto. Chamou-se morro de Nossa Senhora do Desterro desde o princípio do século décimo sétimo; no fim do décimo oitavo, porém, trocou esse nome pelo de Santa Teresa, que lhe deu o convento.

No outro tempo – e o outro tempo ainda era apenas há cem anos passados – os grandes da cidade e os negociantes ricos tinham as suas chácaras na então estrada, mais tarde Rua de Matacavalos, [1], e em outros sítios vizinhos, e o monte de Nossa Senhora do Desterro era uma solidão imensa, e mostrava-se coberto de florestas onde somente penetravam caçadores animosos a quem não faziam recuar os casos sinistros de ataques de quilombolas [2].

Hoje o morro de Santa Teresa está encravado no seio da cidade, como uma esmeralda em um enorme diadema. É ainda um saudável e desejado retiro, por que o rumor incessante da multidão que remoinha no vale não pode chegar até aos asilos tranquilos de suas alturas, e porque a sua atmosfera deleitosa e pura contrasta com ondas quentes e pesadas do ar que no vale se respira. Não é mais uma solidão como outrora: é ainda um subúrbio da cidade. Mas a cidade quase por todos os lados o cerca, e vai pouco a pouco subindo por ele como uma insaciável conquistadora.

É daquele tempo de outrora que principalmente vos ocuparei.

Deixemos, pois, as novas e belas ruas abertas ainda ontem e subamos de preferência pelo antigo Caminho do Desterro, que depois se transformou em Ladeira de Santa Teresa, ladeira íngreme, demasiado fatigante e que muito mais penosa seria se, a cada passo que vai subindo, o homem não tivesse ao lado direito um encanto que lhe ocupa o ouvido no murmúrio da corrente da Carioca, que desce pelo encanamento, e ao lado esquerdo mil encantos que lhe disputam os olhos, no quadro formoso e variadíssimo da baía do Rio de Janeiro.

Não temos necessidade de subir muito: o convento de Santa Teresa ali está. Voltai-vos à direita, levantai a cabeça, aí o tendes. Foi um piedoso retiro, e ao mesmo tempo uma prisão tristíssima. É um anacronismo de pedra e cal; mas, também, em todo o caso, foi santa a sua origem, e o mosteiro pode-se dizer a flor mística nascida de uma vocação sublime.

Esperai um pouco: não nos aproximemos ainda do convento.

Sentemo-nos em frente dele nestas pedras, e, antes de encetar a sua história, comecemos pela recordação de uma ermida que o precedeu.

Naquele mesmo lugar em que se levantou e ainda hoje se vê o mosteiro das religiosas carmelitas reformadas, existia dantes uma simples e pequena ermida, consagrada a Nossa Senhora do Desterro.

A antiguidade dessa ermida excede a era de 1629. Não se sabe ao certo o ano da sua fundação; ao menos, porém, conservaram as memórias daquela época o nome do bom católico a quem se deveu esse templozinho que se mostrava, no seio do deserto, como um santelmo da fé no meio da solidão tenebrosa. Foi Antônio Gomes do Desterro o fundador da ermida que mais tarde teve de transformar-se em um mosteiro de freiras.

Mas as circunstâncias e motivos que deram lugar à mudança do nome do monte e aos novos destinos da ermida não podem arrancar da história do Rio de Janeiro a sua nobre recordação.

O ano de 1710 gravou naquele sítio pitoresco a lembrança honrosa de um belo feito.

Foi ali, na subida do monte do Desterro, que se postou uma coluna de bravos para disputar o passo aos soldados franceses, comandados por Duclerc, que vinham investindo contra a cidade, e foi ali que esse punhado de valentes fez provar aos audaciosos inimigos invasores uma das primeiras refregas precursoras da sua completa derrota. O sangue dos guerreiros, que então correu, deixou marcado o teatro de uma ação gloriosa e lavrou a carta de nobreza do monte.

Quatro anos depois, em 1714, alguns religiosos de Santa Teresa, mais conhecidos por frades marianos, vieram da cidade da Bahia à do Rio de Janeiro, com a intenção de estabelecer nesta um convento, e foram hospedar-se na ermida de Nossa Senhora do Desterro.

Em semelhante andar a ainda muito limitada Sebastianópolis ficaria bem cedo mais enriquecida de conventos do que certas cidades da Espanha. Já havia realmente riqueza demais nesse gênero dentro dos muros da cidade de Mem de Sá.

Os habitantes de Sebastianópolis poderiam então sentir falta de tudo, menos, porém, de frades, pois que contavam já quatro casas bem povoadas de religiosos, a saber: o colégio dos Jesuítas e os conventos de S. Bento, do Carmo e de Santo Antônio ou dos Franciscanos. Tão satisfeitos estavam com o que tinham, que não desejavam mais. Receberam, portanto, sem entusiasmo, antes, com desanimadora frieza, os padres marianos, que, sem dúvida, ressentidos de tão grande ingratidão, se fizeram de volta para a Bahia no fim de dois anos, deixando outra vez solitária a ermida de Nossa Senhora do Desterro.

Evidentemente, Santa Teresa não se tinha mostrado muito propícia aos religiosos que com o seu nome se honravam, talvez, porém, que assim procedesse por uma justificável parcialidade pelo seu sexo. Porque já a esse tempo a santa reformadora da ordem carmelitana bem podia do alto do céu estar vendo no berço de uma menina de pouco nascida o cálice mimoso da flor mais pura e fragrante dos seus jardins neste mundo, e nessa menina a predestinada para ser a fundadora de um mosteiro que a ele seria consagrado.

Adivinhais que teve enfim a origem do convento que temos: diante de nós, e que vou vos fazer ouvir a história da mulher notável que o fez levantar.

Barão de Planitz – 1840 – Vista da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tirada do Convento de Santa Teresa (direita) – Prefeitura do Distrito Federal – Biblioteca Municipal – Coleção Cidade do Rio de Janeiro
Essa história se apresenta com as proporções de uma lenda, e fala, portanto, mais ao coração do que à razão, e mais à fé do que ao raciocínio. Não é uma tradição popular, que se escuta sorrindo e com disposição prévia para descrê-la; é, nada menos, que uma história autêntica com o testemunho do padre José Gonçalves, que a escreveu e que a devia saber perfeitamente, porque era irmão da piedosa senhora de quem vou falar, e ainda com o testemunho jurado de frei Manuel de Jesus, religioso carmelita descalço, que foi o confessor dessa mesma senhora.

Baltasar Lisboa perpetuou nos seus Anais do Rio de Janeiro a relação minuciosa da vida, sofrimentos e feitos da fundadora do convento de Santa Teresa, e as freiras nesse mosteiro conservam ainda por certo e religiosamente um manuscrito em que com muito detalhe tudo isso se refere.

Deus me perdoe, se estou em erro não acompanhando nem o padre José Gonçalves, nem frei Manuel de Jesus, nem Silva Lisboa, no juízo que fizeram sobre aquela exaltadíssima donzela e na credulidade, a meu ver pueril, que os levou a encher de absurdos e de ridículos episódios a história que escreveram.

A verdade não pode estar nem no sarcasmo do incrédulo que zomba da viva flama de um santo entusiasmo, nem na cegueira de certas crenças que por absurdas se desfazem, ou por grosseiras se rejeitam ao primeiro intuito.

Não posso, não devo tratar deste assunto com ligeireza e tom brincalhão. Terei de falar-vos de um entusiasmo, de uma fé e de uma vocação que se acenderam na alma de uma mulher desde os seus anos de primeira infância. A criança é neste caso veneranda como um velho, e talvez que brilhe nela ainda mais puro um raio da luz divina, porque as crianças são anjos.

Na história da fundadora do convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro não me farei eco dos absurdos que li. Mas que razão terei para rejeitar ou calar o que encontrei nela de extraordinário?

A mulher não raciocina fria e vigorosamente como o homem.

Sente, porém, melhor, e imagina com mais ardor que o homem. Excedendo-o no sentimento, excede-o por isso mesmo sempre no amor; sobrepujando-o na imaginação, sobrepuja-o por isso mesmo sempre no entusiasmo. O segredo desta superioridade está provavelmente na enervação delicadíssima da mulher.

Dai a uma mulher uma sensibilidade excessiva, o que é fácil pela sua própria organização; levai o seu amor e o seu entusiasmo ao extremo, e vê-la-eis heroína ou inspirada. Heroína, afrontando os perigos e a morte com o sorriso nos lábios; inspirada, cercando-se de uma auréola sobre humana, vendo e ouvindo o que não vos é dado ouvir nem ver. Passa-se realmente o que ela vê e ouve? Não podeis, como os filósofos, dizer que sim; mas quem vos autoriza a dizer que não? Apelais para a razão? Mas a razão humana é limitada, e tudo quanto Deus pode fazer por uma criatura nem vós podeis compreender, nem vos é lícito negar.

Há sem dúvida ilusões filhas do exaltamento da imaginação e do sentimento; mas no meio delas há também a grande verdade que acende o entusiasmo e o amor. Há o arrebatamento da alma em um santo fogo que é a inspiração. Há prodígios que o espírito humano observa e não explica. Há, enfim, mistérios cuja decifração pertence somente a Deus.

A impostura, o charlatanismo e a hipocrisia procuram às vezes arremedar a inspiração A prudência convida-nos, portanto, a desconfiar do que nos parece extraordinário, e a crítica examina os fatos antes de aceitá-los. Mas, como observa Lamartine, a crítica lança-se por terra diante da sinceridade de uma criança.

Barão de Planitz – 1840 – Vista da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tirada do Convento de Santa Teresa (esquerda) – Prefeitura do Distrito Federal – Biblioteca Municipal – Coleção Cidade do Rio de Janeiro
Escutai, pois, a história um pouco extraordinária da piedosa fundadora do convento de Santa Tereza.

No ano de 1715, e aos 15 de outubro, exatamente no dia em que a Igreja celebra a festa daquela santa reformadora da ordem dos carmelitas nasceu na cidade do Rio de Janeiro uma menina que na pia batismal recebeu o nome de Jacinta. Foram seus pais José Rodrigues Aires, natural do Porto e Maria de Lemos Pereira, natural desta cidade de S. Sebastião.

Desde os mais tenros anos a menina se fez notável por um precoce desenvolvimento de inteligência, por uma fácil e grande percepção, por uma imaginação vivíssima, e naturalmente também por uma esquisita e excessiva sensibilidade. Diz-se que era pálida e bela, e tão nervosa que ainda muito cedo começou a experimentar cruéis sofrimentos que a medicina poderia bem atribuir à exagerada predominância daquele temperamento.

Jacinta, apenas tinha deixado o berço e principiado a compreender o que ouvia, foi logo sujeita a uma educação toda religiosa. Ainda falava mal e já repetia de cor as suaves orações da Igreja, adormecia à noite escutando lendas e histórias de santos, e de manhã acordava alegre para acompanhar seus pais a ouvir missa. Trazia ao pescoço uns bentinhos com a imagem de Nossa Senhora, que sua mãe lhe dera, dizendo-lhe que por eles ver-se-ia sempre livre de perigos e desgraças.

Entre as lendas que com interesse e prazer ouvia, é provável ou pelo menos muito possível, que Jacinta tivesse também ouvido a história de Santa Tereza, a santa do dia do seu nascimento, sua advogada de predileção, e por quem chamava sempre que um temor a assaltava ou que uma dor vinha atormentá-la.

Assim, pois, a educação ligava-se com a organização dessa menina para acender-lhe o entusiasmo na alma e o amor no coração.

E o entusiasmo e o amor bem depressa se inflamaram.

Aos oito anos de idade, ou ainda muito mais cedo, se se deve acreditar nos padres cujo testemunho lembrei, já era mais contemplativa e meditabunda do que se podia esperar em uma criança. Em suaves visões que a deixavam em prolongados êxtases, via às vezes Nossa Senhora, às vezes Santa Tereza, que lhe apareciam e lhe falavam.

Quem tem ideia dos costumes e do sentimento dos últimos séculos conceberá facilmente que fora impossível que com as histórias de santos que se contavam à menina não se misturassem também contos sinistros de aparições e perseguições do diabo, animado pelo desejo de levar à perdição os pecadores a quem tentava.

Naturalmente Jacinta, com imaginação tão exaltada, e ao mesmo tempo com a sua infantil credulidade, teve de tremer mil vezes em face do demônio perseguidor.

Um dia em que voltava da escola, Jacinta sentiu-se arrebatada junto da Igreja do Rosário, e imediatamente arrojada e submergida em uma lagoa que perto havia. A pobre inocente nesse dia não trazia ao pescoço os seus bentinhos; fez, porém, o sinal da cruz e achou-se logo sobre a água. Bradou por Santa Tereza, que lhe apareceu de súbito na figura de uma menina formosa, e estendendo-lhe as mãos, tirou-a da lagoa.

Mais tarde, era pelo inimigo tentador atirada do alto da barreira do morro de S. Antônio e cruelmente apedrejada. Mas logo salva pela santa da sua devoção.

Em outro dia, cena igual se passava com ela na barreira chamada de Santa Rita, e uma porção de barro que se despegara como que a encerrava em uma sepultura. Ao seu primeiro grito acode Santa Tereza, ainda na figura de formosa menina, que a arranca do abismo e senta-se com ela, fala-lhe, e ouvindo-a lastimar-se da perda de algumas pedras de um broche, corre sobre ele os dedos e de novo lho entrega perfeito e com as pedras que faltavam.

Como esta, muitas outras visões teve Jacinta, e por outros duros casos de perseguição do demônio disse ter passado. Mentia ao dizê-lo? Com que fim e movida por quem? Não havia mentira nem realidade: havia a exaltação das idéias, a imaginação, o entusiasmo, criando todo esse mundo em que faziam viver essa menina extraordinária.

À medida que os anos iam passando, aumentava a devoção, multiplicavam-se as visões e os êxtases, demonstravam-se mais fortes os sofrimentos nervosos e começava a mais austera penitência.

Jacinta ainda não era moça, e já com repetidos jejuns e com o tormento dos cilícios se martirizava. Passava de noite longas horas em orações e dava o exemplo de uma angélica paciência, chorando a morte de seu pai sem levar a dor ao desespero. Moça, enfim, e bela, como fora galante criança, nenhum mancebo tocou-lhe o coração, que era somente de Deus. A donzela tinha desde muito escolhido o seu esposo e abrasava-se de amor por ele. Era uma noiva de Cristo, e desejosa de consagrar-se toda ao esposo amado, pensou no retiro religioso em que o amor e os gozos fruem-se em orações e penitências.

Desejou entrar para um convento. A mãe da piedosa donzela opôs-se aos desejos da filha. Criou-lhe obstáculos e dificuldades, negou-lhe a sua permissão e exigiu obediência. Jacinta obedeceu sem queixar-se; mas guardou inalterável e firme a sua resolução e não continuou menos no exercício da penitência a mais austera e constante.

As visões e os êxtases reproduziam-se frequentemente. Entre outras, uma vez Jacinta viu aparecer-lhe Jesus, curvado sob o peso da cruz, olhando-a com amor, e logo depois, tirando o lenho sagrado para descansá-lo por momentos sobre os ombros dela.

Na razão direta da exaltação do espírito aumentavam também as enfermidades do corpo de Jacinta. Os fenômenos nervosos tomavam proporções assustadoras que, aliás, se explicavam então, ora pela influência maléfica do demônio, ora por divinos milagres.

Aos 15 anos de idade a donzela sofreu um acesso nervoso que a deixou em completa insensibilidade e como se estivesse morta durante 48 horas, de modo que as disposições para o seu enterro já estavam tomadas, quando tornou a si.

As notícias de todos esses casos corriam de boca em boca pela cidade, e naturalmente eram exageradas pela imaginação do povo, que começava a considerar Jacinta uma santa, uma escolhida do Senhor.

Não faltou o prestígio do milagre para autenticar a santidade da donzela. Disse-se então, por exemplo, que tendo uma escrava dado à luz uma criança aleijada dos pés, Jacinta a curara e tornara perfeita com o simples e instantâneo contato das suas mãos.

Havia em tudo isso alguns fenômenos sem dúvida admiráveis, de mistura com falsas apreciações, devidas à ignorância e à rude credulidade daqueles tempos. As próprias relações de alguns dos êxtases da donzela indicam bem que ela sofria essa terrível enfermidade a que os médicos dão o nome de catalepsia.

O espírito dos poucos ilustrados observadores, prevenido e dominado pelo encanto do sobrenatural, via menos do que era indispensável para compreender e explicar a verdade dos fatos, e muito mais talvez do que realmente se passava, para encher de absurdos a relação que deixaram.

Jacinta, porém, não era uma hipócrita. Os seus sentidos podiam iludi-la, o seu entusiasmo cercá-la de ficções que lhe pareceram realidades. Mas, do mesmo modo que Joana d’Arc e outras personagens célebres, era sincera, quando referia suas visões e seus êxtases. A sua inspiração produzia maravilhas.

Sobretudo, é digna de atenção e de curioso estudo uma certa semelhança que se encontra nas visões, nos êxtases e nas perseguições do demônio, que se referem a Jacinta, com o que neste mesmo sentido se encontra na história de Santa Tereza. Fazendo notar esta semelhança, não é minha intenção aplicar à história de Santa Tereza as observações que acabo de escrever a respeito da exaltada ou inspirada donzela fluminense; quis apenas indicar que Jacinta, tendo pleno conhecimento da vida daquela santa, podia talvez em suas visões e em seus êxtases reproduzir com a imaginação o que já tinha gravado em seu espírito. Como quer que fosse, a virtude imensa da donzela inspirada, a sua reputação e a constância com que guardava o propósito de retirar-se para um convento, não só acabaram por triunfar da oposição materna, mas levaram uma outra jovem a imitar e seguir aquele exemplo. Francisca, irmã de Jacinta, uniu-se a esta por novos laços e marchou pelo mesmo caminho.

As duas irmãs preparavam-se para embarcar em um navio com destino a Lisboa, onde, conforme uma licença obtida, tinham de escolher o convento a que se deviam recolher, quando se tornou impossível a viagem em consequência dos graves resultados de uma queda que deixara Jacinta perigosamente enferma.

Melhorando um pouco, depois de muitas semanas de dolorosos sofrimentos, Jacinta, que não podia ainda vencer a distância que a separava da matriz de sua freguesia, apoiava-se no braço de sua irmã e ia com ela ouvir missa e entregar-se aos exercícios da devoção na ermida de Nossa Senhora do Desterro, onde estavam habitando os religiosos capuchinhos italianos, que ali ficaram até o ano de 1742.

Um dia, voltando da ermida as duas irmãs, adiantaram-se pela estrada de Matacavalos, e por acaso notaram uma antiga chácara que nesse lugar havia, e que se denominava da Bica. A chácara estava abandonada e sem cultura, a casa em completa ruína; o sítio, porém, era então solitário e recomendou-se muito às religiosas donzelas por ser contíguo ao monte de Nossa Senhora do Desterro e vizinha à ermida.

Jacinta mostrou grande empenho por aquela chácara, e vencidas algumas dificuldades, obteve-a mediante a intervenção de seu tio materno Manoel Pereira Ramos, que a comprou ao tenente coronel Domingos Rodrigues Távora, seu proprietário.

Que pretendia fazer Jacinta? Qual era o seu pensamento?

Ninguém o adivinhou talvez.

Corria o ano de 1742, quando isso se passava; e no dia 25 de março, Jacinta, chamando para junto de si o padre José Gonçalves, seu irmão, confiou-lhe um projeto que devia ser por ela em breves horas realizado e que até então cumpria ficasse abafado, em profundo segredo. O padre, habituado a considerar a irmã uma serva querida de Deus, respeitou esse segredo religiosamente. Na madrugada do seguinte dia, Jacinta saiu, acompanhada do padre José, dirigiu-se à ermida de Nossa Senhora do Desterro, onde ouviu missa, confessou-se e comungou, e de volta seguiu para Matacavalos, e entrando na casa arruinada da chácara, disse para sempre adeus aos lares paternos e ao resto do mundo. O único tesouro que trouxera consigo fora uma imagem do Menino-Deus. Mas na casa não encontrou nenhum nicho, nenhum oratória. Não se desconsolou por isso. Com o auxílio do padre José, improvisou junto de uma parede um altar provisório, feito de varas convenientemente dispostas e ornado de flores e de ervas odoríferas que ela foi colher perto de uma fonte que no quintal havia. Foi aos pés desse altar singelo e rude, mas certamente agradável ao Senhor, que Jacinta rezou as suas primeiras orações naquele retiro. Levantando-se no fim de uma hora, abraçou seu irmão, repetiu-lhe as últimas despedidas que o encarregava de levar a seus parentes e amigos, e pediu-lhe que dissesse a sua irmã que da sua vontade dependia vir, se quisesse, encontrá-la e acompanhá-la naquele abrigo ameno e puro que do mundo a separava.

Jacinta não tinha esquecido sua irmã, quando tomara a resolução de retirar-se perpetuamente para o asilo que preparara. Muito escrupulosa, porém, não queria que por sua influência direta Francisca desse um passo que só a mais decidida vocação devia determinar. Queria esperar pela irmã, e não conduzi-la.

Francisca não tardou em mostrar-se ao lado de sua irmã. Logo no dia seguinte o padre José Gonçalves a veio trazer ao retiro do Menino-Deus.

As duas irmãs, arrancando-se aos tumultos da cidade, aos gozos do lar doméstico e ao amor dos parentes para viver na solidão e no silêncio, para entregar-se mais livremente à penitência e para consagrar suas almas só ao amor de Deus, quiseram até esquecer seus nomes de família, tomando outros que já eram do céu.

Assim, do ano de 1742 em diante, chamaram-se essas piedosas donzelas Jacinta de S. José e Francisca de Jesus Maria.

Notas

  1. Rua Riachuelo.
  2. Núcleos de escravos foragidos, que se tornavam selvagens.

Fonte

  • Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Edição revista e anotada por Gastão Penalva e prefaciada por Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1942. (Edições do Senado Federal, vol. 42, Brasília, 2009).

Texto original

Imagem destacada

  • Convento de Santa Teresa visto da Cinelândia.

Mapa – Convento de Santa Teresa