Palácio Imperial (I)

I

Eis-nos em frente do Palácio Imperial, no Largo do Paço.

Por onde viemos para chegar aqui, e como nos achamos de improviso neste lugar, é o que não importa saber, nem eu poderia dizê-lo.

Consolemo-nos desta primeira irregularidade do nosso passeio; além de nós, há por esse mundo muita gente que se acha em excelentes posições sem saber como. O nosso século é fértil em milagres desta ordem. Tem-se visto no correr dele até quadrúpedes que voam.

Paremos agora um pouco, e conversemos por dez minutos.

É justo que estudemos com interesse a história do palácio imperial; antes, porém, cumpre dizer duas palavras a respeito do lugar em que ele está situado.

Esta praça tem mudado tanto de proporções como de nome, e ainda mais vezes de nome do que de proporções.

A sua extensão primitiva não a posso determinar; no último quartel, porém, do século passado, o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa deu-lhe regularidade e limites positivos, fazendo construir um belo cais de cantaria granítica à imitação de outro feito em Lisboa pela marinha real, e ficou então a praça formando um quadrilongo de setenta e cinco braças de comprimento sobre quarenta e cinco de largura.

Esse cais tinha defronte do palácio uma rampa destinada a facilitar os desembarques, e de espaço a espaço, assentos de pedra. Tudo isso desapareceu desde 1841 ou 1842, por ordem da câmara municipal, que projetou construir outro cais mais ao mar. Lá se foram, porém, dezenove anos, e ainda estamos à espera dele!

Entretanto, as obras de aterro têm já estendido bastante a praça, de modo que agora se acha não pouco afastado da praia o chafariz, que, levantado primeiro no meio daquela, fizera o vice-rei Luís de Vasconcelos substituir por outro à face do mar.

Não nos queixemos da nossa edilidade: ela já fez o que pôde, e que infelizmente se reduziu, pouco mais ou menos, a cousa nenhuma. Lembra-me, porém, que para começo de trabalhos do novo cais se construiu uma trincheira de tábuas, seguras por pregos que tinham as pontas para o mar e as cabeças para terra, e o mar, aproveitando-se daquela bem ordenada pregadura, em um dia em que fez mareta, atirou com as tábuas à praia, de maneira que ensinou à câmara municipal que até os mesmos pregos devem saber onde põem os pés e onde têm as cabeças. Não tenho ainda certeza de que esta lição aproveitasse.

O governo tomou a seu cargo a obra do novo cais, e há esperanças de que mais diligente se há de mostrar; no entanto, as dimensões da praça excedem já muito às que tinha no fim do século passado e por não poucos anos conservou.

Falei das proporções. Agora tratarei dos nomes.

A praia em que se termina esta praça teve primitivamente o nome de – praia da Senhora do Ó – e hei de em breve dizê-lo porquê; mas o nome mais antigo dos que tem tido esta praça é lugar do Ferreiro da Polé; a origem de semelhante denominação perde-se na noite dos tempos. Quer me parecer que não podia ser simpática.

No fim do século décimo-sexto, ou no princípio do seguinte, chamou-se Praça do Carmo, porque era dominada pelo convento levantado pelos carmelitas.

De 1743 em diante, recebeu o nome de terreiro do Paço, em razão de se haver construído nela a casa dos governadores, e os carmelitas não brigaram com o conde de Bobadela por essa mudança de denominação, porque, enfim, palavras não adubam sopas, e frades não fazem questões de pouco mais ou menos.

Por último, Largo do Paço ficou sendo chamada. Não aposto, porém, que conserve por muito tempo o mesmo nome, a menos que o Estado se resolva a levantar outro palácio no mesmo lugar, pois o que existe, desde alguns anos recebeu do cupim formal intimação para procurar um substituto.

E antes dessas instantes intimações do cupim, já ao dever e ao patriotismo cumpria ter lembrada a necessidade urgente de uma tal substituição.

Este palácio que estamos vendo nem tem no seu aspecto exterior bastante majestade, nem em suas disposições e ornatos interiores suficiente magnificência para mostrar-se digno do chefe do Estado e digno da nação. Há na cidade casas de particulares que incontestavelmente ostentam mais riqueza e oferecem mais cômodo do que ele.

Nas monarquias, o esplendor da majestade reflete sobre toda a nação, e a casa do monarca, o palácio do chefe do Estado, que atrai todas as vistas, que abre suas salas aos representantes das nações estrangeiras e a todos os cidadãos, deve ser grandioso como a ideia que representa.

Não me digam que o Brasil não tem dinheiro para levantar um palácio. Oh! se tem. O patronato acha sempre recursos financeiros para fazer presentes à custa da pátria amada, e só o dever e o patriotismo terão sempre de esbarrar diante do monstro chamado déficit.

O corpo legislativo não pode continuar a descuidar-se desta evidente necessidade. Além de tudo, o palácio está arruinado e a nação deve oferecer ao seu primeiro cidadão um edifício que, pelo menos, se adivinhe logo o que é, quando se olhar para ele.

Comecei falando mal do palácio, antes de descrevê-lo e de contar a sua história.

Vou emendar o meu erro.

Para um palácio, este envelheceu depressa, pois que apenas conta cento e dezoito anos de idade, tendo sido, portanto, construído quase dois séculos depois da fundação da cidade do Rio de Janeiro.

Não vos admireis de que o governo de Portugal deixasse correr tanto tempo antes de fazer edificar uma casa para os governadores desta capitania; porque também o Brasil é nação independente desde 1822, e ainda não mandou construir um palácio para o imperador.

Até ao fim do século XVII, os governadores da capitania do Rio de Janeiro não tiveram casa própria para sua residência, à exceção, sem dúvida, do primeiro, que foi Salvador Correia de Sá, que seguramente havia de levantar, como os seus companheiros colonizadores, o seu competente rancho no Morro do Castelo. Os que depois se foram seguindo moraram onde puderam ou melhor lhes pareceu.

Em 1698, ordenou el-rei de Portugal que para residência dos governadores do Rio de Janeiro se comprasse a casa da Rua Direita, que depois ficou sendo chamada dos Contos, e que ainda hoje é assim por alguns dos nossos velhos denominada, porque para ela se passou a provedoria, e debaixo do seu teto se recolhiam os cabedais da coroa, importantes em avultados contos de réis.

Atualmente está o Correio Nacional estabelecido nessa casa, que bem merece conservar o nome dos Contos, pois que a respeito dela podem-se referir contos largos, e por sinal que até foi incendiada, quando em 1710 os franceses atacaram a cidade.

Oportunamente conversaremos sobre este caso.

Chegou, enfim, a época do palácio que estamos estudando. Lê-se sobre o seu pórtico principal a inscrição que recorda o ano em que foi construído, e o nome daquele a quem o devemos:

“Reinando El-Rei Dom João V, nosso Senhor, sendo governador destas capitanias e da de Minas Gerais, Gomes Freire de Andrade, do seu conselho, Sargento-Mor de Batalha dos seus Exércitos. Ano de 1743.”

Se não conheceis bastante que homem era esse Gomes Freire de Andrade, depois conde de Bobadela, informai-vos das melhores obras antigas de que se ufana a capital do Brasil, e avaliareis as proporções desse ilustre varão pela altura dos monumentos e pela importância dos trabalhos que executou.

Se ainda não vos basta isso, ide ao paço da nossa municipalidade, e aí encontrareis o seu retrato conservado pela mais justa gratidão e permitido muito excepcionalmente por el-rei de Portugal, que reconheceu os direitos que ele tinha a essa patriótica manifestação, de que até então somente os soberanos podiam ser objeto.

Quereis ainda conhecê-lo melhor? Apreciai-o na morte, depois de havê-lo admirado na vida. O conde de Bobadela achava-se com a saúde alterada, quando os espanhóis, em 1762, tomaram a colônia do Sacramento, e logo depois desbarataram uma esquadrilha que em socorro dos portugueses ele mandara. Estes desastres e a injusta murmuração com que o ofenderam os negociantes do Rio de Janeiro, que muito sofreram em seus interesses com a perda da colônia, o afrontaram de paixão tão grave que morreu em janeiro de 1763.

Realmente, já não há Bobadelas no nosso tempo! Nem com a lanterna de Diógenes seríamos capazes de encontrar um ministro que morresse de desgosto por causa de um desastre desses. A medicina pode descansar completamente: a moléstia de que morreu o conde de Bobadela já não aparece hoje em dia, nem mesmo com caráter esporádico.

Não esqueçamos, porém, a história do palácio.

Palácio? É preciso atender ao modo por que nos exprimimos. Palácio não. Casa dos governadores sim. Uma carta régia proibiu chamar palácio à casa da residência dos governadores. Palácio, pois, deveríamos chamá-la somente mais tarde, se não estivéssemos há mais de um século de distância daquela ordem de el-rei, e por isso livres de culpa e pena.

Um pouco de favor da virtude da paciência. Trata-se agora da descrição.

O palácio (perdi o medo à carta régia) passou por algumas modificações, que convém lembrar cronologicamente.

Constava ele, como ainda hoje, de quatro faces octogonais. A principal, que olha para o mar, oferecia à vista três corpos separados por pilastras e com três janelas em cada um deles. Tinha um só andar, e inferiormente três pórticos de pedra mármore branca, sendo o do centro formado por duas colunas rematadas superiormente por graciosas cambotas, e os dos laterais mais estreitos e de forma vulgar. De um e outro lado destes, abriam-se janelas de peitoril. Cada um dos pórticos descansava sobre uma escadaria própria, de mármore branco.

A face do norte apresentava, ao ligar-se com a anterior descrita, um pórtico fronteiro a outro igual da face do sul, dando entrada para o saguão, e além desse, mais dois para serventia particular, e entre eles duas cocheiras e dezenove janelas de peitoril. No pavimento superior, havia vinte e quatro janelas como as da fachada principal.

Na face do sul, que olha para o atual paço da Câmara dos Deputados [1] [2] havia, além do outro pórtico, vinte e três janelas de peitoril e mais uma porta para serviço particular, e no pavimento superior vinte e três janelas, das quais sete eram de peitoril e colocadas quase a meio da fachada.

A face do fundo apresentava nove janelas de sacada no andar superior, e inferiormente um pórtico ladeado por quatro janelas de peitoril.

A entrada do palácio era nobre: duas filas de colunas conduziam à escada, que agora é nobre, também constando de dois lances no mesmo sentido e outros dois em sentido oposto. Como era, porém, no tempo do conde de Bobadela, não sei: não nos ficou memória da escada primitiva, sem dúvida porque no século passado ainda não se conhecia no Brasil a importância extraordinária que tem uma boa escada.

Depois do conde de Bobadela, chegou a seu tempo a vez do vice-rei conde de Resende aumentar as proporções do palácio. O primeiro, como simples governador, tinha-se contentado com um só andar, além do pavimento inferior. O conde de Resende, que era vice-rei, elevou-se a maior altura, e fez construir um segundo andar de doze janelas de sacada que se vê ao meio do primeiro da face do norte.

Abro um parêntesis nesta descrição, que não me custa nada, porque apenas tenho o trabalho de copiá-la de um livro cujo título não declaro, para ver se passo por autor da obra, e interrompendo por momentos o fio do discurso, entro em certas explicações que não me parecem desnecessárias.

Visto que, com as obras dos dois condes, o palácio já tem não menos de cento e vinte e cinco janelas, convém dizer o que se via nesse tempo mais próximo a elas.

Da face principal via-se o mar, isso já ficou dito; da face do norte via-se o chafariz ainda no meio da praça, e já então, ou mais tarde, a casa dos Teles [3] defronte. Os Teles foram homens notáveis no Rio de Janeiro pela sua riqueza e pela sua posição. A sua fama ficou perpetuada por um arco, que tomou o nome deles, e que não é mais do que um passadiço. A face do fundo namorava o convento dos carmelitas, que um dia havia de acabar por conquistar. A face do sul, enfim, tinha em sua frente a casa da câmara e cadeia, que é hoje o paço da câmara dos deputados, e além dessa, a casa da ópera, que se tornou uma dependência do palácio.

Ainda aqui não fecho o parêntesis.

Preciso dizer quem morava na casa dos governadores e dos vice-reis; pois que, além deles, mais alguém se achava estabelecido debaixo do mesmo teto.

Moravam com eles a justiça e a fazenda.

Os vice-reis ocupavam mais de meio da galeria superior, além do segundo andar, para o lado da praça.

Para o mesmo lado, todo o resto da casa até ao canto fronteiro ao convento do Carmo servia de assento ao tribunal da relação.

No pavimento inferior e sob esses domínios da relação ficava a fábrica moedal, como a chama Pizarro, e o quarto do canto que olha por um lado para a casa da câmara, e por outra para o convento dos carmelitas, era habitado pelo provedor da moeda.

Estava, por assim dizer, todo o governo da terra reunido no mesmo ponto,e a um grito do vice-rei levantar-se-iam a relação com a espada de Astreia, a câmara municipal, que representa o povo, o provedor da moeda, que forjava o encanto do mundo, e até podia acudir o carcereiro da cadeia com a competente guarda.

E para tudo isso, bastava um grito. Hoje grita-se horas inteiras, de noite, nas ruas da cidade, e é um milagre, quando aparece a patrulha!

Era agora ocasião de fechar o parêntesis que abri ainda há pouco. Acho-me, porém tão fatigado que suponho conveniente deixá-lo ainda aberto, enquanto descanso.

Notas

  1. A Câmara dos Deputados funcionou na Antiga Cadeia Velha até a construção do edifício atual, no mesmo sítio. (N. do R.)
  2. O Palácio Tiradentes foi sede da Câmara dos Deputados entre 1926 e 1960, quando esta se mudou para Brasília. Serve atualmente como sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ). (N. do E.)
  3. Ainda existe a passagem que se chama Arco do Teles, ligando a Praça Quinze de Novembro à Rua do Mercado. Tem o nome de travessa do Comércio. (N. do R.)

Fonte

  • Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Edição revista e anotada por Gastão Penalva e prefaciada por Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1942. (Edições do Senado Federal, vol. 42, Brasília, 2009).

Imagem destacada

  • Paço Imperial na Praça XV de Novembro.

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