Palácio Imperial (IV)

IV

Sou agora obrigado a dar um salto enorme, um salto do ano de 1808 e da época do reino do Brasil, da que me ocupava estudando o palácio imperial, para dois séculos e mais alguns lustros antes. Assim é preciso fazer, visto que me comprometi a dar a história antiga da casa que foi convento dos carmelitas.

Irei referir de envolta com alguns fatos registrados nas crônicas do tempo uma ou duas tradições populares. Colhi os primeiros nos livros e memórias que consultei, e as segundas contou-mas um padre velho que morreu há dez anos. Daqueles não é lícito duvidar; a estas pode negar-se crédito sem receio de molestar o padre, que já não tem que ver com as cousas deste mundo.

Sem mais preâmbulos.

O famoso Mem de Sá acabava apenas de lançar os fundamentos da esperançosa Sebastianópolis: seu sobrinho Salvador Correia de Sá tecia ainda no alto do Morro do Castelo os primeiros fios daquele ninho de águia que foi o berço da atual capital do Império. A cidade nascente, modesto grupo de palhoças e casinhas humildes, não tinha ainda descido a banhar seus pés de princesa nas mansas ondas do formoso golfo que do seu trono da colina dominava; a povoação começava apenas, e já aqui e ali surgiam e se mostravam no vale algumas piedosas ermidas que a devoção erguera de improviso.

Cada uma delas era tão simples como a oração que sai da alma de um menino e sobe ao céu nas asas do anjo da inocência; e eram todas flores divinas abertas no seio daquele novo paraíso que se mostrara aos olhos dos portugueses.

Havia a ermida de Nossa Senhora da Conceição, a ermida de Nossa Senhora da Ajuda, a ermida de Nossa Senhora do Ó, três turíbulos em que se queimava o puro incenso da devoção aos pés da Mãe de Deus.

Creio que a mais antiga dessas ermidas, ou antes, a primeira que se levantou fora do Morro do Castelo foi a de Nossa Senhora do Ó, e é exatamente dessa que me cumpre falar.

A ermida de Nossa Senhora do Ó estava situada na vargem, diz assim uma memória do tempo, ou mais positivamente à borda do mar, e no mesmo lugar em que depois se levantou o convento do Carmo.

A praia que ficava fronteira à ermida chamava-se praia da Senhora do Ó, nome que, como já ficou dito, perdeu logo que se foram ali edificando algumas casas.

A ermida estava em terras pertencentes a uma mulher cujo nome não chegou até nós. O piedoso devoto que ergueu naquela solidão essa igrejinha modesta e graciosa fora um ermitão que também não pode ser lembrado pelo seu nome.

Nos primeiros quatro lustros que correram depois da fundação da cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, era a ordem religiosa dos jesuítas a única que tomara um posto e começara a lançar raízes na nova colônia. Essa primazia de direito competia aos irmãos de Nóbrega e de Anchieta, que também muito haviam contribuído para a expulsão dos franceses em 1567.

Mas o ermitão de Nossa Senhora do Ó contava que não tarde viriam igualmente os carmelitas estabelecer-se no Rio de Janeiro; por qualquer motivo ele os amava, e por eles esperando, pedira e obtivera a favor da ermida de Nossa Senhora do Ó a doação do monte que foi depois chamado de Santo Antônio, e que então se chamou o monte do Carmo, porque para os carmelitas o destinava o ermitão.

Até aqui a história. Falaram as crônicas do tempo. Agora começa a tradição e fala o padre velho.

Quem era aquele ermitão? Envolvia-se algum segredo na fundação da ermida? Por que, de preferência, e tanto se lembrava o ermitão dos carmelitas?

A tradição popular adivinhou ou improvisou o seguinte.

Um jovem português, cedendo aos votos de seus pais e aos impulsos do próprio coração, determinara trocar o mundo pelo claustro e acolhera-se ao convento do Carmo de Beja, em Portugal.

Passados alguns meses, em uma pomposa solenidade que teve lugar na igreja do convento, o jovem viu uma donzela de maravilhosa beleza e abrasou-se de amor por ela. Nem a oração, nem os jejuns, nem os cilícios puderam vencer e destruir essa paixão que subitamente lhe rebentara na alma.

O jovem reconheceu que uma mulher se levantava diante da sua vocação de outrora, e que a força o arrastava do claustro para o mundo.

Ainda era tempo: fugiu ao claustro.

O mais velho dos carmelitas do convento, ao vê-lo sair, disse-lhe em tom profético: “Trocas a mãe de Deus pela filha do homem: não serás feliz! Um dia lembrar-te-ás do Monte Carmelo!”

Apesar disso, o mancebo saiu, mas seus pais o repeliram.

Um ano depois, a família inteira da formosa donzela teve de passar ao Brasil para estabelecer-se na cidade de Salvador! O mancebo apaixonado acompanhou na mesma caravela a dona do seu coração.

Os dois jovens amaram-se e souberam que eram amados. Sorria-lhes o futuro, quando, na cidade do Salvador, um cavalheiro de nobre estirpe, colono português considerado, pediu a donzela em casamento. O pai mandou, a filha chorou, mas teve de obedecer. O amante pensou morrer. Viveu, porém, ainda para amar com o mesmo ardor a mulher que pertencia já a outro.

O marido teve conhecimento daquele amor que era já um desvario; mas conteve-se, porque não podia duvidar da virtude da esposa.

No fim do ano de 1566, Mem de Sá chamou os bravos a pelejar contra os franceses do Rio de Janeiro.

O marido da bela moça alistou-se entre os guerreiros e fez-se acompanhar de sua mulher. Tinha a ideia de ficar na nova colônia que se ia fundar e de assim ver-se livre do importuno apaixonado de sua esposa. Quando, porém, o navio em que ia levantou a âncora, o mancebo apareceu a seus olhos.

O marido turvou-se. Guardou, porém, silêncio.

A expedição chegou ao seu destino, e no dia 20 de janeiro de 1567 travou-se a peleja entre os portugueses e os franceses.

No momento de avançarem os portugueses para atacar a Praça do Uruçumirim, o marido voltou-se de repente para trás e viu que sua esposa olhava antes para o antigo amante do que para ele. Corou e tremeu: corara de vergonha e tremera de raiva.

Ao travar-se o combate o marido chegou-se ao amante de sua mulher, bateu-lhe no ombro e disse-lhe:

– Quero ver se sabes ser valente como queres parecer apaixonado.

O amante olhou para o feliz rival com surpresa e furor, e imediatamente atirou-se na peleja como um leão.

O marido tivera um mau pensamento, excitando o amante a procurar a morte dos bravos; ao vê-lo, porém, batendo-se com arrojo sublime, arrependeu-se, teve pejo, imitou-o, foi um segundo leão.

E marido e amante caíram cobertos de feridas.

A vitória coroou o esforço dos portugueses.

Dias depois, na rude povoação que havia perto do Pão de Açúcar, e que ficou sendo chamada Vila Velha, estavam em duas cabanas diversas dois moribundos prestes a exalar o derradeiro suspiro.

À cabeceira de um deles velava uma mulher, uma mulher que durante um mês inteiro, sem descansar, sem dormir, cuidou do marido e rezou por ele. Não lhe valeram cuidados nem orações: ficou viúva, e aborrecida do mundo e da vida que até então vivera, resolveu-se a ficar na solidão do Rio de Janeiro, pedindo e obtendo uma sesmaria no vale junto ao Morro do Castelo, onde se fundara a nova cidade.

Na outra cabana, a luta entre a vida e a morte mais longa tinha sido ainda: um pobre mancebo sem mãe, sem esposa, sem irmã que olhasse por ele, esteve suspenso entre a eternidade e o mundo, sem consciência do que sofria, delirante ou sem voz, e enfim abandonado pelo próprio prático que alguns remédios lhe aplicava. A seu lado ficou somente um padre que rezava de joelhos diante de uma imagem sagrada.

Ao amanhecer o dia em que se contava que expirasse o mancebo, abriu ele os olhos e falou.

Não delirava. Tinha passado a febre. Estava salvo.

– Obrigado, meu padre! – disse com voz sumida.

– Agradecei a quem vos salvou – respondeu o padre, mostrando a imagem.

O mancebo olhou e viu: era uma imagem de Nossa Senhora do Ó.

Seguiu-se uma convalescença de alguns meses. No fim deles o mancebo agradeceu ao padre os cuidados que lhe devia, e pediu-lhe que lhe desse a imagem de Nossa Senhora do Ó.

O padre hesitava.

– Ouvi-me em confissão, meu padre – disse o mancebo.

E então de joelhos aos pés do ministro do Senhor, abriu-lhe o seu coração e patenteou-lhe todos os seus segredos, todos os seus erros e um profundo arrependimento.

O padre absolveu-o, abençoou-o, e fazendo-o levantar-se, perguntou-lhe:

– E que pretendeis fazer agora, meu filho?

– Tocando a beira da sepultura, devorado pela febre, exaltado pelo delírio, eu escutava incessantemente uma voz terrível repetir a meus ouvidos as palavras do frade carmelita: “Trocas a mãe de Deus pela filha do homem: não serás feliz! Um dia lembrar-te-ás do Monte Carmelo.” Eu me sentia condenado e desejava a morte, quando uma noite, no meio de violenta agitação, voltando os olhos, eu vos vi, meu padre, ajoelhado a rezar diante daquela imagem sagrada. Contemplei-a também em êxtase, pareceu-me ver em seus olhos o anúncio da minha salvação: tive fé, esperei e fui salvo.

– E então, agora?

– Meu padre, fiz votos de erguer nesta terra inculta uma ermida a Nossa Senhora do Ó, que me arrancou das garras da morte, e de provar o arrependimento que me acompanha da ingratidão com que fugi do tranquilo e sagrado asilo do Carmo, procurando alcançar na nova cidade que se está fundando um terreno espaçoso que guardarei para os carmelitas, que não deixarão de vir estabelecer-se no Brasil.

O padre tomou a imagem da Senhora do Ó nos braços, beijou-a fervorosamente nos pés, e depois entregou-a ao mancebo.

Passados apenas dois dias o mancebo tinha já escolhido o sítio onde queria levantar a ermida. Soube, porém, que o lugar estava compreendido na sesmaria concedida à viúva de um nobre português que morrera das feridas que recebera no combate do dia 20 de janeiro.

O mancebo não desanimou: o seu desejo era santo, e para realizá-lo foi pedir algumas braças de terra à sesmeira.

Bateu à porta da cabana da triste viúva, e mandaram-no entrar.

Estremeceu, ouvindo a voz que lhe falara. Mas entrou na cabana.

Uma mulher, formosa sempre, mas pálida, aflita e abatida, mostrou-se a seus olhos. Era ela: era a sua antiga amante, que, ao vê-lo, soltou um grito de espanto.

O mancebo parecia um velho sexagenário. Sua barba era longa, e assim como os seus cabelos, tinha embranquecido toda.

Reconheceram-se ambos. Nenhum dos dois, porém, falou de amor, nem sonhou com os gozos do mundo. Uma sepultura e um arrependimento, dois abismos onde as lembranças do passado aparecem sempre negras, separavam os amantes de outrora.

O mancebo de cabelos brancos disse ao que vinha.

A viúva, pálida e aflita, deu-lhe sem hesitar a licença pedida para a construção da ermida nas suas terras.

– Adeus! – disseram ambos a um tempo. E levantaram para o céu os olhos.

Com os lábios, diziam-se o último adeus na Terra, com os olhos emprazavam-se para se encontrarem no Céu.

Em pouco tempo, a ermida de Nossa Senhora do Ó foi erguida a poucas braças do mar e defronte da praia que por alguns anos conservou o nome de Praia da Senhora do Ó.

O mancebo de cabelos brancos fez-se ermitão. Viveu ainda alguns anos. Nunca mais, porém, tornou a ver a bela viúva que com tanta paixão idolatrara.

Aquele – adeus – que a um só tempo um e outro se tinham dito fora, com efeito, a sua despedida no mundo. Ambos, porém, aproximaram-se enlaçados pela morte, pois que morreram no mesmo dia e à mesma hora, e foram enterrados na mesma ermida de Nossa Senhora do Ó.

E assim foi que teve princípio a ermida de Nossa Senhora do Ó.

A tradição popular, conservada e transmitida pelo padre velho de que falei, termina aqui.

Filha somente e toda ela da imaginação ou pela imaginação exagerada e desnaturada, esta tradição assenta ao menos sobre dois fatos incontestáveis.

A ermida de Nossa Senhora do Ó data daquela época, a mais antiga da cidade do Rio de Janeiro.

A existência do ermitão que a fundara está marcada em memórias desse tempo.

Em 1589, chegaram ao Rio de Janeiro os primeiros monges beneditinos, e por ordem de Salvador Correia de Sá (o velho), foram acolhidos na ermida de Nossa Senhora do Ó. Mas logo no ano seguinte transferiram a sua residência para o monte, onde levantaram depois o seu mosteiro, e que ficou sendo chamado o Morro de São Bento.

Bom foi que tão depressa tivessem mudado de residência; porque no mesmo ano de 1590 entraram a barra do Rio de Janeiro alguns carmelitas, e desembarcando na praia da Senhora do Ó, foram acolher-se à ermida que os beneditinos acabavam de deixar.

Pelo que se vê, na cidade do Rio de Janeiro e em outras, os frades têm muita predileção pelos sítios elevados ou pelas montanhas. Dir-se-ia que muito aborrecidos das coisas da terra, procuram assim colocar-se mais afastados dos homens, entre o mundo e o céu. Se esta explicação não serve, não posso acertar outra melhor.

Os carmelitas, porém, fizeram uma exceção àquela regra e preferiram o vale às alturas.

O ermitão que para eles tinha pedido e alcançado o monte, a que por isso chamara do Carmo, perdeu o seu tempo e os seus cuidados.

Os carmelitas acharam tão bonita e tão cômoda a situação da ermida de Nossa Senhora do Ó, que por ela desprezaram o monte do Carmo, e para logo trataram de construir ali mesmo uma casa mais espaçosa.

Ganharam com essa resolução principalmente os frades menores da ordem de São Francisco, que em 1607 tomaram para si o monte, que, mudando de donos, mudou também de nome e começou a chamar-se Morro de Santo Antônio.

Mas a ermida de Nossa Senhora do Ó, apesar das obras com que fora aumentada, estava ainda longe de oferecer as proporções de um convento. Em regra geral, os frades gostam muito do seu cômodo, e os carmelitas parecem-se nesse ponto com todos os outros das diversas ordens.

Assim, pois, determinaram os frades do Carmo construir um edifício digno deles, e em pouco tempo, e com insignificante dispêndio, viu-se olhando para o mar uma espaçosa casa com dois andares de dormitórios, tendo cada um deles treze janelas rasgadas.

Os bons frades tiveram, ou de graça ou por módico preço, quanto lhes era preciso para tão grande obra. A madeira sobrava, a pedra nada custou, porque os carmelitas a mandaram tirar das Enxadas, cuja pedreira lhes fora doada. A mão-de-obra era para alguns sobejamente paga com uma bênção daqueles religiosos, e para os outros um serviço que por um fraco estipêndio se prestava então; e além de todas estas facilidades, vinha ainda o recurso das esmolas e dos donativos dos fiéis, que não importava menos.

A obra concluiu-se. Mas, ou porque na execução dela se abalassem as paredes da ermida contígua, ou porque construída esta em terreno pouco sólido, não pudesse ter longa duração, certo é que não muito depois sobreveio uma horrível catástrofe, que teve consequências funestas.

Um dia, celebravam os carmelitas uma solenidade religiosa, a ermida estava cheia de devotos, e eis que de repente estala o teto que as paredes abandonam, e estas e aquele caem, abatem e esmagam um crescido número de indivíduos.

Este fatal acontecimento explicava-se fácil e satisfatoriamente por alguma das duas hipóteses que há pouco estabeleci. O povo porém, que é poeta, embora não escreva linhas medidas, prefere quase sempre o sobrenatural ao real, e em matéria de explicações costuma pedi-las antes à imaginação do que à razão.

Um do povo inventou ou sonhou, alguns aperfeiçoaram o invento ou o sonho, e muitos acreditaram e foram transmitindo de pais a filhos e de filhos a netos uma segunda tradição a respeito da ermida de Nossa Senhora do Ó.

Eis aqui, pouco mais ou menos, o que diz a tradição popular.

O ermitão que levantara aquela igrejinha e a triste viúva que doara o terreno descansavam desde seis anos em suas sepulturas, no seio dela. Mas suas almas, penando ainda no mundo, velavam a horas mortas da noite à porta da ermida.

O ermitão e a viúva, como se ajustados estivessem para deixar iguais disposições, tinham recomendado em seus testamentos que durante sete anos, no aniversário de sua morte, se acendesse uma vela em suas sepulturas e se dissessem três missas por suas almas.

Seis anos haviam já passado.

Os carmelitas faziam construir com ardor e esmero o seu convento, que estava a ponto de terminar-se, e no entanto, pretendiam alguns homens das vizinhanças que à meia-noite ouviam-se ali gemidos pungentes, e diziam que eram as almas do ermitão e da viúva que lamentavam, sem dúvida, que os frades que cuidavam tanto em preparar excelente casa para sua vivenda esquecessem o teto sagrado, a ermida que ameaçava ruína.

Aqueles gemidos eram lúgubres presságios.

Sinistras previsões eram murmuradas a medo por alguns, e uma boa velha que passava por viver vida santa afirmava, tremendo, que não tinha ainda acontecido uma grande desgraça na ermida, porque a Senhora do Ó esperava primeiro ver passar o sétimo aniversário da morte do ermitão e da viúva.

E o dia daquele sétimo aniversário chegou, e aconteceu que também nesse dia teve de celebrar-se uma solenidade pomposa na ermida.

A festa não impediu que se acendesse uma vela sobre a sepultura do ermitão e outra sobre a sepultura da viúva, que eram na nave da ermida.

As missas, porém, que deviam ser não menos de seis, tiveram de ser ditas em um altar que havia no consistório da pequena igreja.

A festa começara. As missas continuavam e as velas ardiam.

Enfim, a sexta, a derradeira missa chegou ao seu termo, e quando no altar do consistório o celebrante pronunciou a última palavra, na nave da capela apagaram-se, de súbito e por si mesmas, as velas das sepulturas, e imediatamente a ermida abateu e desabaram todas as suas paredes.

Aqui termina a tradição, que julguei não dever desprezar, embora seja eu o primeiro a negar-lhe crédito.

Livre da tradição popular, que perturba um pouco ou mesmo muito a verdade da história, prossigo desafrontado na fiel narração dos fatos.

Sobre as ruínas da ermida de Nossa Senhora do Ó, construíram os carmelitas um templo que se mostrou em harmonia com as proporções do seu convento. Essa igreja, porém, foi ainda reedificada, começando as obras da reedificação no ano de 1761, no tempo do ilustre conde de Bobadela.

O nosso afamado mestre Valentim, o artista que era grande naquela época, e que grande seria também na atualidade, concorreu com o seu imenso talento para a renovação e embelezamento da igreja dos carmelitas.

É justo não esquecer que nenhuma destas mudanças e construções fez pôr de lado a antiga devoção de Nossa Senhora do Ó, que, aliás, continuou sempre a ser profundamente venerada na igreja que substituíra a sua ermida.

Nada mais me ocorre agora para dizer acerca da história antiga do convento do Carmo, que desde 1808 faz parte do palácio imperial.

Farei, porém, um protesto, antes de concluir.

Talvez alguém há que me lance em rosto o haver misturado com a narração de fatos autenticados nas nossas memórias históricas duas tradições populares, que, aliás, se reduzem a uma única, e que evidentemente pecam por inverossímeis e por falta de fundamento.

Mas, tradições como essas abundam nas arquivos da imaginação e da credulidade de todos os povos, e encontram-se em todas as nações.

Que mal faz perpetuá-las? São as poesias do povo, os velhos amam-nas, os meninos as aprendem de cor, os poetas as escutam cobiçosos, a terra da pátria se enfeita com elas.

Terei ainda de referir mais algumas, e destas, a maior parte colherei muito conscienciosamente nas páginas dos anais mais sérios e áridos que possuímos.

Quem não gostar de um passeio assim dado, não passeie comigo.

E não zombem do povo, não. Não se riam da inocente credulidade do povo.

Há credulidades de sábios doutores que não ficam aquém da credulidade do povo.

Eu podia apresentar um milhão de exemplos. Contentar-me-ei, porém, com um só que vem a propósito, pois que se refere à igreja dos carmelitas.

Pergunto: havia doutores e homens notavelmente ilustrados na ordem carmelitana?

Respondo: havia incontestavelmente.

Pois agora, escutem.

Segundo informa nos seus Anais do Rio de Janeiro [1], Baltasar da Silva Lisboa, depois de concluída a igreja dos carmelitas, foi enriquecido o seu altar-mor com algumas relíquias que constaram, além do Santo Lenho, de três cabelos de Nossa Senhora e da touca de Santana.

A religião católica, única verdadeira e santa, a religião puríssima de Jesus Cristo, devia, porventura, receber a imposição de semelhantes puerilidades, o nome sagrado da Virgem Imaculada, desse divino símbolo do mais angélico amor, devia ser assim profanado?

Donde nasceram tais profanações, senão da credulidade?

E se não foi a credulidade que as determinou, ai meu Deus! – a consequência seria mil vezes pior.

Basta.

A minha excursão pelos domínios do passado chegou ao seu termo.

Voltarei em breve a continuar o estudo do palácio imperial, considerando-o em uma época muito mais recente.

Notas

  1. V. a reedição dessa obra raríssima feita recentemente pelo Departamento de História da Prefeitura Municipal. (N. do R.)

Fonte

  • Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Edição revista e anotada por Gastão Penalva e prefaciada por Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1942. (Edições do Senado Federal, vol. 42, Brasília, 2009).

Imagem destacada

  • Vista do exterior da galeria da aclamação do Rei Dom João VI, no Rio de Janeiro, por Jean Baptiste Debret, via NYPL.

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