Palácio Imperial (V)

V

Na manhã do dia 26 de abril de 1821, quando o príncipe regente do Brasil acabava de receber as últimas despedidas de seu augusto pai, e a nau Dom João VI [1], abrindo suas brancas asas, começava a cortar as águas do plácido janeiro para levar a Lisboa a família real, dois velhos criados do rei conversavam, olhando para a cidade que também deixavam.

– Pobre cidade: – dizia um deles. – Como vai ficar agora, achando-se privada do rei e da corte?

– E o palácio! – acrescentava o outro. – Que salas desertas. Que tristezas e que saudades!

– E o futuro ainda pior há de ser para ele, porque, por ora, ainda lhe resta o príncipe D. Pedro com um arremedo da corte do rei; mas, em breve, também o príncipe tornará à mãe pátria que não pode querer que o herdeiro do trono ande aqui exaltando as cabeças dos brasileiros. E em tal caso, a que ficará reduzido o tal palácio?

– A casa dos vice-reis como dantes – tornou o outro.

– O que já não é pouco – observou o primeiro criado que falara.

– Não pensa o rei assim – disse, sorrindo, um terceiro criado que se aproximara.

Os dois voltaram-se e tomaram diante daquele que viera intrometer-se em sua conversação uma atitude respeitosa, pois que tinham reconhecido um dos cortesãos mais queridos e da maior privança do Sr. Dom João VI.

– Como pensa então Sua Majestade? – perguntou um dos dois criados, já de antemão resolvido a aplaudir o juízo do soberano.

– Ainda há pouco o rei, abraçando ternamente o príncipe, despediu-se dele, dizendo-lhe algumas palavras em que lhe deixou uma profecia e um conselho; e nem uma nem outro podem alentar muito as esperanças dos portugueses.

– Mas o rei é o melhor dos portugueses.

E nem por isso o seu patriotismo o torna cego ao futuro, em cujo livro sabe ler como um profundo político.

Os dois cortesãos curvaram-se em sinal de aprovação.

O outro continuou.

– O rei disse ao príncipe estas palavras, que eu recolhi e decorei: “Pedro, o Brasil brevemente se separará de Portugal. Se assim for, põe a coroa sobre a tua cabeça, antes que algum aventureiro lance mão dela.”

Os corações dos dois velhos criados do rei revoltaram-se contra o conselho, e ainda mais contra a profecia; mas seus lábios de cortesãos tiveram sempre um sorriso para acolher as palavras do soberano. O contágio do liberalismo português ainda não tinha podido romper o cordão sanitário da corte.

Enfim, era preciso dizer alguma coisa que servisse para melhor esconder o descontentamento íntimo.

– E… visto isso… o palácio…

– O palácio continuará a ser palácio real, e não será impossível que se torne imperial.

A conversação parou aí; estava tomando um caráter tão triste para aqueles fiéis cortesãos e leais portugueses, que em verdade não podia continuar.

Em 1822, um ano e cinco meses depois, a profecia do rei achava-se realizada e o seu conselho nobremente seguido.

O Brasil era um império independente e livre.

A nova organização política do país deu imediatamente lugar a uma modificação no palácio, que passara a ser imperial; porque, havendo necessidade de se preparar um edifício em que celebrasse as suas sessões a Constituinte brasileira, escolheu-se para esse fim a antiga casa da câmara municipal e cadeia, e consequentemente destruiu-se o passadiço que desde 1808 a ligara ao palácio.

Coisas deste mundo! Uns trinta anos antes dessa época brilhante e gloriosa, tinham estado presos na cadeia, que era naquele mesmo edifício, alguns dos comprometidos na famosa conjuração de Tiradentes, os criminosos de lesa-majestade que haviam tramado em Minas Gerais o primeiro movimento revolucionário, que devia realizar a independência pelo menos de uma parte do Brasil; e passados trinta anos, em 1822, duas das vítimas, dois dos condenados, o padre Manuel Rodrigues da Costa e José de Resende Costa Filho, vinham entrar nesse mesmo edifício para tomar parte nos trabalhos da assembleia constituinte do Brasil independente, como deputados pela província de Minas Gerais!

A cadeia velha transformara-se em templo das leis; as vítimas e os condenados de 1792 eram triunfadores e heróis em 1823.

Eu faço ideia da impressão que sentiriam e das recordações que teriam o padre Rodrigues da Costa e José de Resende ao verem-se pela primeira vez, em 1823, debaixo daquele mesmo teto que tão lúgubre lhes parecera em 1792.

Não quero, porém, perder de vista o assunto que ainda neste passeio me deve ocupar. Pelo andar do tempo, continuou o palácio imperial a receber outras modificações.

No reinado do primeiro imperador, levantou-se o segundo andar da face principal com três janelas guarnecidas por uma varanda de ferro.

No atual reinado do Sr. D. Pedro II, e por ordem de Sua Majestade, foram reformados os dois corpos laterais da fachada principal, sendo cada um deles coroado com um ático, parecendo por isso haver dois terraços em lugar de telhados.

No interior do palácio, limitar-me-ei apenas a lembrar as alterações que o pensamento que dominou em épocas diversas imprimiu plasticamente na sala das audiências do governador e dos vice-reis, e do trono do rei e do imperador.

O conde de Bobadela mandou representar no teto daquela sala o gênio da América, e José de Oliveira, pintor fluminense, mostrou o gênio aspirando lume ao entrar no templo da humanidade, na grande aliança que caminhava com o sol, do oriente para o ocidente. Por ordem do rei, simbolizou Manuel da Costa o reino unido, sustentando o escudo glorioso de Portugal.

O primeiro imperador encarregou a Francisco Pedro de substituir aquele símbolo, que ali se tornara anacrônico, pelas armas do novo império diamantino.

Logo depois da declaração da sua maioridade, o Sr. D. Pedro II mandou pelo Sr. Manuel de Araújo Porto Alegre executar no paço as obras que ainda há pouco referi, e então aquela sala cresceu de pavimento e altura, e no seu teto fulgurou o Anjo Custódio, protetor do império, rodeado das províncias e do Brasil genuflexo, que recebe da sua mão celeste o influxo da proteção divina.

A descrição do palácio imperial deve parar aqui. Convenho em que, ao ler-se a epígrafe deste e dos precedentes capítulos, esperariam muitos que eu tivesse de falar de salas suntuosas, de brilhantes e admiráveis trabalhos de arte, e de todas essas riquezas que deslumbram os olhos daqueles que visitam os palácios reais e imperiais do velho mundo. Mas, que hei de fazer? O nosso palácio imperial é uma casa pobre que faz honra à modéstia do imperador, e que, entretanto, assinala também ou a pobreza, ou a incúria inexplicável do Estado.

Mas por que dei por finda a descrição, não se segue que eu deva recolher-me tão cedo deste passeio, que apenas acabo de começar. Aproveitaremos o tempo que nos sobra, conversando um pouco sobre coisas que dizem respeito ao mesmo palácio.

Conversemos.

À primeira vista, surpreende a qualquer o fato de haver o rei deixado passar treze anos sem cuidar de fazer construir para si um verdadeiro palácio em lugar dessa casa dos governadores em que se hospedara a família real portuguesa; e ainda mais admira que a nação se tenha descuidado de oferecer ao seu imperador um palácio digno dela e dele, achando-se constituída há perto de meio século.

Ora, ao que parece, o rei não tinha muita vontade de voltar para Portugal e, portanto, não se explica, por uma ideia de residência passageira o fato de ter-se ele contentado com esse palácio provisório.

Quanto aos imperadores, a explicação seria ainda mais difícil para o Estado, que deve dar um palácio ao seu chefe.

Mas o motivo de ambos esses descuidos é, no entanto, porventura, bem simples.

O príncipe regente, depois rei do Reino-Unido, por muito pouco tempo residiu ordinariamente no palácio de que tenho tratado.

Palácio de São Cristóvão – Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, localizado na Quinta da Boa Vista, antiga residência de Dom João VI, Dom Pedro I e Dom Pedro II.

No mesmo ano da chegada da família real portuguesa ao Brasil, Elias Antônio Lopes, notável negociante da praça do Rio de Janeiro, ofereceu ao príncipe regente uma casa e chácara que possuía em São Cristóvão. A oferta foi aceita, as armas reais foram colocadas sobre a porta principal da casa e a família real passou a residir quase sempre nessa chácara, que ficou sendo chamada, como ainda hoje se chama, Quinta da Boa Vista [2].

Como o Sr. Dom João, também os nossos dois imperadores preferiram, com razão, São Cristóvão ao Largo do Paço, e a necessidade de um palácio na cidade pareceu assim menos urgente.

Eis aí por que a casa, que a princípio se chamou dos governadores, tem podido atravessar mais de um século, merecido três promoções, pois que passou a ser casa dos vice-reis, depois palácio real e, enfim, palácio imperial, e se mantêm ainda com o mesmo título, apesar da sua insuficiência, da sua mesquinhez, do seu estado de ruína e, em uma palavra, apesar do cupim que a conquistou toda.

Entretanto, deve-se dizer, tal qual é, o palácio da cidade encerra já importantes recordações históricas.

Em relação ao passado, a lousa pesada do tempo esconde na sepultura do esquecimento, sem dúvida, muitas lembranças interessantes. Metade, porém, da nossa história contemporânea lê-se nas janelas e nas salas desse palácio.

Pelas salas daquela casa, a nossa imaginação, ruminando os anos do último século, vê passar vultos dos governadores e dos vice-reis, cuja bengala era o símbolo do despotismo do governo e da escravidão do povo. Há ainda quem suspire pelas delícias daquele tempo. Eu, porém, apesar dos Freires de Andrade, Lavradio e Luís de Vasconcelos, dou graças a Deus por ter nascido em uma época em que tenho direito de pensar, falar, escrever e proceder com toda a liberdade que me garante a Constituição do Império. São gostos…

De uma das janelas da face principal daquele palácio, o governador conde de Bobadela e o bispo frei Antônio do Desterro, em um dia do ano de 1759, estiveram olhando atentamente para o trapiche que havia no lugar onde depois se estabeleceu o arsenal de guerra, enquanto se embarcavam os padres jesuítas expulsos do Brasil por ordem de D. José I.

Em que pensava então o bispo, Deus o sabe. Rezava, talvez, pedindo o perdão daqueles que, depois de terem prestado tão grandiosos serviços ao Brasil, tinham esquecido pelos bens da terra a piedosa e simples missão dos missionários dedicados e civilizadores. O conde, porém, meditava, sem dúvida, no que pode conseguir a força de vontade e a energia política de um homem como foi o Richelieu português, o famoso marquês de Pombal.

A edificação da casa dos governadores coincidiu com o começo de uma época que se recomenda à memória agradecida dos fluminenses. Porque é exatamente desse tempo que data o empenho de alguns administradores pelo embelezamento e progresso da cidade do Rio de Janeiro: as nossas melhores obras públicas foram realizadas do meado do século décimo oitavo em diante, e as ordens para a execução delas assinaram-se naquela casa.

Em 1808, a monarquia lusitana asilou-se no palácio da Sebastianópolis, fugindo à pressão e ao ímpeto vitorioso das falanges do conquistador moderno; e então a antiga casa dos governadores foi o ponto onde se concentraram as vistas de todos os portugueses, e especialmente as mais ardentes esperanças dos brasileiros, que, entusiasmados ao ver a terra de Santa Cruz elevada de colônia a metrópole, não podiam mais admitir a ideia da perda dessa supremacia.

E dentro do palácio, em uma de cujas salas a realeza fizera levantar um trono onde até bem pouco se mostrava a cadeira pesada dos vice-reis, perdeu-se no mistério de secretas confidências e nos disfarces de intrigas cuidadosamente manejadas, a história de uma longa e porfiada luta entre a corte e o príncipe regente, depois rei. Entre a corte desmoralizada, interesseira e prepotente que oprimia o povo, procurava fazer do país uma fazenda sua, e via com olhar vesgo o rápido desenvolvimento da antiga colônia; e o rei, que amava o Brasil, que desejava o bem do povo, mas que, sem energia para atuar, sem vigor, tolerava a luta, aplaudia e sustentava uma ou outra autoridade que sabia corajosa resistir à influência dos grandes da corte e, no entanto, continuava a deixar-se cercado daqueles mesmos que abusavam, prevaricavam, zombavam das leis e riam-se dos clamores do povo.

Contai agora as janelas da face lateral do paço, que olham para o largo. Contai-as, começando da extrema que faz ângulo com a fachada principal. Contastes até sete? Parai aí.

Essa sétima janela recomenda-se por uma suave e patriótica recordação a todos os brasileiros e muito especialmente aos fluminenses.

Foi nessa sétima janela que apareceu, no dia 9 de janeiro de 1822, José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara, à frente dos outros membros, seus colegas, aos olhos de uma multidão de patriotas, que esperavam ansiosos a resposta do príncipe regente à representação que a municipalidade lhe fora dirigir em nome do povo, pedindo-lhe que resistisse aos decretos do governo de Lisboa e que ficasse no Brasil.

Foi do alto dessa janela que José Clemente Pereira, como presidente do Senado da Câmara, falando ao povo, exclamou: “O príncipe regente, atendendo à representação que em nome do povo o Senado da Câmara acaba de ter a honra de dirigir-lhe, respondeu pelo modo seguinte: – Como é para bem de todos, e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico.”

O Fico era a revolução gloriosa da independência do Brasil, revolução que estava já acesa nos corações dos brasileiros; que se dirigia, encaminhava e desenvolvia nas lojas maçônicas, nos clubes dos patriotas e até no convento de S. Antônio, na cela de frei Sampaio, que se fazia já sentir nas ruas e nas praças, onde o povo se reunia exaltado, e que, enfim, rebentava dentro do próprio palácio adotada pelo príncipe, que tinha de soltar o brado independência ou morte nas margens do Ipiranga.

Do dia 9 de janeiro em diante, a causa da revolução nacional contou os dias por acontecimentos e por triunfos, e no palácio imperial não se trabalhava menos por ela do que nos clubes. Quando o príncipe chegou à margem do Ipiranga,a7de setembro, em São Paulo, já tinha passado o Rubicon no Rio de Janeiro.

A 12 de outubro de 1822, o príncipe regente foi aclamado imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil na capital do novo império; mas a essa grande e brilhante solenidade quase que ficou estranho o palácio imperial.

A aclamação teve lugar no campo que então se chamava de Santana, e que estava coberto de povo e tropa. O imperador mostrava-se radiante, na varanda do palacete que havia nesse campo. A chuva caía com violência, mas apesar dela veio o imperador a pé e embaixo de pálio, seguido por toda a corte vestida de gala e pela multidão entusiasmada, para a capela imperial, onde foi entoado o Te-Deum em ação de graças pela regeneração política do Brasil e aclamação do seu imperador.

Com água às vezes pelos joelhos, esse préstito magnífico seguiu pela Rua dos Ciganos [3], Praça da Constituição [4], rua hoje do Teatro, Largo de São Francisco de Paula, Rua do Ouvidor e Rua Direita até à capela. Com a chuva do céu, caíam ao mesmo tempo enchentes de flores sobre o pálio, e as aclamações estrepitosas não deixavam ouvir o ruído da tormenta.

Entre os entusiastas, que eram todos, tornou-se notável uma turma de mancebos, alguns dos quais ainda vivem hoje. O imperador os vira à porta do palacete, sorrira-se encontrando-os à entrada da Rua dos Ciganos [5], saudara-os, vendo-os cada vez mais entusiasmados, junto ao Teatro de São João, que logo depois se chamou de São Pedro [6], e enfim, esbarrando de novo com eles à porta da capela, parou um instante e disse-lhes:

“Os senhores tiveram hoje o dom da ubiquidade. Foi milagre do patriotismo.”

No dia 1º de dezembro de 1822, efetuou-se o ato solene da sagração do primeiro imperador do Brasil; e então ficaram gravadas no palácio imperial lembranças faustosas desse notável acontecimento. Foi no palácio publicada a lista dos primeiros agraciados com a ordem imperial do Cruzeiro do Sul, primeira ordem americana, instituída nesse dia, e com a qual o imperador agraciou muitos dos mais notáveis propugnadores da independência. Antônio Carlos, Cipriano Barata, o Sr. Montezuma, hoje Visconde de Jequitinhonha, e alguns outros mereceram essa bela distinção, não ficando também esquecido o benemérito Capitão-mor José Joaquim da Rocha, cujos serviços à causa da independência foram tão relevantes, como grande a sua modéstia. O Sr. D. Pedro I, ao entrar no saguão do palácio imperial na manhã daquele dia, viu, entre os cidadãos que em número extraordinário se achavam ali, um filho do Capitão-mor José Joaquim da Rocha, e parando diante dele, perguntou-lhe alegremente:

– Seu pai já chegou ao paço?

– Já aí está, senhor – respondeu o mancebo.

– Pois se o encontrar primeiro do que eu, diga-lhe que foi hoje agraciado com a dignitária da imperial ordem do Cruzeiro do Sul, como prêmio justo e devido a um dos patriarcas da independência da nossa pátria.

O povo respondeu com um viva estrepitoso às palavras do imperador, que assim honrava o cidadão patriota.

Do fim de 1833 a 1834, o palácio imperial foi durante algum tempo habitado por S. M. o Imperador, ainda menor e por suas augustas irmãs. A mudança de sua residência, da Quinta da Boavista para o palácio da cidade, traz-nos à memória dias tormentosos e uma página triste de nossa história.

Os excessos do partido restaurador, que perturbava a ordem e conspirava contra o governo, provocaram excessos ainda mais lamentáveis do partido dominante e do próprio governo. Às maquinações e violências dos restauradores respondeu o governo, deixando, em dezembro de 1833, as turbas mais ardentes e menos escrupulosas do seu partido atacarem impunemente a Sociedade Militar, que era a representante dos restauradores, quebrarem e destruírem toda a mobília e, em seguida, levarem igual destruição às tipografias, de cujos prelos saíam jornais infensos à política que então dirigia os negócios públicos.

Dias depois, espalhou-se que o partido restaurador premeditava romper em uma nova revolta, apoderando-se primeiramente dos augustos pupilos da nação. Fosse apenas um pretexto, ou tivesse real-mente algum fundamento, certo é que essa notícia deu motivo a que o governo suspendesse o venerando José Bonifácio de Andrada do exercício da tutoria do imperador e das princesas e a que todos os juízes de paz da capital, escoltados de uma força de cem homens da polícia e de duas peças de artilharia, partissem para S. Cristóvão, varejassem o paço da Quinta, prendessem o tutor e, enfim, acompanhassem a família imperial, que foi trazida em triste triunfo para o palácio da cidade.

Passado algum tempo, arrefecido o fogo dos partidos, tornou o imperador a ir habitar a Quinta da Boavista, e o palácio, em que por meses residira, voltou àquela grande e melancólica solidão em cujo seio passou durante quase toda a época da minoridade.

Em 1840, o imperador foi proclamado maior, e o palácio imperial abriu suas salas à corte, que se apressou, mais do que nos nove anos que haviam decorrido desde 1831, a vir cercar o trono da majestade.

Em 1844 celebrou-se o casamento da princesa imperial a Sra. D. Januária com o Sr. Conde de Áquila [7], Príncipe das Duas Sicílias, que ficaram residindo, em todo o tempo que estiveram no Rio de Janeiro, naquela parte do palácio imperial que fora outrora convento dos carmelitas.

No reinado do Sr. D. Pedro II, o Brasil tem visto com ufania o palácio imperial hospedando dignamente as ciências, as letras e as artes.

Em uma das salas principais do palácio celebrava a Imperial Sociedade de Medicina, celebrava o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil as suas sessões aniversárias.

Desde o dia 15 de dezembro de 1848, o mesmo Instituto Histórico recebeu no segundo andar do antigo convento do Carmo as acomodações necessárias para a celebração de suas sessões ordinárias e para a sua biblioteca e arquivo, e além desta graça muito especial, que tanto o distinguiu, o imperador, seu primeiro sócio, começou, dessa data em diante, a presidir constantemente os seus trabalhos e a tomar neles parte com um interesse tão glorioso como patriótico.

No pavimento inferior do palácio imperial, têm sido, em algumas salas, hospedados artistas de merecimento. Em uma delas via-se, ainda não há muitos anos, o habilíssimo Petrich, manejando o cinzel e o martelo, dar vida ao mármore e transformar a pedra informe em belas estátuas.

E apesar de todas estas recordações, apesar dos grandes vultos do passado, dos nomes ilustres e dos acontecimentos importantes que nos faz lembrar, o palácio imperial não pode e não deve ser conservado. Não há conserto nem reparações que lhe aproveitem.

Não é, repito pela última vez, não é digno nem da majestade, nem da nação.

Todas as artes devem dar-se as mãos para erigirem um palácio novo. O patriotismo o exige. A necessidade instantemente o recomenda.

O que estamos vendo no meio do Largo do Paço não é um palácio, é uma casa antiga e na mais completa ruína [8].

Notas

  1. Uma das duas últimas naus portuguesas. A outra foi a Vasco da Gama, salva do naufrágio pelo vapor D. Afonso, da esquadra brasileira, ao mando de Joaquim Marques Lisboa (marquês de Tamandaré). (N. do R.)
  2. Essa doação foi feita ao rei como presente de Ano Bom. Mas, ao que consta, no governo de D. Pedro I, Elias Lopes cobrou-a por bom preço. (N. do R.)
  3. Constituição. (N. do R.)
  4. Praça Tiradentes. (N. do R.)
  5. Rua da Constituição. (N . do E.)
  6. Hoje João Caetano. (N. do R.)
  7. D. Luís de Bourbon, Conde de Áquila, irmão da Imperatriz Dona Teresa Cristina, com a qual veio para o Brasil em 1843. (N. do R.)
  8. Atual Centro Cultural Paço Imperial. (N. do E.)

Fonte

  • Macedo, Joaquim Manuel de. Um Passeio pela Cidade do Rio de Janeiro. Edição revista e anotada por Gastão Penalva e prefaciada por Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1942. (Edições do Senado Federal, vol. 42, Brasília, 2009).

Imagem destacada

  • Partida da Rainha para Portugal, por Jean Baptiste Debret, via NYPL.

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