Mariana

A cidade de Mariana (104) está situada no declive sul e na estreita crista de uma colina que segue de oeste para leste e cujo limite norte é formado pelo ribeirão do Carmo, onde desembocam dois riachos, que separam Mariana do resto da região. São eles o ribeirão do Seminário, que corre, em frente à cidade, na direção sul-norte e deságua, mais abaixo, no do Carmo, e o ribeirão do Catete, que vem do oeste do vale do Itacolomi e que se encontra com o do Carmo no centro da cidade. Na parte mais íngreme da pequena cadeia de montanhas assim limitada por cursos d’água, levanta-se a grande igreja de São Pedro, ainda não acabada de construir, e somente abaixo desta é que aparecem as primeiras casas. Calcula-se que a cidade fica a 2.243 pés acima do nível do mar (2.390 pés, segundo von Eschwege), sendo que a sua situação geográfica é de 20° 21’ de latitude sul e 25° 55’ de longitude oeste de Ferro. (105)

Vindo pelo sul, do Lado da cordilheira do Itacolomi, o viajante vê Mariana construída como um anfiteatro, no lado mais favorável das encostas das montanhas, e, em breve, distingue as três ruas principais, paralelas ao dorso da montanha e cortadas em ângulo reto por várias ruas transversais. A rua superior acompanha o cimo da elevação; começa na igreja e vai dar no pequeno largo da Cadeia, sendo este também o seu nome. A do centro passa pelo lado norte do largo das Cavalhadas. A terceira, a Rua das Cortes, estende-se ao pé da colina; passando pela parte sul deste último largo, termina no lugar onde os ribeirões do Seminário e do Carmo se encontram. É esta a mais comprida e a principal artéria da cidade. Não consegui reter o número das ruas transversais que a cortam, mas todas elas são muito curtas e acompanham o declive da colina. O largo da Cadeia, embora pequeno, é a praça principal. Nele vemos uma coluna adornada com um brasão dourado, erigida para indicar que a cidade possui jurisdição superior. No lado norte, vêem-se vários edifícios de importância, tais como a Casa da Câmara, sólida e de muito bom gosto, a Cadeia, com suas salas de audiência, e, bem em frente, a igreja de São Francisco de Assis, muito grande porém em mau estado de conservação, sendo que sua construção data de 1760. Da esplanada, que se estende em sua frente, tem-se uma bela vista sobre todo o vale. Ao lado desta igreja, a oeste, existe outra, mais elegante e menor, também com duas majestosas torres. A leste, encontram-se, formando os cantos da rua, os dois edifícios onde funcionam as escolas, podendo-se ver, através das janelas, a cabeça da criançada viva, quando se passa pela praça. Uma rua transversal, curta e extremamente estreita, conduz do largo da Cadeia ao das Cavalhadas – um retângulo comprido do qual um dos lados longos coincide com a Rua das Cortes. Nessa praça há belas casas, em geral sobrados. Não é pavimentada no centro por causa dos torneios que ali se realizam anualmente, no Dia dos Reis. Infelizmente, não tive oportunidade de assistir a esses jogos, que, naquele dia, se levam a efeito em todas as cidades do Brasil, simbolizando a luta entre os cavaleiros cristãos e os mouros. A igreja-matriz, grande e simples, encontra-se no lado leste da praça. É uma velha construção, sem nenhum ornato arquitetônico, mas, segundo me informaram, ricamente adornada.

Mariana é a cidade dos padres, causando, por isto, uma impressão de calma e serenidade, mas também de tédio e falta de animação. As ruas são desertas e invadidas pelas ervas, sendo diminuto o movimento de pessoas. Conheci aí um velho francês, antigo sargento imperial, que possuía uma pequena venda. A primeira coisa que se via, ao entrar nela, era um retrato, em tamanho natural, do seu Imperador. Esse homem fez-me uma descrição bem triste da vida em Mariana. Não havia nenhum alemão no lugar; apenas uma senhora vienense, que era governante da casa do major Carvalho, o homem mais rico da cidade. Tive ocasião de ser apresentado a ela, que me deu a impressão de ser uma mulher digna de toda a estima e conhecedora dos lados tristes da vida. Queixou-se da absoluta falta de qualquer vida intelectual nas classes mais elevadas e da maneira fútil pela qual estas se divertiam. A preponderância do clero nessa cidade explica-se: Com seus 5.000 habitantes e 500 casas, possuía 8 igrejas e 4 capelas, sendo as melhores construções existentes o palácio episcopal, o seminário da Diocese e um instituto de irmãs de caridade. O palácio episcopal encontra-se na extremidade oeste da, cidade, sendo um edifício bastante comprido, de muitas janelas e somente de andar térreo. Na fachada, há uma bela escadaria que leva ao portão principal, encimado pelas armas episcopais. No fundo do palácio, estende-se o pomar, que eu já havia observado da colina de São Pedro, verificando o quanto era bem delineado e cuidado; nele se cultivavam árvores frutíferas do Brasil e também algumas da Europa, além de legumes. Como nunca tive grande simpatia pelo clero em geral e como sempre me senti avesso às frases simbólicas, parabólicas e hiperbólicas com que costumam florear seus sermões, contrariando os nossos verdadeiros sentimentos e prejudicando a nossa concepção e capacidade crítica, não fui tentado a apresentar minhas homenagens a Sua Eminência o Bispo. Disseram-me tratar-se de um homem muito bom, exclusivamente dedicado ao seu ofício e que apenas falava o português. Encontrei, nas ruas, vários padres, metidos em suas batinas e com chapéus diversos que, pela forma, pareciam indicar o grau hierárquico. Todos eles afáveis, esquivavam-se, porém, de conversações minuciosas. Eu, de minha parte, sabia ainda muito pouco de português para poder entreter palestra aproveitável.

Seminário de Mariana, por Dr. Hermann Burmeister

O seminário de Mariana, que foi construído às expensas dos mineiros ricos, perdeu, com a diminuição da produção aurífera, grande parte de suas subvenções, havendo beirado a ruína cerca de 20 anos atrás. A Província e o Governo passaram então a subsidiá-lo em partes iguais. Está situado ao sul da cidade, numa plataforma elevada, sobre o riacho que lhe leva o nome. Consiste de uma pequena capela e de dois grandes edifícios, atrás dos quais aparecem, ao fundo, dois outros ainda maiores, mas todos, de um só andar. O conjunto, rodeado por um grande jardim em estado bastante deplorável, é cercado por um muro. Essa instituição tem, na sua atual organização, finalidade dupla: nele funciona a escola para a população da cidade e dos arredores e também o seminário, onde os estudantes de teologia se preparam para seu ofício. Mais tarde, tive oportunidade de conhecer a escola, pois os dois filhos do meu hospedeiro, um de 13 e outro de 15 anos, frequentavam-na. Pelo que eles me mostraram, pude verificar que o programa de ensino adotado era idêntico ao dos nossos ginásios, com exceção do grego e dos estudos modernos de ciências naturais. O mais velho cursava a segunda classe e traduzia uma crestomatia impressa em Lisboa, Selecta capita aut. classic. romanorum, em quatro volumes. Havia, nesse livro, trechos de todos os principais escritores, de Cornélio a Tácito e Cícero e de Fedro a Virgílio e Horácio. O menino parecia não possuir gramática, mas tinha um grande léxico, Magn. lexicon noviss. latino-lusitanicum, editado por José Ferreira, Paris 1835, 8.º maj. Além desses livros, vi outros de ensino religioso, que consistiam em perguntas e respostas, como o catecismo. Vernáculo, aritmética, história e geografia eram ensinados por meio de ditados. Os alunos não faziam exercícios em casa, pois, conforme explicaram a meu filho, os mestres não o exigiam. Os livros didáticos menores eram impressos em Mariana, onde havia uma tipografia episcopal, muito ocupada em imprimir e editar livros de assuntos religiosos e de cânticos, catecismos e jornais políticos. Efetivamente, quando entrei na cidade, fiquei admirado ao ver por uma janela aberta, tipógrafos que trabalhavam em instalações iguais às nossas e usando os mesmos métodos. Havia também uma livraria em Mariana, situada na esquina da rua central com uma transversal que passava pela minha hospedaria, na Rua das Cortes, e ia dar diretamente no Seminário, do outro lado do rio. Foi de lá que fiz o desenho dos edifícios do Instituto, sombreados por altas palmeiras, com o Itacolomi menor de Mariana apontando, no fundo do quadro, para o céu (Prancha IX, fig. 1).

O edifício das Irmãs de Caridade, noutra esquina da rua central, estava ainda em construção. Não se destinava a servir de convento, mas a uma espécie de hospital paria mulheres, ou a um instituto educativo qualquer desse gênero. Entre os membros dessa instituição, imigrados da Europa, encontrava-se uma moça alemã, mas a maioria viera da França. Não há propriamente conventos em Mariana. Von Spix e von Martius, citando a existência ali de dois mosteiros, incorreram em erro. Nessa cidade, não existem religiosos de nenhuma ordem, mas apenas estudantes de teologia, sob disciplina monástica. Moram em edifício próprio, como os colégios ingleses, mas não são considerados religiosos.

O comércio de Mariana é insignificante. Encontrei algumas lojas boas no Largo das Cavalhadas, mas a maioria das casas comerciais encontra-se numa rua transversal, que corre para leste e leva, passando por trás das duas principais praças, para a alta ponte de pedra, em grande arco semicircular, que atravessa o leito profundo do ribeirão do Catete. Em frente dessa ponte há uma pequena praça livre e, além, na ribanceira bastante íngreme, erguem-se, ainda, entre os ribeirões do Catete e do Carmo, algumas casas pitorescamente agrupadas pelos terraços naturais, formando uma espécie de subúrbio. Nessa rua, que leva até a ponte, é que se enfileiram as casas comerciais, mas, mesmo aí, o movimento pareceu-me bastante fraco.

O Bispado não abrange a Província de Minas Gerais toda. A parte norte, Minas Novas, pertence ao Arcebispado da Bahia, (106) que se estende por um vasto território e a parte sul divide-se entre os Bispados de São Paulo e outros adjacentes. Além do Arcebispado, existem ainda os Bispados do Pará, de Pernambuco, do Maranhão, de Goiás, de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Mariana. Calcula-se a renda do bispo de Mariana em cerca de 12.000 thalers, sendo que o arquidiácono recebe 500 mil réis e os quatro diáconos 400 mil réis cada um. Os doze cônegos ganham 300 mil réis cada um. Os curas recebem seu salário do Governo sem outros emolumentos, a não ser por serviços religiosos prestados. No preço destes, os padres permitem-se certas liberdades e passam por serem muito gananciosos. Principalmente nos casamentos, nos quais assiste ao cura o direito de dar ou negar consentimento, costumam cobrar elevados emolumentos, o que explica e gera, em partes, o concubinato, tão comum entre os brasileiros. Mas ainda aí, são os próprios senhores curas que dão o exemplo; muitos dentre eles, não se satisfazendo com a governante, mantêm ainda escravas e “camaradas”; há, mesmo, casos em que não fazem o menor segredo das frequentes trocas das mesmas, pois discutem o assunto em público sem o menor pudor. Os brasileiros, em geral, não vêem com maus olhos que o padre cuide assim de sua vida particular, pois isto evita que o mesmo procure exagerada intimidade com famílias; sabem eles que uma batina pode exercer sobre a alma feminina impressão tão profunda quanto a farda vistosa e elegante de um oficial. Como há poucos militares no interior do Brasil, o campo para as atividades libidinosas fica aberto e entregue aos padres. Recebi de várias partes informações suficientemente escabrosas para lançar a mais negra das sombras sobre moral desses senhores de hábito negro. Explica-se assim o pouco respeito e importância que os brasileiros cultos lhes votam. Estas e outras fizeram-me desistir de entrar em contacto mais íntimo com tais servidores da Igreja, ignorantes, egoístas e hipócritas, como o são em sua maioria. Além de tudo, é simplesmente surpreendente a falta de erudição nessa classe de homens, especialmente em assuntos de ciências naturais, geografia e história em geral. Falaram-me de um vigário que não acreditava que existissem ainda vulcões em atividade, tachando tais asserções de fabulosas. Esse mesmo vigário recomendava, do próprio púlpito, certa pessoa – uma governante sua, da qual se queria livrar – como ótimo partido, garantindo ao pretendente um bom dote em dinheiro, cuja importância mencionou. (107)

Floresta Virgem, perto de Mariana, por Dr. Hermann Burmeister

7 de maio – Depois de haver visitado a cidade no dia anterior, vendo tudo o que nela valia a pena ver-se, resolvi continuar viagem para Ouro Preto. Passamos pela rua da Cadeia, que desemboca na praça São Pedro, ao lado da elevação a oeste em cujo dorso repousa quase toda a cidade. Antes de deixarmos para trás a localidade, detivemo-nos para apreciar o belo panorama que se nos oferecia dessa altura. Rente, abaixo de nós, estendia-se a cidade. Víamos, nitidamente, todas as casas e podíamos observar a vida nos pátios, que ficavam aos fundos. Olhei a igreja, de estilo bizarro e inacabada, e pude também fazer uma ideia da cordilheira do alto Itacolomi, que começava a levantar-se, aos poucos, além do ribeirão do Catete, até atingir a sua altitude máxima no píncaro denteado de 5.368 pés. A igreja de São Pedro é, por assim dizer, um verdadeiro símbolo das coisas brasileiras. Embora já possuindo todo o necessário, os brasileiros continuam com o desejo sempre vivo de ter mais e mais ainda, e não cessam antes de haverem gasto os últimos recursos. Os habitantes de Mariana já contavam com seis igrejas, logo não havia necessidade de construir outra nova. Mas a vaidade de sobrepujar a cidade vizinha de Ouro Preto em suntuosidade de construções fez-lhes começarem a erguer a igreja de São Pedro que, não acabada e já em princípio de ruína, dá testemunho da impotência e do orgulho de seus construtores, como tantas outras igrejas menores que encontramos nas aldeias e vilas do interior. A única coisa terminada nessa igreja é a nave central, com o teto e as paredes fortes das torres, que atingem a altura da nave, mas não há nenhuma janela ainda nem tão pouco se começou o acabamento interno. A fachada, com as duas torres, é verdadeiramente imponente, mas de muito pouco gosto devido ao estilo escolhido. Sobre a porta principal, vêem-se, esculpidas em pedra-sabão, as armas papais – as chaves cruzadas com a tiara no centro – um belo trabalho, que dizem haver sido executado em Roma. No fundo das torres, segue uma construção comprida, que se alarga repentinamente numa ampla rotunda, à qual se junta o coro em forma de retângulo. O todo apresentava-se qual série de contrastes chocantes e era extremamente antiestético, agravado ainda pela disposição das janelas, que, na rotunda, eram redondas e em três filas enquanto que as do coro eram oblongas e em duas filas, uma sobre a outra. Eu já havia percebido essa monstruosidade quando chegava pela estrada de Mariana, pois essa construção, situada como está, num ponto muito elevado, pode ser vista de longe e domina os arredores da cidade. Cheguei a pensar que se tratava de um castelo com suas seteiras, mas nunca de uma igreja, quer pelo fato de possuir a cidade muitas outras, quer pela sua situação afastada da mesma; para mim, nada justificava a existência de uma igreja em tal ponto. Essa, aliás, não foi a única que vi nesse estilo. Em Ouro Preto existe uma idêntica, a de São Francisco, que resolvi desenhar somente por causa da sua arquitetura curiosa.

Atrás da igreja de São Pedro, a estrada para Ouro Preto eleva-se mais ainda e, no ponto mais alto da serra, encontramos uma forca de madeira, de três pés, velha e podre, que mais parecia servir de advertência que ao seu próprio fim. Sentei, não longe da mesma, para fazer um esboço da cadeia de montanhas do Itacolomi, cuja reprodução o leitor pode ver na Prancha VIII, o que auxiliará minha descrição.

O maciço do Itacolomi forma uma serra estreita, de contornos agudos e separada das montanhas vizinhas pelos vales bastante largos e profundos do ribeirão do Carmo, ao norte, e do rio Mainarte, ao sul. A leste, a serra termina em pequenas elevações, que se dirigem para norte ao longo do rio Piranga, no qual deságuam os cursos acima mencionados. A oeste, a serra está ligada a uma cadeia mais baixa – integrada pelas serras da Cachoeira, e de Deus-te-livre – por alguns cumes estreitos e agudos. A montanha toda é formada de lousa cristalina, num ângulo de 40° a 50°, com inclinação para sudeste. O lugar de onde fixei a paisagem no meu caderno de desenho está a leste do mais alto píncaro a uma distância de l-1/2 milha alemã e de lá podiam ver-se as vertentes do ribeirão do Carmo, cujo vale se estende à direita, formando terraços até atingir o cume desnudo com as suas rochas pitorescas. O primeiro plano, com o morro da Forca, perto de Mariana, não se vê no desenho. Este dá-nos a vista do vale do ribeirão do Catete, que corre em frente da floresta e dirige-se em ângulo reto para a garganta do ribeirão do Carmo. Do vale, vêem-se apenas as vertentes do oeste com o campo que se estende em frente. Nesse lugar, existia, antigamente, apenas mata virgem. Os barrancos do ribeirão do Carmo, rasos a sul e cobertos de capoeira a norte, eram ainda cobertos de densa floresta. Também a estrada de Mariana a Ouro Preto, em sua extensão de apenas duas léguas, requeria um dia inteiro para ser vencida. Mas, à medida que os faiscadores penetraram na mata, esta foi desaparecendo aos poucos, e hoje apenas subsiste a estreita faixa que se vê no desenho. Todos os morros e declives de ambos os lados do ribeirão do Carmo eram cobertos de vegetação semelhante. Mas mesmo essa última parte da mata, que ainda existe e que pertence a um particular, acabará por desaparecer, cedendo lugar a uma roça. É este o destino de toda floresta. Elas têm de ceder às necessidades do homem, que precisa de terra para o cultivo, e ante as devastações dos faiscadores, que tiram das entranhas da terra o precioso metal.

Observando a mata virgem e sua antiga extensão, podemos saber do que é constituída a vegetação do Itacolomi e qual o seu caráter. Verificamos, assim, que sua vertente mais baixa, bem como os vales dos pequenos rios e riachos, eram cobertos de floresta, depois de havermos distinguido certas zonas de vegetação, podendo-se chamar de região de floresta a que fica mais abaixo. Nota-se nela o caráter da mata virgem pelas taquaras, fetos arborescentes e palmeiras, sendo estas últimas já bastante escassas, pois foram abatidas para se lhes aproveitar o palmito. Essa região encontra-se a 2.000 pés de altitude. Acima, nota-se outra região formada por um terreno bastante acidentado com várias elevações pequenas, cobertas todas elas de vegetação igual. Tais acidentes formam como que uns caldeirões, nos quais há pequenas superfícies de mata. Essa parte podemos chamá-la a região dos campos, pois a relação entre a floresta e o campo é a mesma entre este e a mata virgem na outra região. A principal vegetação é uma camada de grama como nas pastagens, misturada com uma grande variedade de outras plantas, que se agrupam em tufos isolados, ou, como no caso da vegetação ribeirinha, em densas moitas de arvoredo baixo, que os brasileiros chamam de “capão”. O capão é um trecho isolado de mato, abundantemente encontrado nas regiões baixas dos campos, no interior, distinto, porém, da mata que se expande nas margens dos rios e na região florestal da costa. As árvores dos capões são de pequeno porte, mais fracas e baixas, sendo pouco densa, a sua folhagem, enquanto que o conjunto constitui um cerrado intransponível.

Morro do Itacolomi, visto do Morro do Patíbulo, perto de Mariana, por Dr. Hermann Burmeister

Esses capões diminuem e perdem-se nas alturas para dar lugar à flora da região alpina. Nesta, conforme já tive oportunidade de dizer, predominam as liliáceas arborescentes, que lhe caracterizam a fácies. De longe, não é possível notar a diferença, pois as plantas de pouca altura se perdem entre o resto da vegetação sem imprimir cunho especial à paisagem, mas, de perto, é fácil fazer a distinção. Essa terceira região do Itacolomi é, entretanto, perfeitamente identificável, mesmo a grande distância, por causa dos rochedos desnudos e rasos que surgem, cá e lá, por entre a vegetação uniforme. É de preferência nessas regiões que as liláceas arborescentes, as barbacênias e as velósias se agrupam (108) lançando suas raízes entre os rochedos e cobrindo as pedras com os seus caules pouco ramificados, nos quais se prendem ainda os restos murchos de algumas folhas. O aspecto rude e áspero dos troncos destas plantas faz-nos lembrar vagamente as pernas da avestruz americana, o que lhe valeu o nome dado pelos brasileiros de “canela de ema”. Devido à grande quantidade de resina que as mesmas contêm, são muito utilizadas como combustível, pois nessas regiões altas não há outra lenha. No meu desenho, pode-se notar a parte da rocha que emerge em vários pontos das camadas de vegetação, podendo-se assim ter uma ideia da zona alpina.

Acima dessa região, segue então uma outra rochosa. São os cumes e píncaros das montanhas, onde o maciço básico aparece à luz do dia em sua nudez, com escarpas e abismos. Na vertente norte desta quarta e última região, notam-se fàcilmente as faixas paralelas das diversas camadas de rochas, e, pela inclinação quase sempre igual dos cumes para o lado esquerdo, pode-se deduzir também a inclinação das camadas para sudeste. A orla do lado direito é separada, por uma profunda fenda, das elevações restantes do conjunto, acidente esse que deu origem ao nome da formação toda. Itacolomi – palavra que, na velha linguagem dos índios, significa “montanha (ou rocha) com o filho” – alusão ao cume dividido em dois picos, o maior, o pai, e o menor, o filho, imagem essa muito expressiva para a fantasia desse povo primitivo. (109) Os viajantes bávaros von Spix e von Martius informam que a altitude do píncaro é de 5.368 pés franceses, mas von Eschwege registra 5.720 pés ingleses.

Não me foi possível estudar mais detidamente a estrutura da montanha, mas são já bastante conhecidas as condições geognósticas do Itacolomi, através dos estudos feitos por von Eschwege, entendido na matéria e que permaneceu vários anos em Ouro Preto. A base é formada por xisto micáceo e gneiss, sendo esta a rocha que integra a camada mais profunda da montanha, a oeste de Ouro Preto, e aquela a de leste, em Mariana. Segue-se depois uma grossa camada de 4 a 6 braças, de argilito castanho-avermelhada e, em seguida, uma rocha de formação especial, cristalina e xistosa, de aspecto bastante curioso, à qual von Eschwege deu o nome de itacolumito, opinando tratar-se de uma mistura, sob forma de folhelhos, de quartzo, talco e clorito. Von Spix e von Martius (110) por sua vez, dizem não haver encontrado nessa rocha nem talco, nem clorito, mas somente mica, e julgam tratar-se ele uma rocha formada de xisto micáceo, de granulação muito fina. De acordo com as minhas experiências, devo dar razão a estes últimos. O itacolumito, segundo as minhas observações, é um xisto de mica arenoso, havendo nele ainda uma parte de areia de quartzo, muito fina, e de mica muito mole, sob a forma de finos folhelhos, que se misturam em grãos diferentes. Quando o quartzo prepondera, a rocha toma o aspecto de cantaria, enquanto que no caso da preponderância da areia de quartzo a pedra se parece mais com argilito. Frequentemente, encontrei, na composição dessa rocha, um granato de cor de sangue e, na maioria das vezes, octaedros de ferro magnético, cujas superfícies em geral se apresentavam cobertas de pequenas folhas de mica. A cor desta rocha, na região do Itacolomi, era geralmente clara, acinzentada, esverdeada, avermelhada ou arroxeada e, raras vezes, azulada e preta em parte. A cor escura é causada pela existência de certa mistura de metais. As camadas assim enegrecidas aparecem, no Itacolomi, em vastas proporções, sendo geralmente ricas em ouro, o qual com tanta abundância aparece em todas as formações desta montanha. Devido à qualidade e às estranhas misturas que neles se encontram, os pontos de acúmulo de ouro do Itacolomi têm nomes especiais.

Nas camadas inferiores, surge, limitando-se com a argila, um depósito muito escuro, que, por isso, é chamado pelos brasileiros de carvoeira, às vezes tem apenas 1-½ pés, frequentemente, porém, muitas braças de extensão e se constitui de minérios de manganês, com ocre ferruginoso, parte sólido e parte quebradiço, no qual se encontra muito quartzo e cristais de “schorl”, com ninhos e faixas de argila de arsênico, antimônio, manganês, níquel, e pirita sulfúrea. Contém particularmente muito ouro e daí constituir objeto principal da atividade dos brasileiros. Por cima, segue-se o xisto micáceo próprio do Itacolomi, finalmente granulado em camadas tênues e ao mesmo tempo flexível em todos os graus; esse fenômeno lhe conferiu o nome de “quartzo articulado”. Este se encontra alternado com diversos veios intermediários, especialmente com misturas de quartzo e xisto micáceo, que, por sua vez, sói se distinguir, novamente, pela sua riqueza aurífera. Por sobre isso está a camada rica em ouro da tapanhoacanga, uma mistura de argila e óxido de ferro, cuja estrutura de hematita deu motivo ao nome curioso da “carapinha”. Nas alturas do Itacolomi propriamente ditas, ela não aparece. Quanto mais esses depósitos se elevam, separados por camadas semelhantemente compostas, tanto mais pobres em ouro e mais grosso é o granulado, mas, ao mesmo tempo, mais vastos são aqueles. Na sucessão das camadas do Itacolomi, torna-se cada vez mais predominante o itacolumito, quanto mais se eleva a montanha e, finalmente, este forma o cume em larga extensão, sem acolher outros minérios estranhos. Aí não se encontra ouro, nem outra qualquer raridade mineralógica.

Depois que terminei o desenho, prosseguimos viagem, descendo para o vale, onde passamos por uni sítio muito agradável, ao lado esquerdo da estrada, e atravessamos finalmente o ribeirão do Catete.

Notas

  1. Auguste de Saint-Hilaire informa, em suas Viagens, sobre a fundação da cidade: Os colonos estabeleceram-se, em 1701, no ribeirão do Carmo, que era muito aurífero. Em 1711, o lugar já era importante, sendo o seu nome Vila Real de Nossa Senhora do Carmo. Em homenagem à esposa de D. João V, Mariana da Áustria, o nome dessa localidade foi mudado, em 1745, para Mariana, ocasião em que recebeu também os foros de cidade, nela instalando-se a sede episcopal.
  2. As indicações astronômicas que se possuem sobre as localidades no Brasil não podem ser exatas, mas somente aproximadas, pois provêm de geógrafos antigos e, em parte de von Eschwege. Veja-se o livro deste último “Brasilien, die neue Welt.” II p. 170.
  3. Das 179 paróquias da Província de Minas Gerais, somente 126 pertencem ao Bispado de Mariana. As outras, 21 pertencem ao da Bahia, 18 ao de São Paulo, 7 ao de Goiás, 6 ao de Pernambuco e 1 ao do Rio de Janeiro.
  4. Não desejo aqui entrar em outros detalhes, limitando-me a mencionar Augusto de Saint-Hilaire, um dos mais conscienciosos viajantes do Brasil, que deu testemunho quase idêntico a respeito. (Prem. Voyage, I, 167 e seg.)
  5. Von Martius encontrou, nas alturas do Itacolomi, 5 espécies de barbacênias e 2 de Velósias. “Viagem ao Brasil”, I, 396.
  6. Em língua tupi ita pedra e curumi, menino. (R)
  7. “Viagem ao Brasil”, I.352.

Fonte

Imagem destacada

  • Praça Minas Gerais, onde estão situados a Câmara Municipal de Mariana, as Igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo, bem como o Pelourinho, estes três últimos vistos na foto.

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