Ouro Preto

Câmara Municipal de Ouro Preto, atual Museu da Inconfidência, por Dr. Hermann Burmeister

A estrada de Ouro Preto era a melhor que até então encontrara no Brasil. Larga e cômoda, corria acima do ribeirão do Carmo, que deslizava no fundo do vale. A estrada mostrava-se sempre igual, sem subidas nem descidas, o que permitia aos nossos animais andarem num trote bastante regular. Encontramos muitas tropas pelo caminho, umas carregadas e outras voltando já de alguma viagem, sem carga nenhuma. Assim, chegamos até a aldeia da Passagem, ¾ de légua de Mariana, onde se atravessa o ribeirão do Carmo, passando para sua margem esquerda, a norte. O lugar não causava boa impressão, apesar do seu calçamento de pedra e de sua igreja também de pedra, que, situada numa alta colina, representava os últimos vestígios de uma riqueza passada. No meu desenho, vê-se a primeira parte da estrada, antes da passagem, estendendo-se entre barrancos de argila cobertos de capoeira. As margens do rio, o qual corria sobre enormes blocos de pedra, eram também cobertas de capoeira, havendo, numa ou noutra parte, vestígios da antiga floresta. Dentre os densos arbustos de capoeira, emergiam algumas cecrópias com suas largas copas. Em cada curva do caminho, quando este beirava o abismo, víamos as casas de Ouro Preto, destacando-se, já à distância, uma grande e branca, com feição de castelo, situada no alto da montanha. Percorrida mais meia légua, chegamos à pequena aldeia do Taquaral, de aspecto ainda mais pobre que a da Passagem. Daí em diante, os barrancos dos dois lados do caminho tornavam-se cada vez mais rochosos à medida que a estrada se aproximava da margem do rio. Em certos lugares, pudemos observar algumas cavidades artificiais nas pedras, vestígios evidentes de antigas tentativas de exploração de ouro. Em breve, chegamos às primeiras casas da cidade, pequenas e bastante dispersas no lado esquerdo da estrada, mas todas elas solidamente construídas de pedra e tão rente ao caminho que foi preciso escavar a rocha para ganhar o terreno necessário àquele. Nas proximidades dessas casas, sólidas porém mal conservadas, um pequeno riacho ferruginoso atravessava a estrada por um leito artificial. Quando íamos entrar na cidade, um cavaleiro veio ao nosso encalço. Não nos pareceu ser brasileiro e, tendo feito a mesma observação quanto a nós, perguntou ao meu criado quem éramos. Ao saber da finalidade da nossa viagem, dirigiu-se amavelmente a mim e declarou-me logo ser um apaixonado das ciências naturais. Era ele um cidadão francês de nome Antoine Bousline, proprietário de uma fazenda nas proximidades e que muito me confundiu com Sua atenção e cuidados, arranjando para nós um pouso assaz decente na cidade. Por várias vezes, esse cavalheiro amável e de idade avançada distinguiu-se por suas maneiras atenciosas. Foi graças a ele que conseguimos hospedagem no albergue de um italiano de nome José Zoine. Essa hospedaria ficava ao lado da igreja de Nossa Senhora da Conceição, que naquele tempo estava sendo restaurada.

Floresta Virgem, perto de Mariana, por Dr. Hermann Burmeister

A cidade de Vila Rica, chamada hoje de Ouro Preto, causa impressão muito diferente de Mariana. É difícil mesmo encontrar qualquer ponto de contacto entre ambas. Na primeira, tudo é vivo e animado; as casas galgam os morros e o aspecto geral da cidade é bastante pitoresco, enquanto que em Mariana tudo obedece a um plano simétrico e austero. Em Ouro Preto, as casas não se enfileiram em ruas compridas, formam antes pequenos núcleos nas encostas de uma montanha íngreme, recortada e dividida em diversas partes pelos rios e vales que sulcam sua vertente. Os habitantes agrupam suas casas em redor dos vários templos que se levantam em morros aparentemente isolados. Contei dez igrejas grandes e de belas torres. Oito delas eram construídas em pequenas plataformas isoladas e rodeadas de casas dispostas em vários terraços. Somente duas dessas dez igrejas ficavam no vale do rio, de pequena correnteza e idêntico ao ribeirão do Carmo. Leva ele o nome de ribeirão do Ouro Preto em seu trajeto pela cidade, que se alastra de oeste para leste numa extensão bastante considerável. A maioria das casas dispostas nos terraços tem dois andares, sendo mau, porém, o seu estado de conservação. Não dão elas mostras nem de limpeza, nem de comodidade, exceto algumas poucas, que ou pertencem a gente rica ou abrigam qualquer repartição do governo. Da antiga riqueza e opulência da cidade dão-lhes testemunho apenas as igrejas, solidamente construídas e de aspecto imponente, e a Casa da Câmara, construção essa de muito bom gosto. As ruas, todas elas calçadas, mas muito estreitas e desniveladas, sobem e descem com tal inclinação que não somente é perigoso descê-las a cavalo, mas também extremamente penoso ter de percorrê-las a pé. Nenhuma delas se mantém no mesmo nível. A Rua Direita, que sai do largo do Palácio, merece, somente em partes o nome e mantém ligação entre diversos grupos de casas. Mas, em sua completa extensão, não corre nem em linha reta, nem em nível igual, apresentando ladeiras como as demais. Ouro Preto possui uma única praça grande, que fica na extremidade leste da cidade, no mais alto de todos os morros, que, como os demais, sustenta diversas filas de casas no dorso. O largo do Palácio é formado por um retângulo na direção de norte para sul. Seu ponto culminante, a norte, é ocupado pelo edifício que lhe dá o nome e onde habita o Governador da Província, sendo que em sua frente, no lado sul, está situada a Casa da Câmara. O palácio assemelha-se a um castelo antigo, rodeado como é de um muro com seteiras e pequenas torres. Erguendo-se atrás dessa muralha, é simples e de construção sólida com dois andares. Em cada lado de sua fachada, há uma ala de edifícios que se estendem para o fundo, cercando um grande pátio. A fila de leste chega até a estrada, que, vinda de Mariana, desemboca no largo. A de oeste fica atrás da muralha, fechando assim esse lado do palácio. Na entrada e nos cantos, havia sentinelas e, no pátio viam-se alguns pequenos canhões sem carreta. Não tive oportunidade de visitar o palácio por dentro, mas dizem que não se distingue nem pela riqueza de suas instalações, nem pela opulência, o que aliás não condiria com o tamanho de suas janelas. A Casa da Câmara, do outro lado da praça, não somente causa impressão agradável, mas impõem-se também pela sua, imponência. Não me resta a menor dúvida de que se trata do edifício de estilo mais perfeito que encontrei no Brasil. Ao olhar a Prancha IX, meus leitores por-se-ão de acordo comigo. A base sólida, toda ela feita de grandes quadrados, suporta uma ampla fachada de oito janelas, cujos nichos centrais formam a entrada, em frente à qual se estende a escadaria com sua balaustrada. O andar inferior, com suas grades de ferro nas janelas, é a cadeia. O superior tem mais altura e elegância com um balcão em frente às duas janelas centrais e outros menores em frente às laterais. Por cima das janelas centrais, brilha um escudo brasileiro em ferro dourado. Nos dois flancos da fachada, há uma cornija de gosto muito apurado, formada por uma galeria de vasos arquitetônicos e estátuas em cada extremidade, assentadas sobre grandes e sólidas pilastras. A estátua do oeste simboliza a Justiça e a de leste é a imagem de uma santa. Os lados do edifício quadrangular, que encerram um pátio, são de estilo mais simples, mas também de bom gosto. Atrás do edifício central, ergue-se uma torre de dois andares com um relógio, a qual ostenta em sua ponta as armas brasileiras em ferro dourado. Quando atravessamos a praça, o relógio marcava dez e meia.

Igreja de São Francisco de Assis (a legenda que diz Igreja de São Francisco de Paula, está errada), por Dr. Hermann Burmeister

A Rua Direita corta o largo do Palácio pela metade para descer abruptamente de ambos os lados. Duas outras artérias vêm do norte e entram na praça ao lado do palácio, enquanto que mais duas, vindas do sul, desembocam ao lado da Casa da Câmara. A estrada que vem de leste e passa pelo palácio é a de Mariana, e a de oeste, que corre paralela com a Rua Direita, passa pelo Quartel Militar e conduz a uma pequena praça em frente a uma ponte que atravessa o rio que separa o palácio e a Casa da Câmara de um outro morro situado mais para oeste. Nessa praça, há um belo chafariz. Numa passagem muito estreita, rente à ponte, está a Contadoria, ou Caixa Principal do governo com uma guarda no andar térreo. O edifício é muito grande, mas de construção simples, pousando em parte sobre estacas por cima do rio, que lhe corre ao pé. Desenhei a Contadoria e as casas em frente, podendo-se ver ainda as encostas dos morros e uma habitação isolada ao alto, à esquerda. A ponte é constituída de um simples arco de pedra com uma sólida balaustrada. A casa do lado direito da ponte, em frente à Contadoria, é a livraria de B. Pinto de Sousa, cujo estoque é, em sua maioria, integrado por trabalhos de edição própria. Comprei ali uma gramática portuguesa para uso escolar e folheei vários livros, entre os quais quero citar os seguintes, apenas para dar uma ideia dos assuntos que interessam aí: uma descrição da cidade de Jerusalém; uma coleção de novelas portuguesas em oito volumes, que muito me interessaram; um livro elementar para crianças, sobre “omni scibili”, com gravuras da mitologia grega e da história natural, e ainda vários outros livros escolares para cursos ginasiais. Mais adiante, havia diversas lojas reinando ali muita vida e animação. Tropas a cruzarem-se e lotes inteiros de mulas impediam, às vezes, a passagem. Vi ali lojas tão importantes quanto às do Rio de Janeiro, com joias de procedência francesa, faianças inglesas, muito em uso em todo o Brasil, casimiras e cortes de vestidos. Cada espécie de artigos vinha exposta em separado, e não, como geralmente se costuma fazer no Brasil, misturada com as demais na mesma casa de negócios. No fim, a rua divide-se em dois braços; o da esquerda vai ter ao rio, onde se encontrava o albergue do José italiano, como o chamavam, e o da direita sobe até uma altura considerável, beirando um precipício. Desenhei essas duas paisagens da janela do meu quarto e não quis deixar de publicá-las como típicas das coisas brasileiras, em geral, e das de Ouro Preto, em particular (Prancha X). A vista da capelinha – que apresenta a escadaria, já em ruínas, com um monte de lixo à esquerda, e do outro lado, à direita, os sinos, ameaçando cair, amparados apenas por algumas estacas – não deixará de causar ao leitor certa impressão hilariante e instrutiva ao mesmo tempo. Atrás da capela, do lado esquerdo, havia alguns pés de café e bananeiras, formando como que o jardim, acima do qual as casas da rua superior se espalhavam em terraços. Na parte inferior, vêem-se as casas da outra rua com suas vidraças quebradas e nunca substituídas. O fato de ter havido vidraças nas casas é indicativo de que seus antigos proprietários eram gente rica, em contraste com os atuais habitantes, com suas mobílias pobres e grades de madeira nas janelas. Não é preciso frisar que o reboco, na maioria das casas, já caíra e que a pintura, verde ou vermelha, dos umbrais das janelas ou outros enfeites quaisquer também já se tinham ido havia muito tempo.

Ficamos três dias em Ouro Preto, tendo bastante tempo para visitar todos os lugares interessantes e fazer pequenas excursões pelos arredores. Foi-me, possível também travar relações com algumas pessoas interessantes, que enriqueceram mais ainda os conhecimentos que, por observação própria, eu vinha adquirindo sobre o lugar.

Morro do Itacolomi, visto do Morro do Patíbulo, perto de Mariana, por Dr. Hermann Burmeister

É muito difícil fazer-se uma descrição rápida e completa da cidade, pois não existe nenhum ponto de referência de onde se possa focalizar de vez a localidade inteira. O morro de Vila Rica, pelo qual se alastra a cidade, é cheio de curvas e sinuosidades e separado do Itacolomi pelo ribeirão do Ouro Preto. O rio alarga-se consideravelmente antes de chegar à altura da cidade, formando como que uma, bacia, mas, à medida que se aproxima da mesma, vai se tornando cada vez mais estreito e, depois de passá-la, não deixa mais lugar em suas margens íngremes para qualquer plantação. Um pouco antes dessa parte assim estreitada, há um agrupamento de casas bastante considerável em redor de uma grande igreja de duas torres, mas tanto as igrejas quanto as habitações têm um aspecto assaz miserável, donde se deduz que a parte mais pobre da população vive ali. Do lado oeste, há uma grande ponte de pedra, que forma o início da estrada que conduz ao Rio de Janeiro, a qual, larga e cômoda, sobe o Itacolomi, passa ao lado do seu cume e, tomando a direção de sudoeste, dirige-se para Queluz e Barbacena. Na rua principal, que conduz à ponte, há um grande número de vendas abarrotadas de toicinho e cachaça, exalando um odor insuportável. É por essa rua que se chega à parte mais alta da cidade, com o Palácio e a Casa da Câmara, de onde a já mencionada Rua Direita leva ao albergue do José italiano. Essa parte da cidade é a melhor. A que fica nas margens do rio, ao lado da matriz de Nossa Senhora da Conceição, pode ser considerada como a terceira em importância. Uma segunda igreja-matriz, a de Nossa Senhora do Pilar, ergue-se ao lado da Casa da Câmara. Vem depois a quarta zona, no lado oeste, a qual ocupa um morro comprido denominado Vila do Rosário por ser onde se encontra a igreja de Nossa Senhora do Rosário. É aí que fica também a graciosa e elegante igreja de São Francisco de Paula, que eu desenhei. Acima desta, vêem-se ainda duas outras igrejas; uma menor, sem torre, quase no ponto mais alto do morro, e outra maior, com duas torres baixas, que atende os serviços religiosos da guarnição militar. Está ela situada numa pequena elevação acima do pátio do quartel, de onde se desfruta bela vista, embora não muito ampla, sobre a cidade. As restantes capelas e igrejas ficam mais escondidas e não atraem de imediato a atenção do viajante. Do meu ponto de observação, contei dez igrejas, mas, segundo Pizarro, Ouro Preto possui dezoito e, conforme Saint-Hilaire, dezesseis igrejas. O número de casas é calculado em 2.000. Ao tempo de seu apogeu, a cidade contava segundo dizem, 20.000 habitantes e é bem possível ter havido tamanha população, mas hoje uma grande parte das casas está em semi-ruínas e a, população não chega a 8.000 almas. O lugar perdeu muito de sua antiga importância e nele haveria ainda menos animação e riqueza se não fosse sede do governo da Província e de todo o aparelhamento administrativo e jurídico e se não contasse ainda com um quartel para uma força de 500 homens (1 batalhão). O comércio limita-se à venda de produtos importados do estrangeiro. Todo o ouro e diamantes encontrados na Província vão diretamente para o Rio de Janeiro. A forte casa bancária de Paulo Santos compra todo o metal precioso proveniente da companhia inglesa de Morro Velho, transação essa que aliás não é feita em Ouro Preto, mas no Rio, para onde a companhia manda as suas barras de ouro. Ouro Preto não é mais o grande depósito comercial para toda a Província de Minas Gerais. Ao sul, há a cidade de Barbacena e, ao norte, a de Sabará, as quais, atraindo o comércio interno e estabelecendo comunicação direta com o Rio de Janeiro, diminuíram sensivelmente a importância de Ouro Preto como centro comercial.

Rua na parte baixa de Ouro Preto, por Dr. Hermann Burmeister

Voltemos, porém, mais uma vez, às construções de Ouro Preto, a fim de apreciarmos as maiores e melhores entre elas. Já disse que a cidade possui duas igrejas matrizes, ambas na parte central. A principal, a que fica sobre o ribeirão do Ouro Preto, perto da hospedaria em que me instalei, é a igreja de Nossa Senhora da Conceição, geralmente denominada Igreja do Rio de Ouro Preto. Trata-se de uma construção antiga em estilo jesuíta-católico da Renascença, como a maioria das igrejas no Brasil. Seu comprimento é de mais de 100 pés e suas janelas são pequenas, sendo que sua atual restauração ocupa grande número de operários. A nave comprida e elíptica apresenta uma grande fenda atrás das torres. Uma delas, que parece haver ruído ou ter sido posta abaixo, deverá ser reconstruída. Não pude, por isso, visitar o interior do templo, mas disseram-me que ele é célebre pela riqueza em ouro aplicado na sua decoração interna. Saint-Hilaire, que a visitou, louvando muito as pinturas do teto como sendo as melhores por ele vistas no Brasil, diz que em cada lado da nave havia três altares sobrecarregados de ouro e entre eles pilastras coríntias douradas. No coro, ao lado do altar-mor, havia dependurados os retratos dos quatro evangelistas. Na nave central, via-se, por cima dos altares laterais, um púlpito. É exatamente essa a disposição de quase todas as igrejas no Brasil. A segunda matriz encontra-se à esquerda da Casa da Câmara, num lugar alto e aberto, podendo ser avistada mesmo de muito longe. Ela é um pouco maior, ao menos quanto à nave central, porém não mais alta, e sem nenhuma decoração arquitetônica. A nave tem a forma de um retângulo comprido com três janelas oblongas, sendo o coro outro retângulo semelhante. As torres são quadradas e o cume entre elas não apresenta nenhum enfeite. Sua vista exterior era, entretanto, muito agradável e parecia haver sido restaurada havia pouco. No interior, há quatro altares, em vez de três, como nas demais igrejas. Possui ela ainda um pequeno órgão, grande riqueza em ornamentação dourada, mas nenhuma pintura de valor. Essa igreja foi mandada construir pelo primeiro descobridor de ouro, Antonio Dias, e dedicada a Nossa Senhora do Pilar. Melhor que as duas anteriores e mais graciosa em suas linhas é a igreja de São Francisco de Paula, situada numa pequena praça na entrada de Vila do Rosário, bairro esse que possui três outras. Desenhei-a como sendo o modelo do mais elegante estilo brasileiro (Prancha X) e deixo de descrever seus detalhes porque o desenho fala por si. Toda ela é caiada e decorada com esculturas em pedra-sabão, e as torres são cobertas de cobre. As outras igrejas de Ouro Preto que visitei, eram simples, sem valor arquitetônico, não merecendo por isso menção especial.

Seminário de Mariana, por Dr. Hermann Burmeister

Depois de havermos assim nos interessado pelo aspecto externo da cidade, voltemos a atenção para a sua vida interna e para as suas características. Creio ser conveniente fazer aqui uma referência à história e à fundação de Ouro Preto (111). A colonização de Minas foi empreendida assaz tarde. Verificou-se somente depois de haver sido descoberta, por algumas pessoas que andavam pelo interior, a existência de ouro e diamantes em seu solo. A primeira notícia da descoberta do precioso metal veiculou, ao que parece, em 1680, quando Manuel Borba Gato o encontrou nas cercanias do rio das Velhas. Durante muito tempo, o achado do ouro processou-se ao acaso, fascinando, contudo, grande número de aventureiros, especialmente da Província de São Paulo. Foi somente em 1699 que esses homens, chegaram à região de Ouro Preto, que se tornou um lugar de grande atração devido à sua abundância em semelhante metal. Em 1701 existia um acampamento na zona que é hoje a cidade e a exploração era chefiada por Antonio Dias de Taubaté, que mandou erigir a primeira igreja. Decorridos dez anos, o lugar já era tão importante que, a 8 de julho de 1711, recebeu foros de cidade sob a denominação de Vila Rica do Ouro Preto. A cidade cresceu e expandiu-se e, havendo atingido sua completa estatura, começou, aos poucos, a cair, à medida que suas reservas de ouro se escasseavam. Sessenta anos mais tarde, as minas já estavam exaustas. Muito tempo depois de iniciada a sua queda, lembraram-se de salvar de completa ruína a cidade. Instalou-se nela a sede do governo da Província e o Quartel Militar e, em 1833, deram-lhe o pomposo título de Cidade Imperial de Ouro Preto, que lhe ficou até hoje, sem que, entretanto, conseguissem sustar de todo sua crescente decadência. Atualmente, ninguém mais se dedica à mineração, embora existam ainda algumas minas, cuja exploração, feita sem eficiência, não proporciona grande rendimento. O tempo em que se arrancavam plantas com pó de ouro na raiz era já passado e, muito mais ainda, época histórica dos ricos mineiros que empoavam com ouro o cabelo dos escravos, quando estes serviam à mesa dos grandes banquetes em suas vistosas librés. Conta-se que os poderosos proprietários de minas faziam servir aos funcionários reais, em vez da sobremesa que os demais convivas recebiam, uma xícara coberta cheia de pó de ouro e, enquanto os outros se deliciavam com os doces, esses funcionários faziam deslizar o conteúdo das xícaras nos seus bolsos. Data daquele tempo também o costume de presentear os intendentes reais, quando estes visitavam uma mina particular, com todo o ouro que durante sua permanência fosse extraído. Mas tudo isto passou. Os ricos ficaram pobres, as minas secaram, os funcionários reais caíram no olvido e o ouro que ainda hoje se extrai não vai mais para as algibeiras dos mineiros nem dos seus imperiais visitantes, mas sim para o bolso dos ingleses, que são os acionistas das companhias que adquiriram as melhores jazidas auríferas do Brasil. Por tantos motivos, a vida interna e intelectual de Ouro Preto nada de interessante oferece. É uma cidade que da opulência passou a um mal disfarçado estado de miséria e perdeu sua vitalidade, conservando somente os representantes da vida diária e chã – o pobre operário e o artífice – sem animação nem espírito de empreendimento. Nas cidades brasileiras isto acontece tanto mais porque a individualidade portuguesa nunca se sentiu inclinada para as grandes atividades intelectuais e nunca mostrou talento nesse terreno, o que nos é sobremodo provado pela pobreza de sua literatura. O povo português é um povo mercantil, como o fenício e o cartaginês da antiguidade, e por isso obteve um lugar de destaque na história das nações pelos seus extraordinários feitos no terreno dos descobrimentos geográficos. Mas deles falar-se-á apenas como meteoros que por breves instantes espalharam um brilho forte em seu redor. O brasileiro, como o português, somente de passagem é capaz de um grande esforço e de uma atividade intensa. Em pouco tempo, esmorece e entrega-se aos prazeres para nunca mais abandoná-los. Daí o pouco interesse pela vida coletiva e pelas coisas públicas que notamos nas cidades do Brasil. Ainda que Ouro Preto fosse tão rica como nas eras passadas, nem por isso haveria de possuir locais para divertimentos públicos, sociedades recreativas ou círculos literários, pois tais instituições são contrárias à índole luso-brasileira. Mas o que sobremodo faz sentir sua falta são as relações sociais entre os elementos dos dois sexos, e as mulheres continuam tão isoladas e afastadas da sociedade e da vida coletiva como em todos os demais pontos desse país. Manifestei, uma vez, a um jovem cavalheiro, em Ouro Preto, minha admiração pela dificuldade que há no Brasil de chegar-se a conhecer uma senhora de esfera social superior, o que não causava boa impressão ao forasteiro, privado assim de um prazer lícito e dos mais agradáveis que existem na vida. O meu interpelado deu-me toda a razão, prontificando-se a oferecer-me ensejo de ser apresentado à sociedade e convidando-me para uma visita à sua casa. Mas talvez sua esposa ou seus parentes não houvessem aprovado o plano do meu amigo, pois ele não voltou para buscar-me na hora combinada e nem nunca mais o tornei a ver. A causa não se deve procurar unicamente no ciúme dos maridos, mas também na timidez das mulheres e ainda na inclinação natural de ambos os sexos de procurar de preferência os prazeres proibidos e não os admitidos. Muitas mulheres se mostram mais inclinadas para as relações ocultas do que para as públicas e dentro dos limites de uma sã vida social, pois estas últimas exigem certa agilidade de espírito e vivacidade, o que ou lhes é escasso, ou lhes falta por completo. Notei, com certa surpresa, que as senhoras sempre preferiam conversar com meu filho, de 15 anos, do que comigo. Na palestra do menino elas encontravam sua própria mentalidade e suas ideias, enquanto que na minha tudo lhes era estranho e novo, e por isso a conversação comigo era-lhes acanhadora.

Vista Panorâmica de Ouro Preto, vendo-se a Igreja de Nossa Senhora do Monte do Carmo acima à direita.

Essa aversão natural às atividades mentais acompanhará sempre os brasileiros e suas mulheres por mais cuidado que dispensem às instituições educativas, como efetivamente o fazem. Já disse que cada aldeia possui sua escola, tanto para meninos como para meninas, e não é necessário frisar que as cidades não ficam atrás neste particular. Em Mariana, existem, ao lado do Seminário, duas escolas no largo da Cadeia, e ambas pareciam muito frequentadas. Não visitei os estabelecimentos do gênero em Ouro Preto, mas, em compensação, passei os meus três dias de estada lá em companhia do Dr. Elias, um dos professores da escola principal. A instituição de cujo corpo docente ele fazia parte era um colégio semelhante ao Instituto de Nova Friburgo, no qual as matérias eram orientadas, de modo bastante antiquado, segundo as sete artes livres, embora o colégio houvesse sido fundado depois de 1840. Meu amigo estudara em Coimbra e era professor de retórica. Disse-me ele que havia dois professores alemães no colégio, um, o Dr. Schulz, matemático e outro, o Dr. Wagner, geógrafo. Tive intenção de visitar esses patrícios, mas minhas ocupações infelizmente não mo permitiram. Em suas aulas de retórica, o professor Elias ensinava gramática e literatura portuguesas, o que fazia acompanhar de exercícios estilísticos. Ocupava ele, assim, uma cátedra importante. Além disso, ensinava-se o latim e a história, mas, pelo que compreendi, não o grego. Das línguas vivas, só o francês era incluído no programa, idioma esse que o professor Elias falava fluentemente e, se não me engano, ensinava também.

Política era assunto de interesse geral em Ouro Preto, mas somente política interna brasileira. A exterior ou europeia não interessava a ninguém. No albergue onde eu me hospedara, cerca de uma dúzia de jovens vinha fazer suas refeições. Ao que me pareceu, tratava-se de advogados e comerciantes, e suas palestras giravam sempre em torno das discussões na Câmara do Rio de Janeiro, ou das opiniões dos jornais locais a respeito. Ouro Preto possui quatro jornais políticos, dois a favor do governo e dois oposicionistas. No albergue só havia uma das folhas da oposição, “O Itamontano”, que, embora não fosse dos mais reacionários, já no cabeçalho trazia impressa a finalidade de sua luta pela República Federativa com a mais ampla autonomia para as Províncias. O governo não dispõe de outro meio para combater tais tendências, enquanto elas se manifestam apenas no terreno da luta de princípios através de jornais, a não ser o de igualmente orientar a opinião pública por meio de seus órgãos de imprensa, influenciando, por sua vez, os leitores. Os ricos e abastados encontram-se ao lado do governo, pois o que unicamente desejam, e também a todo custo, é sossego. Mas a classe média e também a geração nova são francamente republicanas. O último levante, em 1842, teria levado o partido republicano ao poder se o governador Feliciano, eleito pelo povo de Minas, tivesse mostrado mais energia e interesse mais sincero pela causa dos republicanos. Mas ele, que costumava deixar as coisas correr e que aceitara a presidência que lhe fora oferecida simplesmente por ser o homem mais rico da Província e para satisfazer a vontade do povo, fez as pazes com o governo, quando os revolucionários perderam, e foi perdoado. Os republicanos foram derrotados na batalha de Santa Luzia pelo barão de Caxias, general Lima e Silva, que mais tarde recebeu o título de duque. Este, quando as forças governamentais já haviam sido abatidas pelos revolucionários, conseguiu a vitória final, subornando-lhes o chefe. Os mineiros não podem esquecer essa derrota e, quando se fala em política, eles logo lembram a última revolução gloriosa e asseveram que somente a deslealdade do chefe foi a causa do fracasso. Por tudo isso, vê-se que os republicanos, embora temporariamente oprimidos, não perderam o ânimo e a coragem, e aguardam somente outra oportunidade propícia para levantarem novamente seu brasão. A população brasileira encontra-se numa luta intestina contínua, o que, a par de uma evidente falta de contentamento, perpetua o mal-estar. Ambas as correntes políticas empenham-se em divulgar suas ideias e atrair maior número de adeptos, o que explica a curiosa resolução da Câmara dos Deputados de fazer distribuir gratuitamente pelo Correio todos os jornais que publicam as sessões e discussões da Assembleia. O Correio é obrigado a entregá-los em todos os pontos sem nenhuma taxa de transporte. No Rio de Janeiro, vê-se, diariamente, saírem do edifício do Correio filas de muares carregados com enormes pilhas de jornais. Distribuem-se assim as folhas independentes mais lidas pelo Brasil inteiro, de uma agência para outra, principalmente o órgão monárquico-constitucional “Jornal do Comércio”.

Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto

Sou de opinião que um dos deveres de todo bom patriota é ocupar-se da situação política de sua pátria e tomar parte, em tempos de crise, na reorganização do aparelho governamental e jamais concordei com aqueles que dizem que política é assunto para certa classe de assalariados e na qual os leigos não devem interferir, pois considero tal ponto de vista como prova patente de falta absoluta de caráter e opinião. Não levava eu, entretanto, a intenção de preocupar-me em observar os assuntos da política brasileira com suas mesquinhas lutas partidárias. Devia dedicar-me a um trabalho produtivo e, como os homens e suas atividades não me oferecessem nada de interessante, apressei-me em voltar a atenção novamente para os meus estudos da natureza. Ouvi falar de um teatro que existia em Ouro Preto, do qual as críticas eram as mais desconcertantes. Tratava-se de um conjunto de amadores que, de vez em quando, representava nele uma ou outra peça, sendo os papéis femininos representados não por mulheres, mas por moços. Segundo as descrições de Saint-Hilaire (Prem. Voyage, I, 1, 148), a cidade dispõe de um teatro próprio, cujas instalações muito deixam a desejar. O hospital civil ali existente tem prédio próprio, sendo mantido por donativos públicos, como o do Rio de Janeiro. Sua administração é autônoma e ele se destina especialmente a servir a classe pobre da população. Esse estabelecimento tem o nome de Hospital da Misericórdia. Não o visitei, mas ouvi falar nele. As tropas aquarteladas em Ouro Preto têm o seu hospital militar mantido pelo governo. Entre outras instalações públicas, pode-se mencionar ainda as fábricas de pólvora e de louça, as quais fornecem péssimo material. Nenhum brasileiro emprega pólvora nacional, que somente é usada pelo Exército, e em cada venda se encontra excelente explosivo inglês para caça. Os produtos da segunda fábrica têm acolhimento ainda pior por parte do público. Vi algumas xícaras e pratos ali fabricados muito toscamente e sem nenhum gosto. Disseram-me que a fábrica estava parada por falta de mercado e que dificilmente chegaria a reiniciar suas atividades. Era ela uma empresa por ações, fundada por particulares. O mineiro de recursos usa somente louça inglesa e o pobre come na “cuia”, vasilha essa feita do fruto da “Crescencia cujete”, uma árvore da família das Bignoniáceas, do porte de uma macieira e cujos troncos e ramos inferiores se cobrem de grandes frutos ovais de diversos tamanhos. A comida prepara-se em panelas de latão, ferro ou barro preto, que se fabricam em muitos lugares do Brasil. Os pretos sempre levam consigo a sua cuia, seja no bolso, seja dependurada na cintura.

Depois de visitar a cidade e todos os lugares que me poderiam despertar interesse, resolvi percorrer os arredores, mas sem a preocupação de entrar em maior contado com os mineiros. Evitei também, propositadamente, a aproximação com os poderes públicos, pois nada deles me interessava. De que me poderia servir apresentar minhas homenagens ao presidente da Província? Certo que não veria nada de novo e perderia ainda algumas horas em salas de espera, com todas as cerimônias da apresentação e caminhadas de um lado para outro, tempo esse que eu poderia empregar de maneira mais útil. Visitei, entretanto, o engenheiro-chefe da Província, o Sr. Halfeld, um alemão nato que prestara grandes e relevantes serviços ao país na construção de estradas e estudos topográficos. Graças à gentileza desse patrício, foi-me possível conhecer uma interessante coleção de minerais provenientes das várias regiões da Província, onde florescia a mineração, e que era de grande interesse para mim. O que ainda mais me prendeu a atenção foram as várias cartas elaboradas pelo próprio Sr. Halfeld em diversos lugares de Minas. Foi assim que melhor pude conhecer a configuração do país pelo qual viajava, notando, ao mesmo tempo, as deficiências dos dados existentes sobre essa Província, pois todos eles eram de datas antigas. O governo tem a intenção de fazer publicar essas cartas, mas a lentidão da máquina administrativa no Brasil e vários outros pequenos empecilhos, dos quais uma pessoa acostumada a viver num Estado organizado não pode ter nem a mais leve ideia, não permitirão que tal plano se realize tão depressa. O Sr. Halfeld chamou-me a atenção para os graves erros existentes a respeito das mais importantes posições geográficas e declarou-me que a própria situação de Ouro Preto era indicada com um erro de alguns minutos para oeste. Grandes são as oscilações e incertezas que se encontram nas diversas obras a respeito. Von Eschwege, por exemplo, indica a posição de Ouro Preto como sendo de 20° 23’ 56” de latitude sul e Saint-Hilaire 20° 25’ 30”. O primeiro não faz referência à longitude, mas, segundo sua carta, que foi copiada por Von Martius, a cidade está situada a 1° 22’ a oeste do Rio de Janeiro, ou seja, 26° 58’ a oeste de Ferro, enquanto que Saint-Hilaire nos dá 25° 57’ 48” a oeste daquele mesmo meridiano, o que representa uma diferença de quase um grau. Parece que esta última indicação fica aquém do exato e que a primeira o excede, pois a situação da cidade passa um pouco dos 26° a oeste de Ferro, provàvelmente 26° 6’ 8”, conforme calculei. A revisão de von Eschwege quanto à indicação das posições foi pouco minuciosa, e isto se pode verificar já em sua carta, na qual ele apresenta Ouro Preto na latitude de 19° 49’, enquanto todas as demais indicações, inclusive as dele mesmo contidas em suas obras, dão-na mais ao sul do 20° (Veja-se “Brasil, o novo mundo”, II, 173). Vê-se assim que o Sr. Halfeld tinha razão ao declarar errados os dados daquele patrício. Quanto às indicações de altitude acima do nível do mar, o caso é semelhante. Von Spix e Von Martius indicam a altitude de Ouro Preto, segundo observações próprias, como sendo de 3.547 pés franceses (112) e Von Eschwege, que não mediu o nível do ribeirão do Ouro Preto e sim o ponto mais elevado do Palácio, dá 3.760 pés ingleses.

Notas

  1. O que aqui informo é da obra de Eschwege “Pluto Brasilienses”, p. 14, Berlim, 1833.
  2. Cito aqui os números conforme aparecem na carta de altitudes do atlante, que acompanha a descrição das viagens. No texto (Vol. I, p. 396, anotações) há números muito inferiores.

Fonte

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  • Casa dos Contos – Hans Nöbauer – Acervo do Museu Histórico Nacional – Óleo sobre madeira – Século XX – Ouro Preto, MG. Residência mandada construir pelo Contador João Rodrigues Macedo, em fins do Século XVIII, para sua moradia e repartição dos contratos e dízimos do ouro.

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