Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Jardim Botânico do Rio de Janeiro – P. G. Bertichem – 1856

Algumas vezes tomávamos pela rua da Praia de Botafogo, na direção da Lagoa Rodrigo de Freitas, uma hora distante, onde está a real fábrica de pólvora e uma escola de plantação para vegetais estrangeiros, que é chamada Jardim Botânico. O caminho ora segue na encosta da montanha de granito, por entre moitas floridas de Murtas, Tournefortias, Securidacas e Paulíneas, em cujos ramos vimos pela primeira vez vivo um escaravelho brilhante [1], ora coleando pela beira-mar, coberto de altas samambaias, capins tropicais e Orquidáceas, oferecendo a maior variedade, e quase nunca está deserto, porque muita gente da cidade possui neste lugar as suas casas de campo. A praia forneceu-nos ali, na verdade, alguns exemplares de estrelas-do-mar, ouriços, diversas conchas, insetos e ervas marinhas; somente aqui nos ocorreu uma observação, que se confirmou por toda parte, no prosseguimento da nossa viagem, isto é, que esses animais e plantas, tão abundantes nas costas dos mares do norte, são menos numerosos na zona quente, e sobretudo no Brasil ainda são mais raros do que na Índia Oriental. Parece que esses organismos noturnos e incompletos existem em número maior nos climas frios, e, pelo contrário, as formas mais perfeitas são abundantes nos climas quentes. Talvez também a profundidade do oceano nas costas do Brasil, que é muito mais considerável do que as dos mares da Índia Oriental, seja o motivo da maior raridade dos habitantes do mar.

A fábrica de pólvora e a residência do Sr. João Gomes Abreu, Coronel do Corpo de Engenheiros, um amável e ilustrado brasileiro, de Minas Gerais, diretor da Fábrica e do Jardim Botânico, estão circundadas, de um lado com rochas cobertas de matas, do outro pela Lagoa Rodrigo de Freitas, que se leva mais ou menos meia hora a atravessar, num sítio onde pairam o mais perfeito silêncio e sossego.

Thomas Ender – Fábrica de pólvora no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, vendo-se a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Capela de Nossa Senhora da Conceição.

Atrás das casas está situado o dito Jardim Botânico. Diversas belas alamedas de árvores do pão do Oceano Pacífico (Artocarpus incisa), itós de folhagem cerrada (Guarea trichilioides) e mangueiras cortam a plantação, dividida em quadrados regulares, cujo mais importante objeto de cultivo é o arbusto do chá chinês. Até agora estão plantados seis mil pequenos pés, a três pés de distância um do outro, em filas. O clima parece ser favorável ao seu crescimento; floresce nos meses de julho até setembro, e as sementes amadurecem perfeitamente. Também este exemplo confirma, além de outras tentativas da cultivação de plantas asiáticas na América, que sobretudo a igualdade da latitude convém à prosperidade das mudas. O chá é deste modo tão perfeitamente cultivado, como na própria China, plantado, colhido e torrado. O governo português dedica especial atenção à cultura desse vegetal, cujo produto da China é anualmente transportado para a Inglaterra no valor de um milhão de escudos. O Ex-Ministro, Conde de Linhares, mandou vir uns cem colonos chineses, a fim de tornar conhecida a vantagem do cultivo e do preparo do chá. Esses chineses não eram os tais habitantes da costa, que por miséria se exilam da pátria para Java e as ilhas vizinhas, e ali, como os galegos da Espanha e Portugal, procuram trabalho; eram gente escolhida do interior, perfeitamente a par do cultivo do chá. A maioria desses chineses não mora atualmente no Jardim Botânico, porém nos arredores da Fazenda Real, de Santa Cruz, a não serem uns poucos, que, sob a direção do Cel. Abreu, são empregados no cuidado das mudas de chá e na colheita e preparo das folhas. A colheita é feita três vezes por ano, as folhas são levadas a fornos de barro, de calor pouco intenso, onde secam e são enroladas. O diretor do estabelecimento deu-nos para provar chá de diferentes espécies. O sabor era forte, porém, longe de ser tão finamente aromatizado como o das melhores espécies chinesas, era um tanto áspero e terroso. Esta desagradável propriedade não deve, entretanto, desanimar de todo esse ramo da incipiente cultura, pois é natural consequência da aclimação ainda não completada. Além da árvore do chá, mostraram-nos ainda diversas plantas da Índia Oriental, a caneleira (Laurus Cinnamomum), o craveiro da Índia (Caryophyllus aromaticus), a pimenteira (Piper nigrum), o gneto (Gnemon Gneton), a noz-moscada (Mirystica moschata), a caramboleira (Averrhoa Carambola), cujas frutas ácidas têm muito bom sabor na sopa, etc. Embora parte destas árvores tenha apenas um ano de idade, já a maioria deu frutos. Cuidadoso e perseverante trato fará aclimar aqui todas essas plantas, pois o Novo Continente foi preparado pela natureza para hospedar os produtos de todos os climas e aperfeiçoá-los tais como eram na sua pátria de origem.

A fábrica de pólvora existente na vizinhança do Jardim Botânico é a única no Brasil, além de um pequeno estabelecimento particular em Minas que foi igualmente criado por privilégio real. A sua produção não pode entretanto orgulhar-se de ser como a boa mistura que se importa da Europa, porém que aqui é quase proibida. Presume-se que tal aconteça devido em parte à natureza, não correspondente a este clima, do salitre que vem das colônias portuguesas da índia Oriental e das cavernas do Rio São Francisco para o Rio; e devido também em parte à qualidade do carvão empregado no fabrico da pólvora. Nós não sabíamos que carvão se preparava aqui; porém na viagem ao interior, onde a compra da pólvora da costa é muito difícil e cara por causa dos consideráveis impostos sobre a pólvora estrangeira, asseguraram-nos alguns sertanejos, que para o seu uso particular preparavam uma pólvora bem resistente conforme a conhecida mistura com carvões de diversas espécies da Corindiúva (Celtis). Todavia é proibido aos naturais o preparo de qualquer pólvora, embora muito inferior à inglesa em força e resistência.

Nota

  1. Curculio imperialis.

Fonte

  • Spix, Johann Baptist von; Martius, Carl Friedrich Philipp von. Viagem pelo Brasil. Tradutora d. Lucia Furquim Lahmeyer, bibliotecária do Instituto; Revisores, o dr. B.F.Ramiz Galvão e o prof. Basílio de Magalhães, que foi também o anotador. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1938. (Tradução brasileira promovida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro para a comemoração do seu centenário).

Livro original

Galeria de Imagens

Imagem destacada

  • Saracura do Mato no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Mapa

Jardim Botânico do Rio de Janeiro