Salvador

A cidade de São Salvador da Baía de Todos os Santos está situada na ponta meridional de um promontório que, do lado de leste, fecha a enseada chamada Recôncavo; a cidade é comumente designada por Baía, sem adição de outros nomes. Em frente da cidade encontra-se a Ilha de Itaparica, que fecha o Recôncavo à oeste. O maior comprimento do Recôncavo, de leste a oeste, é de 8 léguas; sua maior largura, de norte a sul, é de 6 léguas e meia. Muitos rios desembocam nessa enseada, o mais importante dos quais é o Paraguaçu. Em torno dela erguem-se colinas de cimo achatado, cobertas de florestas e de plantações de açúcar e café. Já à beira dos rios e do mar somente se encontram plantações de açúcar. Vêem-se, nas capoeiras, algumas espécies de belíssimas palmeiras que os índios chamam licurí-bravo e licurí-capóculo; é a palmeira piaçaba. Os frutos dessa árvore são muitas vezes exportados para a Europa, onde os torneiros o empregam em grande escala; a fibra serve para fabricar cordas, cabos e tecidos. As palmeiras-cocos e os cocos de Endeia alternam com as palmeiras, cobrindo toda a parte baixa da costa com florestas ralas, o que apresenta um aspecto muito agradável. Em geral essa costa é uma das mais cultivadas e férteis do Brasil. As florestas virgens só começam a uma distância bastante grande da costa e nessa região não existem montanhas muito altas, como as que se vêem perto do Rio de Janeiro.

A Ilha de Itaparica, em frente da Baía, tem sete léguas de comprimento e mais ou menos duas de largura. É muito fértil e abastece o mercado da cidade de toda espécie de legumes e frutas. Todas as manhãs parte para a Baía uma pequena frota carregada desses mantimentos. No mercado vê-se também muita cerâmica, mas esta é fabricada principalmente em Jaguaribe, aldeia bastante importante, situada no continente, defronte da ilha, e cujos habitantes são assaz abastados. Entre estes há inúmeros pescadores de baleia e os ossos desses cetáceos, empregados nas cercas dos pátios e jardins, atestam que os pescadores são hábeis e felizes e provam que existe grande número de baleias nesses mares. A cidade da Baía está construída na entrada do Recôncavo, sobre a margem oriental, parte na praia e parte na encosta da colina. Os edifícios, principalmente da cidade alta, cercam-se de bosques e de jardins, e, vistos do porto, apresentam um aspecto bastante pitoresco. Na parte mais antiga, as casas são construídas à moda europeia: são na maioria muito altas, providas de sacadas e com telhado chato.

Perto da alfândega e do cais de desembarque, as casas têm em geral, 3, 4 e mesmo 5 andares, mas não comportam senão 3 a 4 janelas nas fachadas. As ruas são estreitas e irregulares, porque o pequeno espaço entre os rochedos e o mar não permitia abri-las com maior largura. Três ruas ascendentes, e fortemente inclinadas, unem a cidade comercial aos bairros e arrabaldes. Nestes as casas são mais baixas, mais claras e mais adequadas ao clima; as ruas são mais largas, mais limpas e mais bem calçadas. Há, na Baía, grande número de edifícios públicos, mas eles são mais notáveis pelo tamanho que pela beleza da arquitetura. Boa parte deles é já antiga em relação à duração dos edifícios no Brasil. Citaremos, como dignos de menção, o teatro e o palácio do Governador, ambos construídos num belo largo donde a vista se estende ao longe sobre o Recôncavo. Citaremos também, a Igreja e o Colégio dos Jesuítas, bem como a Igreja dos Barbadinhos italianos. A Baía possui numerosas igrejas e vinte e cinco conventos.

Na cidade baixa só existem comerciantes. Os mais ricos, principalmente os estrangeiros, possuem casas de campo ou chácaras nas colinas, fora do centro da cidade. O mercado de escravos, a bolsa, as lojas dos negociantes, o arsenal e os estaleiros também se encontram na cidade baixa. Os navios construídos na Baía gozam de grande reputação, não só pelo mérito da construção como pela excelência da madeira empregada.

Depois do Rio de Janeiro, Baía é, atualmente, á cidade mais importante do Brasil. Seu comércio é mesmo maior que o da Capital. O açúcar constitui o principal artigo de exportação; manda-se, também, para a Europa muito algodão, café e couros de animais. O comércio da Baía com as províncias vizinhas de Piauí, Sergipe, Ilhéus, etc., é florescente e cresce continuamente. Durante a dominação portuguesa, o Governador Conde dos Arcos, que mais tarde foi ministro da marinha, embelezou muito a Baía e a dotou de muitos estabelecimentos úteis. Sob a sua administração, que durou vários anos, fundaram-se uma vidraria, uma tipografia, uma bolsa e um teatro; os passeios públicos foram embelezados e tornados mais espaçosos; foi fundada uma biblioteca, criadas escolas e incentivado, entre os habitantes, o gosto pela ciência.

A história da Baía apresenta certo interesse e, como este país, em geral, é pobre de recordações, merece ser esboçada. Em 1516, o Rei João III, de acordo com o sistema de colonização então em vigor, entregou a D. Francisco Pereira Coutinho toda a costa desde a Ponta de Santo Antônio até o Rio de São Francisco. Quando Coutinho abordou na Baía de Todos os Santos, encontrou entre os Tupinambás, que a habitavam, um português de nome Álvares Correia. Anos antes uma tempestade o jogara nessas plagas e ele se unira a uma índia, filha de um cacique. Esse Álvares conseguira formar em torno de si um partido poderoso e sua influência favoreceu, a principio, o estabelecimento de seus compatriotas. Mas não tardaram as dissensões entre portugueses e tupinambás, pois Coutinho, longe de reprimir as violências de seus subordinados, garantia-los certa impunidade, dando ele próprio o mau exemplo. Correia, que procurava proteger seus antigos amigos, foi preso por ordem de Coutinho; então Paraguaçu, sua esposa, apelou para o pai e para a tribo afim de vingar-se e Coutinho teve que abandonar a região. Fugiu para Ilhéus, levando o prisioneiro. Seria esse fato um assunto de romance ou de poema histórico se, para imaginar essa heroína dos Tupinambás, pudéssemos esquecer o aspecto repugnante das Índias de nossos dias. Certo tempo depois, uma facção dos Tupinambás convidou Coutinho a voltar, mas, ao entrarem os navios deste na Baía, desencadeou-se violenta tempestade que os jogou na costa da ilha de Itaparica onde se perderam. Coutinho e todos os companheiros, que puderam escapar do naufrágio, caíram nas mãos dos Tupinambás e foram comidos como presa de guerra. Tal catástrofe libertou Álvares Correia; os índios o acolheram bem e ele viveu ainda muito tempo entre eles. Com a morte de Coutinho, a região voltou à Coroa de Portugal e João III, percebendo o partido que se podia tirar da Baía de Todos os Santos, resolveu fundar aí a capital do Brasil. Para levar a termo esse empreendimento mandou cinco navios com 600 voluntários e 1.500 degredados. Tomé de Sousa foi encarregado do comando com o título de Governador Geral; ao mesmo tempo, colocaram-se sob as suas ordens os demais estabelecimentos e restringiram-se consideravelmente os privilégios dos primeiros capitães. À chegada de Tomé de Sousa, Álvares Correia vivia ainda. A influência desse homem singular contribuiu, tanto quanto a própria sabedoria e moderação do governador, para o estabelecimento de relações de amizade com os Tupinambás que muito favoreceram o desenvolvimento da capitania. Mais tarde, ao estalarem dissensões entre portugueses e índios, a nova colônia já se encontrava tão solidamente enraizada, graças ao apoio que lhe haviam emprestado os próprios índios, que novas agressões se tornaram difíceis e dia a dia menos possíveis. A chegada de inúmeros jesuítas multiplicou as oportunidades de incidentes, em razão talvez do demasiado zelo com que procediam à catequese. Procuraram também os jesuítas corrigir os hábitos de antropofagia dos Tupinambás e arrancaram-lhes das mãos mais de uma vítima.

Em 1552, Tomé de Sousa entregou o governo a Duarte da Costa, nomeado seu sucessor. Este chegou acompanhado de muitos jesuítas, entre os quais o célebre Anchieta, mas que logo deixaram a Baía para continuar, no sul do Brasil, seus trabalhos de catequese e lançar as bases da potência que a ordem estabeleceu no Paraguai.

O fim do século XVI foi para a Baía uma época importante, pois o aumento da população e a extensão cada vez maior das feitorias portuguesas no Brasil, provocaram a divisão desta colônia em dois governos distintos. A Baía ficou sendo a capital do governo setentrional e o Rio de Janeiro a das províncias meridionais (1572). Entretanto, ao fim de alguns anos, reuniram-se num só os dois governos, os quais foram novamente separados, até o Rio de Janeiro tornar-se a capital do Brasil todo. Mais ou menos na mesma época, os Tupinambás emigraram para o interior do país, único meio de que dispunham para escapar aos portugueses, cujos ataques reiterados ameaçavam destruir pouco a pouco toda a tribo. Parte de suas aldeias foram então ocupadas por outros selvagens, pertencentes a tribos não menos poderosas, mas que tiveram também que ceder, diante da civilização europeia em contínua penetração. Hoje em dia, conhece-se apenas de nome a maioria dessas tribos selvagens; os membros remanescentes espalharam-se pelas florestas do interior ou se estabeleceram entre os colonos, misturando-se assim aos europeus e aos africanos.

A morte do Rei D. Sebastião, na infeliz batalha de Alcácer, teve como consequência a reunião de Portugal e do Brasil à Espanha. A negligência do governo espanhol e sua má vontade para com a colônia constituíram uma oportunidade para os inimigos da Espanha, que tentaram um ataque ao Brasil. Em 1623 a Companhia Holandesa das índias Ocidentais armou uma frota de 60 unidades para tomar conta da presa, a qual, a julgar pelas aparências e as informações colhidas, devia ser de fácil conquista. Embora a Corte da Espanha tivesse ciência desses preparativos e do objetivo da expedição, nada fez para opor-se a ela e ao surgir uma divisão da frota holandesa diante da Baía, sob o comando de Willikens, o governador Diogo de Mendonça tinha, para defender a capital, apenas 80 homens de tropa de linha. Quanto aos milicianos, tinham eles maior aversão ao jugo espanhol do que aos holandeses que olhavam, até certo ponto, como aliados e libertadores. Por isso, dispersaram-se sem resistir. Mas o Governador defendeu tão valentemente o palácio, onde se entrincheirara com sua tropa, que os holandeses lhe prometeram facultar-lhe a retirada para onde desejasse. Mas, não cumpriram a palavra, e, ao depor ele as armas, declararam-no prisioneiro e o mandaram para a Europa. Pouco depois de Willikens ter tomado a Baía, o resto da frota holandesa chegou conduzida por Vandoort, o qual tomou o comando geral. Os acontecimentos provaram, entretanto, muito logo, que não fora a covardia dos brasileiros que tornara a vitória fácil. As causas desta residiam, primeiramente, na negligência do governo e, em seguida, na falta de confiança e de dedicação do povo. Revoltados com a avareza grosseira dos holandeses, os habitantes da Baía e de toda a província reuniram-se nos recantos menos habitados da região. O abade Marcos Teixeira pôs-se à testa dos insurrectos e os holandeses muito breve se viram reduzidos exclusivamente à posse da capital; toda a província achava-se em estado de revolta aberta. Essa enérgica insurreição permitiu à Corte da Espanha armar uma frota para socorrer o Brasil. Em 1625 D. Fradique de Toledo apareceu diante da Baía e, depois de um cerco de um mês, obrigou a guarnição holandesa a render-se. Desde então não puderam mais os holandeses restabelecer-se na Baía e uma nova frota por eles enviada, para tentá-lo, foi batida por D. Fradique. Mas voltando à Espanha, a frota deste último sofreu tantas tempestades que entrou em Cadiz muito reduzida e com navios em mísero estado. A Baía foi então abandonada a si própria. Mais tarde o almirante holandês Petri não conseguiu ir além da devastação das costas. Porém os meios insuficientes de defesa e a indiferença das autoridades não permitiram fossem secundados os esforços heróicos do país contra os holandeses. A gloriosa restauração que elevou a Casa de Bragança ao trono de Portugal, separando-o da Espanha, foi recebida no Brasil com grande entusiasmo e a dominação espanhola terminou sem que ninguém tentasse desembainhar a espada em prol da sua continuação.

A partir desse momento, a Baía cresceu em extensão, população, importância comercial e se os progressos não foram muito rápidos foram pelo menos contínuos. Entretanto, a história dessa cidade é tão insignificante quanto a das outras colônias portuguesas da mesma época. O único acontecimento que mereça ser lembrado é a trasladação da sede do governo para o Rio de Janeiro, resolvida sob o ministério do Marquês de Pombal. Sem dúvida, com isso, perdeu a Baía muito de seu esplendor e de sua importância política, mas a trasladação foi mais benéfica do que nociva para os comerciantes da cidade. Contudo o descontentamento foi grande entre os habitantes da Baía e das províncias setentrionais. Adquiriram eles hábitos de independência, o que se tornou fácil, em razão da distância, e perdura ainda hoje, como bem o provam os últimos acontecimentos, pois se os movimentos esboçados no Rio encontraram tanta resistência das províncias do norte, isso se deve sem dúvida alguma a esse espírito de independência local e ao antagonismo existente entre a Baía e a Capital. Em 1821, foram, em verdade, as tropas portuguesas da Baía que, antes de quaisquer ordens contra a vontade do Príncipe Regente, proclamaram a constituição portuguesa e se opuseram violentamente à separação do Brasil. Mas boa parte da população apoiou essa resistência das tropas, ou pelo menos a favoreceu, por uma indiferença que não se deve absolutamente confundir com uma verdadeira afeição pela metrópole, mas antes atribuir a ambições e planos que o futuro amadurecerá cedo ou tarde, embora atualmente estejam manietados pelas mãos possantes de quem estende sua dominação sobre o Brasil. Em 1824 a tranquilidade da Baía foi perturbada pela sedição de parte da guarnição e pelo assassínio do Comandante Felisberto Caldeira, crime que não teve consequências maiores e que talvez não as visasse.

Fonte

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  • Hospício de Nossa Senhora da Piedade na Bahia, por Johann Moritz Rugendas (1802-1858), no livro Viagem pitoresca através do Brasil. p. [gravura 75]. Via Biblioteca Nacional.

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