Enterro de uma Negra

A única diferença que existe entre o acompanhamento do enterro de uma negra e o de um homem da mesma raça reside no fato do cortejo se constituir unicamente de mulheres, à exceção de dois carregadores, de um mestre de cerimônias e do tambor. Este carrega um caixote de madeira de tamanho médio, sobre o qual executa de vez em quando uma espécie de rufo lúgubre com as palmas das mãos; como esse caixote é carregado debaixo do braço o tambor vê-se obrigado a agachar-se de quando em quando e colocá-lo sobre os joelhos para poder agir. Mas assim que o cortejo o alcança ele se lança de novo para a frente, a fim de ganhar terreno, o que explica os intervalos entre os rufos, preenchidos aliás pelas salmodias do cortejo feminino, cujos clamores mágicos incitam inúmeras compatriotas a se unirem ao enterro. Entre os moçambiques as palavras do canto fúnebre são especialmente notáveis pelo seu sentido inteiramente cristão, pois entre os outros limitam-se a lamentações acerca da escravidão, ainda assim grosseiramente expressas.

Dou aqui o texto moçambique em português; nós estamos chorando o nosso parente, não enxerguemos mais; vai embaixo da terra até o dia do juízo, hei de século seculorum amem.

Quando a defunta é de classe indigente os parentes e os amigos aproveitam a manhã para transportar o corpo numa rede e depositá-lo no chão junto ao muro de uma igreja ou perto da porta de uma venda. Aí uma ou duas mulheres conservam acesa uma pequena vela junto à rede funerária e recolhendo dos passantes caridosos módicas esmolas para completar a importância necessária às despesas de sepultura na igreja ou mais economicamente, na Santa Casa de Misericórdia, onde este tipo de inumação custa três patacas, ficando o transporte por conta da instituição.

Essa exposição pública atrai infalivelmente os curiosos, sobretudo compatriotas da defunta que também contribuem para o enterro. Pobres como ela, dão apenas, o mais das vezes, uma moeda de dez réis, a menor moeda em circulação. Mas o número supre a modicidade do óbolo, pois não há exemplo de indigente moçambique que fique sem sepultura por falta de dinheiro.

A cena se passa diante da Lampadosa, pequena igreja servida por um padre negro e assistida por uma confraria de mulatos.

O mestre de cerimônias negro, com uma vara na mão, vestindo uma dupla cota formada por lenços de cor e com sua rodilha à cabeça, faz parar o cortejo diante da porta que só é aberta no momento da chegada, a fim de evitar a entrada da multidão de curiosos seus compatriotas. O tambor aproveita essa parada para fazer rufar seu instrumento, enquanto as negras depositam no chão seus diversos fardos a fim de acompanhar com palmas os cantos fúnebres em honra da defunta transportada na rede e acompanhada por oito parentes ou amigas íntimas, cada uma das quais pousa a mão sobre a mortalha.

A essa ruidosa pompa funerária junta-se o som de dois pequenos sinos quase coberto pelo ranger dos gonzos enferrujados que os suportam. E a sombra da noite cobre todos esses detalhes com um véu fúnebre, pois a cerimônia, de acordo com os costumes brasileiros, só começa no fim do dia.

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Enterro de uma Negra e Enterro do filho de um Rei Negro, de Jean Baptiste Debret, via NYPL.

Mapa – Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa