Senhora carregada na cadeirinha indo para a missa

cadeirinha importada de Lisboa é usada no Brasil como a liteira em França. Servem comumente para as senhoras irem à missa. A cadeirinha do Rio de Janeiro é reconhecível pela sua cobertura sempre enfeitada de ornatos mais ou menos dourados, ao passo que a da Bahia, de parte superior lisa, é em geral menor e mais levemente construída, o que se pode observar ainda hoje nas ruas do Rio de Janeiro. Se na capital o uso da cadeirinha só se verifica entre as velhas senhoras brasileiras que não possuem carruagens, o mesmo não ocorre na Bahia; nesta cidade, construída em anfiteatro e pouco favorável à circulação das carruagens atreladas, é necessário, ao contrário, o uso das cadeirinhas para percorrer facilmente as ruas quase todas íngremes. Por isso, o habitante da cidade só sai de cadeirinha ou se faz acompanhar por ela caso deseje andar momentaneamente a pé. Aliás, encontram-se em determinadas praças, cadeirinhas de aluguel, como os cabriolés em Paris.

A circulação das cadeirinhas de aluguel, preciosas pela vantagem que oferecem de poder entrar em todos os andares térreos com as cortinas fechadas, dissimulando aos olhos dos passantes o sexo e o rosto do visitante interessado em conservar o incógnito, explica-se na Bahia, em grande parte, pela intensidade da vida amorosa.

A cadeirinha do Rio de Janeiro, aqui representada, pertence a uma pessoa rica e de boa sociedade que se faz conduzir por escravos de libré. Pode-se opor-lhe o luxo de algumas mulatas concubinas, que aproveitam os dias de festas para exibir na igreja todo o ridículo de sua faceirice de mau gosto, em geral desajeitada e exagerada, e que ostentam mesmo, nas ruas cadeirinhas suntuosas com coberturas sobrecarregadas de ornatos, de execução muito delicada em verdade, e profusamente douradas; o mesmo rebuscamento dispendioso se verifica nas cores brilhantes das cortinas de veludo ou de seda sempre agaloadas e enfeitadas com lindos laços de fitas.

mulher honesta, ao contrário, conserva fechadas as cortinas, reservando-se a possibilidade de mostrar-se entreabrindo-as com as mãos. Uma de suas criadas de quarto marcha ao lado da cadeirinha para carregar a bolsa e o livro de missa e transmitir suas ordens aos outros escravos que acompanham a poucos passos de distância.

A cadeirinha, como o balcão, é um palco de faceirice; nela também primeiro gesto gracioso de uma senhora brasileira consiste em agitar o leque fechado. Quanto mais vivos e reiterados os movimentos, mais amável e condescendente é o acolhimento, sobretudo quando se acompanha de um sorriso afetuoso, hábito que se observa igualmente em Lisboa e Madrid.

Algumas senhoras, para sua distração durante o trajeto, fecham as cortinas de um dos lados da cadeirinha, formando com habilidade à altura dos olhos uma pequena mas deselegante abertura, no intuito de não serem reconhecidas pelos transeuntes.

Finalmente, ao chegar em casa é a cadeirinha despojada de suas cortinas e coberta com uma tela grosseira que a preserva da poeira, durante o tempo em que não é utilizada. Suspendem-na em seguida ao teto do corredor de entrada, bem junto ao muro, a fim de dar passagem aos barris dos negros carregadores de água.

As funções da cadeirinha não se limitam aos curtos passeios; tornaremos a encontrá-la figurando vantajosamente nas diferentes cerimônias religiosas.

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Idoso convalescente e Senhora carregada na cadeirinha indo para a missa, por Jean Baptiste Debret, via NYPL.