Pátio do Colégio - Museu Anchieta

Descrição de São Paulo

Descrição de São Paulo – Sistema de cultura nos seus arredores – Excursões às minas de ouro de Jaraguá – Métodos de mineração nelas empregados – Volta a Santos.

São Paulo, situada num agradável planalto, com cerca de duas milhas de extensão, é banhada, na base, por dois riachos [1], que, na estação das chuvas, quase a transformam em ilha; ligando-se ao planalto por um caminho estreito. Os riachos desembocam em largo e belo rio, o Tietê, que atravessa a cidade, numa milha de extensão, tomando a direção sudoeste. Sobre ele existem várias pontes, algumas de pedra, outras de madeira, construídas pelo último governador. As ruas de São Paulo, devido à sua altitude (cerca de cincoenta pés acima da planície), e à água, que quase a circunda, são, em geral, extraordinariamente limpas; pavimentadas com grés, cimentado com óxido de ferro, contendo grandes seixos de quartzo redondo, aproximando-se do conglomerado. Este pavimento é uma formação de aluvião, contendo ouro, de que se encontram muitas partículas em fendas e buracos, depois das chuvas pesadas, quando são diligentemente procuradas pelos pobres.

A cidade foi fundada pelos jesuítas, provavelmente tentados pelas minas de ouro das proximidades, mais do que pela salubridade do clima [2], que, no entanto, não é sobrepujado por nenhum outro, em todo o continente sul-americano. A temperatura média varia de 50 a 80 graus F., tendo eu registrado, pela manhã, 48° e, mesmo, mais baixa, embora não fosse inverno. As chuvas não são, de modo algum, torrenciais e de grande duração, e as tempestades não podem ser consideradas violentas. À noite, o frio é tanto que fui obrigado a fechar portas e janelas, a agasalhar-me melhor, e a acender o fogareiro de carvão, no quarto, por falta de lareira.

Aqui existem numerosas praças e cerca de treze lugares de devoção, principalmente dois conventos, três mosteiros e oito igrejas, muitas das quais, como toda a cidade, construídas de taipa. Erguem-se as paredes da seguinte maneira: constrói-se um arcabouço com seis pranchas móveis, justapostas, e mantidas nessa posição por meio de travessões, presos por pinos móveis e vigas, à medida que avança no trabalho. Coloca-se o barro em pequenas quantidades, que os trabalhadores atiram com pás, umedecendo-o, de quando em quando, para dar-lhe maior consistência. Cheio o arcabouço, retiram o excesso, e prosseguem na mesma operação, até rebocar todo o madeiramento da casa, tomando-se, cuidado de deixar espaços para as janelas, as portas e as vigas. A massa, com o correr do tempo, endurece; as paredes, perfeitamente lisas na parte interna, tomam qualquer cor que o dono lhes queira dar e são, em geral, ornadas com engenhosos enfeites. Esta espécie de estrutura é durável; vi casas assim construídas que resistiram duzentos anos e a maioria tem várias histórias. Os telhados constroem-se de modo a projetarem-se dois a três pés além da parede, fazendo com que a chuva corra distanciada da base; as calhas seriam um preservativo mais eficaz contra a umidade, mas aqui não se conhece o seu uso. Telhas curvas cobrem as casas, mas embora a região ofereça excelente argila, e lenha em quantidade, raramente cozinham os tijolos.

A população atinge a quinze mil almas: talvez aproximadamente vinte mil; o clero, incluindo toda a categoria de ordens religiosas, pode ser avaliado em quinhentos indivíduos. São, em geral, bons membros da sociedade, livres desta carolice e falta de liberalidade, tão reprováveis nas colônias vizinhas, e seu exemplo exerce influência tão benéfica sobre os restos dos habitantes, que presumo poder assegurar que nenhum estrangeiro será molestado, enquanto se portar como cavalheiro, e não insultar a religião estabelecida. Sua Excelência, o Bispo [3] é um prelado mui digno e se as ordens inferiores de sua diocese lhe seguissem os passos, cultivando as ciências e difundindo conhecimentos úteis, conseguiriam impor maior respeito aos seus prosélitos, e, dessa maneira defenderiam melhor os interesses da religião que professam. Padres tão ignorantes dificilmente deixarão de provocar desprezo.

As moléstias endêmicas não se alastram mais aqui. A varíola, a princípio, e mesmo mais tarde, dizimou grande parte da população, mas seu progresso foi dominado pela introdução da vacina. Os médicos atendiam num grande hall, pertencente ao governador, onde ficavam à disposição do público, sendo a vacinação gratuita [4]. Espera-se que a fé nesse preventivo se difunda pelo povo, incompetente para discutir os méritos da controvérsia que tanto prejudicou o emprego da vacina na Europa.

Existem aqui poucas fábricas de importância; pequena quantidade de algodão bruto é fiada a mão, e a lã transformada em pano, que serve para uma variedade de roupas, camisas, etc. Fazem belas e variadas malhas para redes, com barra de renda, pendurada baixa, para servir de sofá. As senhoras têm por elas particular predileção, principalmente quando a força do calor as predispõe para o descanso e a indolência. Quase todas fazem rendas, e algumas são muito hábeis. Os comerciantes constituem classe numerosa, que, como na maioria das cidades coloniais, negociam com quase tudo e, muitas vezes, fazem fortunas consideráveis. Existem poucos médicos, mas muitos boticários, alguns ourives, cujos artigos não se distinguem quer pelo metal, quer pela mão de obra, alfaiates e sapateiros, e também marceneiros, que fabricam belas peças de madeira, mas seus preços não são tão moderados como os daquelas outras classes de comerciantes. Nos arredores da cidade, vive certo número de índios crioulos, que fabricam louça de barro para cozinha, grandes jarros para água e uma variedade de outros utensílios, ornamentados com algum gosto. Os habitantes são, na maioria, fazendeiros e modestos lavradores, que cultivam pequenas porções de terra onde criam, para vender, grande número de porcos e aves domésticas. O mercado está geralmente bem abastecido deles, e na estação das frutas encontram-se também pinhas, uvas, pêssegos, goiabas, bananas, poucas maçãs e enorme quantidade de marmelo [5].

Plantas alimentícias crescem em grande profusão e variedade. Aqui se encontra uma raiz, tipo bulbo, muito procurada, chamada cará, comparável à melhor batata ou a qualquer outra amilácea; desenvolve-se até cinco polegadas de diâmetro e constitui, cozida ou assada, ótimo alimento. Encontram-se também excelentes repolhos, legumes para salada, nabos, couves-flores, alcachofras e batatas; as últimas, embora muito boas, são pouco apreciadas: a batata doce é mais procurada pelos nativos. Milho, feijão, ervilhas e toda espécie de legumes desenvolvem-se de maneira maravilhosa. Frangos são baratos; compramos alguns, variando cada um de três a seis pence; leitões de um a dois shillings, e mantas de toucinho, curado à moda do país, a cerca de dois pence a libra. Perus, gansos e patos abundam, a preços razoáveis, os últimos da variedade Muscovy, muito grandes, pesando cerca de dez a quatorze libras. Existe aqui uma variedade singular de galos, que se assemelha bastante, na plumagem e na forma, ao galo inglês, mas cantam muito fortemente, durando a última nota de um a dois minutos. Quando cantam bem são muito apreciados e enviados, como curiosidade, a todos os pontos do Brasil. O gado, em geral, é bom, considerando-se o pouco cuidado dispensado à sua alimentação; nas pastagens boas, engordam razoavelmente; quando pobres, emagrecem. Pode-se adquirir uma manada a 24s. ou 30s. por cabeça; a carne, a cerca de um penny ou três half-pence a libra. Os curtidores empregam um curioso método para curtir peles de vaca e de bezerros: uma vez preparadas para a operação, procuram um buraco lamacento, no fundo de um estrato ferruginoso, uma vala, por exemplo; cobrindo de lama o lado da pele a ser curtida e preferindo este material à solução de sulfato de ferro cristalizado, provavelmente porque o sulfato de ferro obtido pela decomposição de piritas possui ação mais fraca, neste estado, que quando aplicado em estado natural.

Os cavalos, belos e em geral muito dóceis, quando bem treinados, tornam-se excelentes trotadores. A sua altura varia de doze e meio a quatorze palmos, e os preços vão de três a doze libras. As mulas, como já dissemos, são consideradas melhores como animais de carga. Quase não se cuida da criação de ovelhas, e raramente se come carne de carneiro. Criam-se muitas belíssimas cabras, cujo leite é em geral aproveitado para fins domésticos. Aos cachorros, de quaisquer raças, não se dá importância.

Nos meus passeios pela cidade tive múltiplas ocasiões de examinar a estranha sucessão de estratos horizontais, que formam a eminência, sobre a qual ela se eleva. Dispõem-se na seguinte ordem: a primeira, de terra vermelha, vegetal, de profundidade variável, impregnada de óxido de ferro; em seguida, areia e substâncias adventícias, de várias cores, tais como vermelho ocre, marrom, amarelo fosco, juntamente com blocos redondos de cristal de rocha, o que indica ser de formação recente; sua espessura varia de três a seis pés, ou talvez sete, e a parte inferior é toda amarela: sob esta há um leito de argila, extraordinariamente boa, de cores diversas, mas na maior parte vermelha; a branca e a amarela são as mais puras em qualidade; está entremeada de delgadas camadas de areia, em direções variadas. Segue-se um estrato de terra de aluvião, que é muito ferruginosa, depositada sobre uma substância semidecomposta, aparentemente resultante do granito, em que a proporção de feldspato excede a de quartzo e a de mica [6]. O todo repousa sobre granito compacto. Os lados do monte são escarpados e, em alguns lugares, quase perpendiculares [7].

A fertilidade da região que circunda São Paulo pode ser avaliada pela quantidade de produtos com os quais, como afirmei, abarrotam o mercado. Há quase um século, este terreno era rico em ouro, e foi somente quando o exauriram, pela lavagem, que os habitantes pensaram em dedicar-se à lavoura.

Como se viram compelidos a isto pela necessidade, e não por vontade própria, tardaram em empregar os melhoramentos introduzidos pelas demais nações, nesta nobre arte, e, pesarosos com o desaparecimento do precioso metal, consideram a nova, ocupação vil e degradante. Na verdade, por todo o Brasil, o lavrador sempre foi considerado como pertencente a uma classe muito inferior, em comparação com a respeitabilidade dos mineiros; e, segundo parece, este preconceito subsistirá até que se esgotem as minas de ouro e de diamantes, e o povo se veja obrigado a procurar na agricultura uma fonte de riqueza constante e inexaurível.

Tentarei descrever o método adotado ultimamente na agricultura, nas circunvizinhanças de São Paulo. Observou-se que, neste imenso império, a terra é cedida em grandes lotes, para o devido cultivo; é fácil supor que o valor destes lotes depende, mais ou menos, da sua situação. Assim, o primeiro objetivo do lavrador é encontrar terreno disponível o mais próximo possível de uma grande cidade; em segundo lugar, de boas estradas e rios navegáveis. Uma vez fixado o local, recorre ao governador do distrito, que envia os funcionários competentes para demarcar o terreno, geralmente uma légua e meia quadrada, às vezes mais. O lavrador então adquire o maior número de negros que puder e inicia o trabalho, construindo habitações para eles e para si próprio, que são, em geral, choupanas miseráveis, apoiadas em quatro estacas, comumente chamadas ranchos. Ordena aos negros que abatam as árvores e limpem o mato rasteiro que cobre o terreno, na área que julga necessária. Feito isto, queimam em enorme fogueira, sobre o terreno, tudo quanto cortaram. Em grande parte, o êxito da colheita depende desta queimada; se tudo for reduzido a cinzas, espera-se uma boa colheita; se o tempo for mau, as árvores derrubadas ficarão apenas semi-queimadas, neste caso, as previsões são más. Limpo o solo, os negros abrem covas com enxadas, e nelas semeiam milho, feijão ou qualquer outra leguminosa; durante este trabalho, abatem tudo quanto encontram no caminho, mas não pensam nunca em preparar o terreno. Depois de plantarem a semente julgada necessária, preparam novo terreno, para o cultivo da cassava, aqui denominada mandioca, cuja raiz serve de alimento, indistintamente, a todas as classes do Brasil. O solo [8], para este fim, é melhor preparado; limpam-no com ancinho, formando-se pequenos montes arredondados, parecidos com os montes feitos por toupeiras, com cerca de quatro pés cada um, nos quais enterram pequenos pedaços cortados dos galhos da planta, de uma polegada de diâmetro e seis a oito de comprimento; estas manivas não tardam a criar raízes, dar folhas, brotos e botões. Quando já plantada quantidade suficiente para o consumo da fazenda, o dono, se é bastante rico, arranja meios de cultivar a cana e preparar o açúcar. Primeiro, emprega um carpinteiro para aparelhar madeira, e constrói a moenda para espremer a cana, movendo-a a água, se existir corrente próxima, ou então, com o auxílio de mulas. Enquanto uns negros ajudam o carpinteiro, outros preparam o terreno, da mesma maneira que o fizeram para a mandioca. Pedaços de cana, com três ou quatro gomos, tendo de comprimento aproximadamente seis polegadas, cortados do caule maduro, são lançados às covas, em sentido quase horizontal, e cobertos por uma camada de terra com cerca de quatro polegadas de espessura. Brotam com rapidez, tomam o aspecto de um bosque que lembra espadanas; em doze ou quinze meses, estão em condições de serem cortadas. Em solo virgem, fértil, é comum encontrarem-se canas com doze pés de altura e de diâmetro surpreendente.

O milho e as leguminosas amadurecem em quatro meses ou oito semanas. A produção média é de duzentos por um; a colheita é má, quando esta produção não alcança cento e cincoenta.

A mandioca raramente pode ser colhida em menos de dezoito ou vinte meses; se a terra é apropriada, a produção varia de seis a doze libras por pé [9]. Plantam muito pouco anil e o que possuem é de qualidade inferior. As abóboras, enormes, às vezes são servidas como legumes, mas, com maior frequência, dão-nas como alimento aos cavalos. Os melões quase não tem gosto.

Em nenhum ramo de trabalho rural os fazendeiros se descuidam tanto quanto no tratamento do gado. Não cultivam pastagens, não constroem cercado, nem armazéns de forragem para a época da escassez. As vacas não são ordenhadas com regularidade; consideram-nas mais como ônus do que como fonte de renda. Precisam de sal, de quando em quando, que lhes é dado de quinze em quinze dias, em pequenas porções. A indústria do leite, se assim a podemos qualificar, é conduzida com tão pouco asseio, que a pequena quantidade de manteiga fabricada fica rançosa em poucos dias, e o queijo nada vale. Neste ramo essencial estão deploravelmente atrasados; raramente vê-se uma fazenda com instalação que se possa olhar. Por falta de lugares apropriados onde conservar seus produtos, são forçados a colocá-los misturados, em montes, e não é raro encontrar-se café, algodão, milho e feijão atirados nos cantos de um celeiro úmido, coberto com couro cru. A metade se estraga, invariavelmente, devido ao mofo e à podridão e o restante fica muito deteriorado, em consequência desta negligência, preguiçosa e estúpida.

Alimentam os porcos com milho cru; o tempo de engorda é de oito a dez meses; e a quantidade gasta para este fim varia de oito a dez alqueires Winchester por cabeça. Depois de abatidos, cortada em pedaços a carne magra, o mais limpo possível, cura-se o toucinho com um pouco de sal e, em alguns dias, está em condições de ser enviado ao mercado. As costelas, o lombo e as partes magras conservam-se salgadas para o consumo caseiro.

As casas dos lavradores são miseráveis choupanas de um andar, o chão não é pavimentado nem assoalhado, e os compartimentos são formados de vigas trançadas, emplastadas de barro e nunca regularmente construídas. Para dar uma ideia da cozinha, que deve ser a parte mais limpa e asseada da habitação, o leitor pode imaginar um compartimento imundo, com o chão lamacento, desnivelado, cheio de poças d’água, onde, em lugares diversos, armam fogões, formados por três pedras redondas, onde pousam as panelas de barro, em que cozinham a carne; como a madeira verde é o principal combustível, o lugar fica cheio de fumaça, que, por falta de chaminé, atravessa as portas e se espalha pelos outros compartimentos, deixando tudo enegrecido pela fuligem. Lamento ter de afirmar que as cozinhas das pessoas abastadas em nada diferem destas.

Pode-se bem imaginar que em país como este, um estrangeiro encontra maior conforto e prazer fora de casa. Os jardins, em São Paulo e suas proximidades, são tratados com grande gosto e muitos deles com curiosa elegância. O jasmim é a planta favorita em toda parte, e neste clima magnífico as flores desabrocham perenemente, tal como a rosa. Cravos vermelhos, cor de rosa, flores da paixão, crista de galo, etc., crescem em grande profusão; um dos arbustos prediletos é a Palma Christi, que dá frutos no primeiro ano, dos quais se extrai óleo de rícino, em abundância, óleo que todas as famílias possuem em quantidade tal, que se não queima nenhum outro.

As abelhas são comuns; domesticam-se com facilidade e, creio eu, são inteiramente inofensivas. O mel é saboroso; a cera, principalmente a que é vendida, extraída das colmeias, nas velhas árvores da floresta, é muito suja, mas pode ser purificada por um processo bastante simples. As florestas encerram grande variedade de animais da espécie do macaco, e também animais de presa, alguns dos quais possuem peles razoavelmente boas. Entre estes, inclui-se uma espécie peculiar de lontra. Os insetos são numerosos, mas os mosquitos não atacam tanto quanto os do Rio da Prata. O animalzinho denominado niguá ou bicho do pé é aborrecido; introduz-se sob as unhas dos dedos dos pés e, às vezes, das mãos, mas pode ser eliminado facilmente, extraindo-se o, e ao seu saco de ovos, com uma agulha, enchendo-se a cavidade com cloreto de mercúrio, ou tabaco, pelo receio de que ainda reste algum. Répteis, como já disse, encontram-se em grande quantidade, mas vi poucos, exceto sapos, que, à noite, coaxam nas estradas e, muitas vezes, infestam as ruas da cidade. A surucucu e a jararaca (serpentes), segundo se afirma, são muito perigosas.

As florestas possuem madeira durável, em quantidade, apropriada para construções. Das árvores que conservam os nomes indígenas, algumas dão ótima goma. O jacarandá, conhecido na Inglaterra como pau rosa, é bastante comum. Muitos dos seus arbustos cobrem-se de lindas flores, extremamente aromáticas. Entre as inúmeras plantas trepadeiras, que cobrem o solo das terras incultas, algumas passam por ser antídotos infalíveis contra a picada de répteis venenosos; uma; em particular, o Coração de Jesus [10], é universalmente conhecida.

Além da planície, que praticamente circunda São Paulo, a região está cheia de outeiros, ou melhor, é montanhosa. Se a minha permanência fosse mais demorada, teria dedicado algum tempo a pesquisas geológicas neste distrito; mas devido a motivos urgentes, que apressaram minha partida para o Rio de Janeiro, só tive vagar para fazer uma única excursão dessa natureza. O governador [11] convidou-me a visitar as minas de ouro de Jaraguá, as primeiras descobertas no Brasil, que agora lhe pertencem, bem como uma fazenda vizinha, distante cerca de vinte e quatro milhas da cidade. Percorremos doze milhas de uma estrada razoável e, em alguns trechos, boa, em direção ao sul, e atravessamos o Tietê. O rio, neste ponto, é de considerável largura e mais profundo que nos arredores de São Paulo; possui excelente ponte de madeira, isenta de portagem. Nas suas margens há lugares verdadeiramente dignos de inveja; belas e ricas terras cobertas de madeira, capazes de satisfazer, se devidamente cultivadas, não somente as necessidades, mas os luxos da vida, num grau centuplicado. É doloroso conservar-se um território que, pelo seu solo fértil e clima invejável, merece ser denominado um Paraíso, abandonado e solitário como o Éden, depois da queda, enquanto seus enfatuados possuidores, como a geração de Caim, famintos de ouro, conservam-se afastados do rico banquete que a natureza aqui lhes oferece.

Depois de andarmos quatro léguas, chegamos às antigas minas de Jaraguá, afamadas pelos imensos tesouros, há aproximadamente dois séculos, quando este distrito era considerado o Peru do Brasil e, pelos portos de Santos e São Vicente, se embarcava o ouro para a Europa. A superfície da região é irregular, ou antes, montanhosa. As rochas, onde aparecem, indicam ser de granito primitivo, inclinado para gnaisse com uma certa porção de anfibólio e não raro de mica. A terra é vermelha, extraordinariamente ferruginosa, aparentemente de grande profundidade, em alguns lugares. O ouro se encontra, na maioria, num estrato de seixos redondos e calhaus, denominado cascalhão, inteiramente sobreposto a uma rocha sólida. Nos vales, onde há água, são frequentes as escavações feitas pelos garimpeiros numa extensão considerável, algumas delas com cinquenta ou cem pés de largura, por dezoito ou vinte de profundidade. Em muitas colinas, onde a água pode ser captada para a lavagem, encontram-se pepitas de ouro no solo, logo abaixo das raízes do capim.

O sistema de trabalho nestas minas, cuja denominação mais apropriada seria lavagem, é simples e pode ser facilmente descrito:

Suponha-se um estrato de cascalho solto e seixos redondos, de quartzo e substâncias adventícias, sobrepostos ao granito, e coberto por substância terrosa de espessura variável. Nos pontos em que a água se encontra num nível suficientemente elevado para ser dirigida, o terreno é escavado em degraus, cada um dos quais com vinte a trinta pés de comprimento, dois ou três de largura e mais ou menos um de altura. Próximo ao fundo, abre-se uma trincheira, com cerca de dois a três pés de profundidade. Em cada degrau, ficam seis ou sete negros, que, a medida que a água corre, colina abaixo, conservam a terra continuamente em movimento, com auxílio de pás, até que fique reduzida a uma água lamacenta, levada mais abaixo. As partículas de ouro existentes nesta terra descem à trincheira, onde, devido à sua gravidade específica, precipitam-se rapidamente. Os trabalhadores estão sempre ocupados, na trincheira, em remover o cascalho e limpar a superfície, operação esta grandemente auxiliada pela corrente d’água que caí sobre ela. Depois de cinco dias de lavagem, a precipitação da trincheira é carregada para uma corrente apropriada, a fim de ser submetida a uma segunda purificação. Para esse fim, empregam-se recipientes de madeira, afunilados, com a abertura de dois pés e cinco ou seis polegadas de profundidade, chamados bateias. Cada trabalhador, de pé, na corrente, apanha com sua bateia cinco ou seis libras de cascalho, geralmente constituído de substâncias pesadas, de cor escura carbonada, tais como óxido de ferro, pirita, quartzo ferruginoso etc.; deixando penetrar certa quantidade de água nas bateias imprimem-lhes um movimento circular, com tal destreza, que o precioso metal, separando-se das substâncias inferiores e mais leves, deposita-se no fundo e nos lados da vasilha. A seguir enxaguam os recipientes num recipiente maior, com água limpa, aí ficando o ouro; e recomeçam a mesma operação. Na lavagem de cada vaso leva-se de cinco a oito ou nove minutos; o ouro obtido é muito variável, tanto em qualidade quanto no tamanho das partículas, algumas das quais tão pequenas que flutuam, enquanto outras atingem dimensões de peras e não raro até maiores, Esta operação é superintendida por vigias por ser o resultado de importância considerável.

Tudo terminado, leva-se o ouro para casa, a fim de secá-lo, e na ocasião propícia, conduzi-lo ao escritório de troca, onde é pesado, reservando-se um quinto para o Príncipe. Reúne-se o restante pela fusão com muriato de mercúrio, reduzindo-o a barras, dando-se o toque e selando-se, de acordo com seu valor intrínseco; com ele fornece-se um certificado; após a prova da entrada desse documento na Casa da Moeda, as barras passam a circular como moeda corrente.

Despertou-me profundamente a atenção a grande quantidade de destroços ou, refugos das lavagens de ouro, que jazem nos inúmeros montes e contêm várias substâncias que me deram forte esperança de encontrar alguns espécimes interessantes e valiosos de turmalinas, topázios e outras cristalizações, e também uma rica série de rochas, que podiam formar os geognósticos da região. Fiquei, tão fortemente preocupado com esta esperança, que, realmente, imaginei ter em meu poder um dos melhores produtos minerais do Brasil. Numa manhã muito cedo, antes que o sol esquentasse demasiado para o trabalho, parti, acompanhado, por dois ou três homens, munidos de picaretas e martelos, e que contratara para auxiliar-me. Desagregamos quantidades imensas de cristal de rocha e substância semelhante ao granito em vários estados de decomposição, e outras de uma espécie ferruginosa, mas, depois de prosseguirmos na operação por três dias consecutivos, até que minhas mãos não suportassem mais o martelo, vi-me forçado a abandonar a pesquisa, como infrutífera; não encontrei sequer um grão de ouro, ou qualquer coisa de cristalização, exceto algum quartzo insignificante, pequenas piritas cúbicas e octaédricas, e um pouco de manganês, muito pobre. Em resumo, as substâncias não apresentavam a menor novidade, e eram tão comuns que hesitei se valeria a pena levá-las para São Paulo. Esta decepção, na primeira mina de ouro que visitei, nem por isso me desanimou.

Acompanhado do governador e sua senhora, percorri a fazenda; andamos e demos voltas por longas plantações, cujas produções, assim como o método de cultura adotado, eram semelhantes aos que já descrevi. Nossa distração seguinte foi a caça ao veado. Não imagine o leitor que o levarei à caçada, através de várias milhas de terreno, com matilha de cães, acompanhado por um grupo de alegres cavaleiros, pois o modo de caçar no Brasil não permite tal diversão; apenas três ou quatro homens, armados de espingardas, seguidos de dois ou três cachorros; os homens se separam numa clareira; neste interim, os cães farejam a caça, espantam-na e os caçadores atiram imediatamente. O veado é pequeno, da espécie fallow, mas a sua carne não é apreciada.

Os animais selvagens deste distrito são, principalmente, macacos, preguiças, uma variedade de porco-espinho e sarigués. Estes e outros animais depredadores causam grande estrago na criação. As variedades de aves não são muitas; matei a tiros várias becassinas [12] e pavõezinhos [13] com esporões vermelhos em ambas as asas, com cerca de polegada e meia de comprimento. Existe aqui grande número de pardais e papagaios.

Os morcegos, que os viajantes descreveram tantas vezes, é inimigo formidável dos cavalos e mulas. Se conseguem aproximar-se deles durante a noite, fixam-se na veia do pescoço, acima da espádua, e sugam-na a tal ponto que deixam o animal quase cobertos de sangue, soprando com as asas, enquanto retêm a presa, para (é o que parece) mitigar a dor causada pela sua mordedura.

A horta possuía canteiros de belas batatas, plantadas três ou quatro anos antes, pelo Sr. Quarten, de Gibraltar. Deixam-nas crescer e reproduzir-se, de estação em estação, só sendo arrancadas quando se precisa de alimento. Repolhos, e outros vegetais para a mesa, crescem em abundância.

Esta fazenda possui a melhor madeira dos arredores e, quando os melhoramentos, começados pelo governador, se completarem, será abastecida de água, trazida de uma distância de seis milhas, em quantidade suficiente para banhar as colinas e pôr em movimento a maquinaria de uma moenda de cana. Nela estão empregados cerca de cincoenta negros e a metade deste número de índios livres; os últimos alimentam-se às expensas do patrão e ganham cerca de seis pence por dia; mas parecem bem menos laboriosos e capazes do que os negros. Eles estavam limpando o terreno e abrindo, nas matas, caminhos que, quando terminados, transformariam o lugar num agradabilíssimo retiro de verão.

Entre as muitas demonstrações de bondade do governador para comigo, não devo deixar de mencionar as suas repetidas afirmações, de que, no caso de guerra entre os nossos países, pois naquela ocasião correram vários rumores, ele não me deteria. Depois de permanecer ali cinco dias, que foram os mais agradáveis possíveis, graças às amabilidades do meu hospedeiro, preparamo-nos para partir, na mesma ordem em que viéramos; o governador e sua senhora, numa carruagem puxada por quatro burros, seguidos pelo ajudante de campo e por mim, a cavalo, precedido por seis dragões, guarda que sempre acompanha um oficial de sua patente, chegamos a São Paulo, sem acidentes.

Raramente estrangeiros visitam a cidade. As passagens que lhe dão acesso, partindo-se da costa, estão situadas em posições tão estratégicas que se torna quase impossível evitar os guardas nela estacionados, encarregados de vigiar todos os viajantes e as mercadorias, que se dirigem para o interior. Soldados de categoria a mais baixa têm direito de inspecionar todos os estrangeiros que se apresentam e detê-las, assim como aos seus bens, se não possuírem passaportes. Eu e meus amigos, no percurso até aqui, fomos obrigados a apresentar três vezes a nossa licença, concedida pelo governador de Santos, como já me referi. A nossa presença em São Paulo excitou de maneira indescritível a curiosidade do povo, que parecia nunca ter visto ingleses, até então; as próprias crianças demonstravam o seu espanto, algumas fugindo, outras contando os nossos dedos, constatando, admiradas, termos o mesmo número que elas. Muitos dos bons cidadãos convidaram-nos a ir às suas casas e mandaram chamar os amigos para que nos viessem ver. Como a casa que ocupáramos era muito grande, vimo-nos, frequentemente, cercados por uma multidão de jovens de ambos os sexos, que vinham até a porta para ver como comíamos e bebíamos. Sentimo-nos gratos ao verificar que esta admiração geral converteu-se num sentimento mais sociável; encontramos bom acolhimento em toda a parte e fomos convidados, várias vezes, para jantar com os habitantes. Nas festas públicas e nos bailes do governador encontramos novidade e prazer; novidade, porque fomos muito melhor recebidos do que nas colônias espanholas, e prazer, por estarmos num meio mais requintado e cortês.

Os vestidos de sair das senhoras, principalmente, na igreja, eram de seda preta, com um longo xale da mesma fazenda, e guarnecidos com renda larga; na estação mais fria, vestiam casimira preta ou lã. Usavam quase sempre o mesmo xale nas ruas, embora seja parcialmente substituído por um casaco comprido, de lã grossa, enfeitado com veludo, renda dourada, fustão ou pelúcia, conforme os recursos do possuidor. Este abrigo é usado como uma espécie de casaco em casa, nos passeios à noite, em viagens, e as senhoras, sempre que o vestem, usam chapéus redondos. O ser paulista é considerado aqui, por todas as senhoras, grande honra; pois os paulistas são decantados em todo o Brasil pelos seus atrativos e dignidade de caráter. Extremamente abstêmias à mesa, seu divertimento favorito é a dança, em que revelam grande variedade e graça.

Nos bailes e outras festas públicas aparecem, em geral, em elegantes vestidos brancos, com uma profusão de colares de ouro no pescoço, o cabelo graciosamente penteado, preso com travessas. Sua conversa, sempre animada, parece ter qualquer coisa de musical. Na realidade, a sua educação se restringe a conhecimentos superficiais; ocupam-se muito pouco com assuntos domésticos, confiando tudo quanto se refere às dependências inferiores da direção da casa, ao negro ou à negra cozinheira, e deixando todos os outros assuntos a cargo dos servos. Devido a esta indiferença, desconhecem por completo as vantagens daquela ordem, limpeza e propriedade que reina numa família inglesa; ocupam-se, principalmente, em casa, em cozer, bordar e fazer renda. Outra circunstância que fere a delicadeza é que não têm modistas; todas as peças do vestuário feminino são feitas por alfaiates. Sofrem de anemia quase geral, o que é atribuído, em parte, ao seu modo de vida abstêmio, mas, sobretudo, à falta de exercício e aos contínuos banhos quentes a que se abandonam. Empregam todos os meios ao seu alcance para conservar a plástica, muitas vezes com prejuízo para o organismo.

Os homens, em geral, principalmente, os de alta categoria, oficiais e outros, vestem-se muito bem; em sociedade, mostram-se muito delicados e atenciosos, procurando sempre agradar, são muito loquazes, propensos à jovialidade. As classes inferiores, comparadas com as de outras cidades coloniais, estão num estado de civilização bastante adiantado. Seria desejável instituir-se algumas reformas no seu sistema de educação; os filhos dos escravos são criados com os dos senhores; tornam-se companheiros de folguedos e amigos e, assim, estabelece-se entre eles uma familiaridade que, forçosamente, terá de ser abolida na idade em que um deve, dar ordens e viver à vontade, enquanto o outro terá de trabalhar e obedecer. Diz-se que unindo assim, na infância, o escravo ao dono, asseguram a sua fidelidade, mas o costume parece encerrar grandes inconvenientes e deve, ao menos, ser modificado de forma a tornar o jugo da escravidão menos penoso pela revogação da liberdade primitiva.

As procissões religiosas são suntuosas, grandes e solenes; produzem um efeito chocante, devido à profunda veneração e ao zelo entusiástico do povo. Nessas ocasiões especiais, acorrem todos os habitantes da cidade, e a multidão é, frequentemente, acrescida por numerosos lavradores vizinhos, de várias léguas ao redor. As senhoras, que consideram o dia como de festa, em seus vestidos de gala, enchem as sacadas das casas, de onde se tem melhor visão do espetáculo; a noite termina, em geral, com chá e partidas de cartas ou danças.

Não tivemos dificuldade em nos acomodar ao método geral de vida, em São Paulo. O pão é muito bom e a manteiga tolerável, mas usada raras vezes; exceto no café da manhã e no chá, à noite. Prato bastante comum, no almoço, é uma variedade de ervilhas, muito gostosa, denominada feijão, cozida ou misturada, com farinha de mandioca. O jantar servido usualmente ao meio-dia, ou mais cedo, consiste, em geral, numa quantidade de verduras fervidas com carne de porco gorda, ou bife, uma raiz da espécie da batata e uma galinha recheada, com excelente salada, seguida por grande variedade de deliciosas conservas e doces. Tomam muito pouco vinho às refeições. A bebida usual é a água. Em ocasiões públicas ou quando se oferece uma festa a muitos convidados, ornamenta-se a mesa suntuosamente; servem-se, de uma só vez, de trinta a cincoenta pratos; arranjo pelo qual se evita uma série de mudanças de pratos. O vinho circula copiosamente, repetindo-se os brindes durante o banquete, que dura, em geral, de duas a três horas, seguido de doces, o orgulho da mesa; depois do café, os convidados passam a noite dançando, ouvindo música ou jogando cartas.

Devo observar aqui que, quer em São Paulo, quer nos outros lugares por mim visitados, não presenciei nenhuma leviandade nas mulheres do Brasil, apresentadas por alguns escritores como sendo o traço predominante do seu caráter. Atribuo o costume, que se diz reinar entre elas, de atirar flores das sacadas sobre os transeuntes, de acordo com o seu capricho, ou presentear com uma flor ou um ramalhete os seus favoritos, como prova de deferência. A circunstância que parece ter dado origem a tal conjetura, tão mal fundada, é a seguinte: aqui se consideram as flores como parte integrante dos adornos femininos, para o cabelo e, quando se apresenta um estrangeiro a uma senhora, não passa de ato comum de cortesia desprender uma flor do cabelo e oferecê-la. A este elegante cumprimento, deve-se retribuir, durante a visita, escolhendo uma flor entre a profusa variedade que adorna o jardim, ou a sacada, e oferecê-la.

Costume singular que não devo omitir, é o de atirar frutas artificiais, tais como limões e laranjas, feitas de cera, com grande habilidade e cheias de água perfumada. Nos primeiros dias da quaresma, comemorados com grandes festividades, pessoas de ambos os sexos divertem-se jogando, umas sobre as outras, essas bolas; as senhoras, em geral, começam o brinquedo, os cavalheiros revidam com tanta animação, que raramente param antes de trocarem dúzias, e ambas as partes ficam tão molhadas como se tivessem sido pescadas de um rio. Nestes dias de carnaval, os habitantes percorrem as ruas mascarados, e a brincadeira de atirar frutas é praticada por pessoas de todas as idades. Considera-se de grande impropriedade um cavalheiro atirá-las sobre outro. A fabricação destes projéteis, nestes períodos, proporciona trabalho considerável a determinadas classes [14]; informaram-me de que na capital do Brasil muitas centenas de pessoas ganham a vida, temporariamente, vendendo-as. O costume (posso garantir) é muito desagradável aos estrangeiros, e não raro provoca brigas, de consequências graves.

Durante a nossa permanência aqui, circulou o boato desagradável, de que o porto de Lisboa fora bombardeado pelos ingleses, e que a declaração de guerra entre as duas potências era esperada a qualquer momento. Se não fosse a bondade do governador em permitir nos retirássemos antes que recebesse ordens em contrário, nossa situação seria bastante embaraçosa. Mas, em breve, chegaram notícias de que Sua Alteza Real, o Príncipe Regente, deixara Portugal, com toda a Corte, e embarcara para o Brasil, escoltado por uma esquadra inglesa, comandada por Sir Sidney Smith. Esta informação foi recebida com grande júbilo pela maior parte dos brasileiros; eles consideravam, na verdade, a ocupação de Portugal pelos franceses como desastre já esperado, mas, consolavam-se com a esperança de receber um Príncipe, elogiado por todos, e a cuja causa todos eram leais. O império brasileiro foi considerado como estabelecido: o bispo mais importante consagrou a era auspiciosa ordenando orações diárias na catedral, invocando a Divina Providência, para que a família real aportasse a salvo. Dez dias depois, chegaram notícias de que havia aportado à Bahia, sendo recebido com todas as demonstrações de alegria popular, procissões, fogos de artifício etc. Na expectativa da notícia de sua chegara ao Rio de Janeiro, preparei-me para partir, e dediquei os dias restantes à segunda excursão às minas de ouro, e a algumas visitas de despedida aos meus amigos dos arredores de São Paulo. O governador e muitos dos principais habitantes ofereceram-nos festas de despedida e, pela sua urbanidade, tornaram as últimas horas que passamos entre eles, a um tempo, doces e melancólicas. Alguns acompanharam-nos por duas léguas e quando nos separamos expressaram-nos os mais calorosos votos de felicidade.

Lembro-me sempre, com a mais grata das emoções, das atenções que recebi nesta cidade, e melhor compreenderão os que não ignoram o que seja visitar uma cidade longínqua, num país estrangeiro, onde, segundo as narrativas dos viajantes anteriores, reina o barbarismo e a falta de hospitalidade, e onde se viram desagradavelmente decepcionados. É fácil de imaginar que encontrei dificuldades em conciliar o caráter dos paulistas, tal como o observei, com as estranhas referências à sua origem espúria, citada pelos geógrafos modernos. Estas referências, baseadas no testemunho suspeito dos jesuítas do Paraguai e, com variantes, no dos melhores historiadores portugueses, foram ultimamente refutadas da maneira mais completa, por um brilhante membro da Real Academia de Ciências de Lisboa [15]. Ele expôs plenamente a inconsistência das afirmativas de Vaissette e Charlevoix, ao atribuírem a origem de São Paulo a um bando de refugiados, composto de espanhóis, portugueses, mestiços, mulatos e outros, que fugiram para aqui de várias partes do Brasil, e estabeleceram uma república de piratas. Demonstra de maneira satisfatória terem sido os primeiros colonizadores os índios de Piratininga e os jesuítas, e que a cidade, desde sua fundação, não reconheceu nenhuma outra soberania, senão a de Portugal. A verdade desta afirmação é mais tarde confirmada pelo caráter predominante dos paulistas, que, longe de herdarem a infâmia, vínculo natural de descendentes de velhacos e vagabundos, se tornaram conhecidos, em todo o Brasil, pela sua probidade, indústria e afabilidade de maneiras. [16].

Notas

  1. O Anhangabaú e o Tamanduateí (R. L.).
  2. As minas de ouro do córrego de Jaraguá, as mais antigas do Brasil, só se descobriram para os fins do século XVI, por Afonso Sardinha, o Moço, quando a povoação formada em torno do Colégio de São Paulo já contava quase meio século de existência. Os Jesuítas, aliás, jamais se interessaram pela exploração de jazidas auríferas (R. L.).
  3. D. Matheus de Abreu Pereira, no governo da diocese desde 31 de Maio de 1797. (R. L.).
  4. Foi Felisberto Caldeira Brant Pontes, depois Marquês de Barbacena, o introdutor da vacina jenneriana na América Portuguesa, em 1804, sendo ele o primeiro inoculado no Brasil (J. P. Calógeras: O Marquês de Barbacena, Companhia Editora Nacional, 1932, pg. 17). Residia a esse tempo na Bahia o ilustre filho de Minas e para a obtenção da vacina enviou um navio à Europa, cheio de escravos seus, que deveriam, por ocasião do regresso, passar a pústula de um a outro sucessivamente, durante a travessia marítima. O processo de vacinação de braço a braço está há muito tempo abandonado. O vírus variólico, em contínuas passagens pelo corpo humano, exalta-se a ponto de produzir reações fortíssimas; além desse inconveniente há o risco de contaminação que os inoculados por esse processo correm relativamente à sífilis e outras doenças (R. L.).
  5. A cultura do marmeleiro foi das primeiras a se estabelecerem no planalto paulista. Já no século XVI era tão abundante a colheita que se exportavam caixas de marmelada para as demais capitanias e até para o Paraguai. Teve a câmara de São Paulo que intervir contra os falsificadores do doce, estabelecendo várias medidas regulamentadoras e cominando multas para os fabricantes pouco escrupulosos. Veja-se a respeito, além dos cronistas Gabriel Soares e Fernão Cardim, o excelente livro do Dr. Afonso de E. Taunay intitulado São Paulo nos Primeiros Anos, Tours, 1920, págs. 133, 140, 142, 146, 188 e 196 (R. L.).
  6. Provavelmente a substância corante origina-se da decomposição da mica: observei, várias vezes, uma massa de granito tendo a superfície decomposta em argila vermelha, onde quase não se percebiam as partículas de mica, enquanto a rocha compacta, abaixo, continha uma quantidade mínima daquela substância. (N. do A.)
  7. Numa parte da cidade encontram-se belas espécies de granito decomposto, formado de feldspato extremamente branco, quartzo e muito pouca mica. (N. do A.)
  8. A mandioca exige terreno seco e quente, de natureza arenosa. (N. do A.)
  9. Esta raiz generosa exige pouco trabalho para substituir o pão. Depois de arrancada, lavam-na e rampam-na, a seguir passam-na num ralador de ferro ou cobre, extraem-lhe o suco e colocam-no sobre uma superfície quente, uma frigideira rasa, por exemplo, com quatro ou cinco pés de diâmetro, ou em uma da barro, sobre fogo forte; a massa, até secar, é constantemente revolvida e quando se evapora toda a umidade, está pronta para ser comida. Se protegida da umidade, durará muito tempo. Em caldos e sopas, torna-se gelatinosa e constitui rico alimento; é muito gostosa comida com queijo. A mandioca brava ou a falsa mandioca, chamada aipim, um pouco inferior quando assada, é boa como castanha, Os portugueses introduziram-na à mesa, cozida e assada. (N. do A.)
  10. Sua folha tem forma de coração. (N. do A.)
  11. Antônio José da Fonseca e Horta, que governou São Paulo de 10 de Dezembro de 1802 até 1.º de Novembro de 1811 com pequena interinidade, de Junho a Outubro de 1808, em que o substituiu uma junta composta do bispo D. Matheus de Abreu Pereira, o ouvidor Miguel Antônio de Azevedo Veiga e Joaquim Manoel do Couto, intendente da marinha de Santos (Porto Seguro: História Geral do Brasil, 3.ª ed., V., pg. 358). (R. L.).
  12. São as nossas narcejas (R. L.).
  13. Nos territórios espanhóis recebem o nome de disperteros (despertadores), por causa do barulho que fazem quando perturbados à noite, Um bando deles, em qualquer plantação, equivale a uma campainha de alarme contra ladrões. (N. do A.) (M.) São as chamadas piaçocas (R. L.).
  14. Esses projéteis carnavalescos chamavam-se coletivamente limões de cheiro, muito embora afetassem a forma de numerosas outras frutas.
    Havia quem os fabricasse para vender no dia do Entrudo, a 2.ª feira de Carnaval, mas geralmente eram feitos em casa, pelos próprios amadores da Folia. Caíram completamente em desuso. Ainda tivemos ocasião de ver as fôrmas de dois tipos de limões de cheiro, guardadas como lembrança pela avó materna do autor destas notas, nonagenária ainda viva e vigorosa. Essas fôrmas constavam de dois blocos de madeira, cada um com a metade de um fruto escavada, e que se juntavam pelas faces planas para completar o molde em negativo. Para garantir o ajuste dos bordos havia numa das faces pinos de ferro e na outra furos para encaixe. No lugar correspondente ao ponto de inserção do pedúnculo havia em cada bloco um sulco em meia cana, que adossado ao do lado oposto, formava um furo pelo qual se derramava a cera ou mistura de cera e parafina fundidas. Para evitar a aderência da matéria plástica aos moldes, humedeciam-se estes antes da operação. Em seguida derramava-se pelo furo do molde já montado um pouco de cera fundida e bem quente. Agitava-se o molde rapidamente com um movimento de circulação para que a cera se espalhasse sobre toda a sua superfície interna, revestindo-o de uma cutícula que se solidificava rapidamente pelo contato com a madeira húmida. Separados os blocos, saía um fruto oco, que se enchia pelo hilo com água perfumada com uma essência qualquer, fechando-se o furo com uma gota de cera. Havia ainda quem se desse ao trabalho de pintar os frutos numa das faces, para dar-lhes o aspecto de maduros. – (R. L.).
  15. Fr. Gaspar da Madre de Deos. (N. do A.)
  16. Devo citar o seu espírito público ao condoerem-se pelos maltrato infligidos aos indivíduos, e em defender a causa dos oprimidos; ouvi, muitas vezes, relatar um caso singular, a respeito. Há cerca de setenta anos, um dos seus governadores, um nobre, comprometeu a filha de um mecânico, e toda a cidade esposou a causa da moça injuriada, obrigando o governador, sob ameaça de morte, a desposá-la. (N. do A.)

Fonte

  • Mawe, John. Viagens ao Interior do Brasil: Principalmente aos Distritos do Ouro e dos Diamantes. Tradução de Solena Benevides Viana; Introdução e Notas de Clado Ribeiro de Lessa. Rio de Janeiro: Zélio Valverde, 1944. 347 p.

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