Floresta da Tijuca

Cascatinha Taunay, na Floresta da Tijuca

I

Conheceis, por acaso, a Floresta da Tijuca? Mui naturalmente não, pois a população do Rio de Janeiro, por mais inteligente e ilustrada que seja, no geral se distingue pela sua falta de curiosidade e de interesse, por quase invencível torpor, em assuntos de arte e belezas naturais.

Hábitos arraigados de indolência e indiferentismo, saturação das magnificências da natureza, quanto possível pródiga nas cercanias desta capital, ou qualquer outra causa, o certo é que bem poucos se abalam, só com o intuito de conseguir esse gozo puro e indefinido, tão consolador e tão procurado do homem culto, essa alegria inefável, que sempre emana da contemplação de grandiosas perspectivas, ou simplesmente pitorescas paisagens.

Quereis, porém, sincero conselho, a cujo exato cumprimento se ligará uma corrente sem fim e irresistível, à medida que se desenrolar, de impressões, talvez únicas, no meio dos esplendores que celebrizam os arredores do Rio de Janeiro?

Ide à Floresta da Tijuca.

Só lá, só naquelas encostas e planaltos, cobertos de copados bosques resguardados do machado devastador, pela solicitude dos poderes públicos, a bem da manutenção de parte dos mananciais que abastecem de água esta cidade; só naqueles sombrios recantos é que encontrareis, com indizível surpresa, a combinação harmônica, positivamente eurítmica de duas grandes e poderosas forças – a natureza brasileira, com todo o seu prestigio e inexcedível poesia – e a inteligência humana, no desenvolvimento do mais elevado pensamento artístico e na procura inquieta e insaciável do Belo, do Ideal.

Imaginai – de relance – um sem número de aleias, caminhos e veredas, encantadores todos, de suavíssimo declive, curvas ondulosas e contrastadas, estradas ou azinhaga, mantidos com a perfeição meticulosa de aristocrático parque inglês e ensombrados por belíssimas árvores, muitas das quais preciosas madeiras de lei – uma verdadeira floresta, enfim, brasileira, mas sem emanações pestilenciais, sem agruras, na qual a elegância substituiu a exuberância desordenada, e a mão do homem aproveitou sabiamente tudo quanto fosse belo, e esbelto, ou possante e grandioso; despenhai com largueza de nababo perdulário, a cada instante e por todos os declives, nas quebradas, nas grutas e socavões, cristalinas massas líquidas, ora ruidosas e diamantinas cascatas, ora murmurantes córregos e fugitivas corredeiras, ora tranquilos e dormentes lagos; por toda a parte representai-vos a colaboração íntima das duas forças criadoras e que se completam: uma, inconsciente na expansão das riquezas que faz desabrochar; outra, cheia de entusiasmo por encontrar tão extraordinários elementos e repleta de ciência e tino em dispô-los e aproveitá-los, tudo isso iluminado pelo sol dos nossos dias únicos, a raiar em céus esplendidos, tudo isso emoldurado em grandiosíssimas moles graníticas – a Gávea, o Bico do Papagaio e da Tijuca; e, depois, dizei se em todos os vastos e embora arrebatadores arredores do Rio de Janeiro, há ponto que valha essa verdadeira Floresta de Armida.

O centro de todo aquele cenário majestoso é, com tudo, bem modesto: uma simples casinha de campo, baixinha, como que oculta a gosto no meio de compacto arvoredo.

Ali, em companhia de sua distinta e amabilíssima esposa, e de um único neto, rebentão último de nobre e velha família de estirpe francesa, é que mora o Barão d’Escragnolle, a alma de todo aquele imenso movimento artístico capaz de insuflar inesperados ímpetos aos espíritos mais inertes e refratários à influição do Belo: dali é que partem todos os esforços e combinações que transformaram aquelas lombas quase estéreis de serra íngreme num local tão misterioso, quanto cheio de magia e deliciosas surpresas.

Cercada de bastos viveiros, em que brotam as sementes e se robustecem as mudasinhas dos gigantes das nossas matas, é aquela casa o ponto donde irradiam, a serpear pelo dorso da montanha, os caminhos que devassam a floresta toda, e simultaneamente a fertilizam, proporcionando os mais extraordinários passeios ao artista, ao filosofo ou ao simples curioso, em busca de tudo quanto lhe recreie as vistas ávidas de sensações e novidades.

Ponte Job de Alcântara, na Floresta da Tijuca

II

Formoso passeio por um dia claro e fresco é a caminhada a pé do Alto da Boa Vista à casa do barão de Escragnolle; caminhada, sim, pois preenche uns bons 30 a 35 minutos de marcha regular, em que se vencem dois ou três declives um tanto ásperos, que os engenheiros do distrito deveriam ter já tratado de rebaixar ou contornar.

Mas, quantas belezas por ali além! Quantos êxtases para o artista sincero, na contemplação muda de toda aquela vegetação, tão luxuriante, como esbelta, tão grandiosa em seu aspecto geral, como interessante e positivamente mágica nas mais delicadas minúcias!

Quantas tonalidades e gradações de verde nas folhagens, desde o sombrio aveludado, até ao verde glauco e gaio, numa explosão alegre e risonha, como sorrisos de travessa fada! Lá rompe, de vez em quando, a uniforme roupagem das lombas, quebradas e furnas, o branco metálico, a maneira de prata fosca, das folhas da imbaúba, as cecrópias com os seus argênteos escudos, ou então é a copa de alguma palmeira mais alterosa, quase sempre o indaiá, cujo crescimento é em extremo moroso, talvez secular.

E quando tudo aquilo se cobre de pendões roxos, cor de rosa, brancos e amarelos, casando as floridas comas das melastomáceas, que o vulgo chama paus de quaresma, às elevadas cássias, então o espetáculo toma visos de deslumbramento.

Tome, porém, o turista a pouca distancia do Alto da Boa Vista, a estrada do Barão de Taunay, toda ensombrada por espessas matas, e em cujas orlas florescem e embalsamam os ares nos meses de Janeiro a Março, altas e antigas dracenas, e dentro em cinco minutos contemplará a belíssima Cascatinha, do alto de uma ponte severa e grandiosa de todo o ponto condigna da misteriosa beleza do sitio, a que dá mais realce e até majestade.

Defronte demora a pequena e pitoresca vivenda edificada ha mais de 60 anos pelo barão de Taunay; e em todos esses recantos da Tijuca parece ainda pairar aquele espírito superior que viveu sempre identificado com a natureza do Brasil, mais do que ninguém compreendeu os seus encantos e lhe dedicou todos os extremos, desprendido da maldade dos homens, sem se isolar da humanidade, por amor da qual de bom grado se sacrificaria nos ímpetos de seus entusiasmos eternamente juvenis.

Construída em 1862 por ele e por Job de Alcântara [1], impõe-se essa ponte pela discreta serenidade de linhas e caráter, cada vez mais confirmado, de quase indestrutibilidade. Está ali como que parte integrante de todas as massas graníticas ou gnáissicas que a circundam, tão inabaláveis e duradouras quanto ela; batidos noite e dia os seus alicerces por bulcões espumantes de águas, que, revoltas e inquietas, em busca de saída, rápidas e atropeladas, se escoam por sob a arquitetônica abobada.

Quem não conhece a Cascatinha Taunay, tão pitoresca e popularizada, já por gravuras, já pela fotografia, ou pintura? De boa altura, precipita-se o rio Maracanã, formando dois panos de água distintos, à maneira de andares de grandiosa construção. O de cima cai de um jato sobre enorme rocha, que parece encostada à grande parede do fundo; o de baixo, separa-se em dois ramos, a cercarem de grossos borbotões a rocha, além de um sem número de fios, uns longos e contínuos até a bacia inferior, outros mais tênues e intermitentes, que se pulverizam no espaço, borrifando de úmido bafejo, já as inúmeras plantinhas rochosas, agrupadas de todos os lados, nas menores saliências da pedra, já a copa das grandes árvores mais chegadas.

Também em certos meses do ano, quando, naqueles vapores aquosos, o sol dardeja de soslaio vivos raios de luz, desenha-se em graciosa curva brilhantíssimo e correto arco-íris – mais um encanto a juntar aos muitos que sobrelevam essa poética paragem.

Daí até ao alto do Mesquita, sobe-se bastante, por planos tão úmidos no inverno, quanto refrigerantes e gratos em dias de sol forte. Depois, alcançada a beira superior do estreito vale – espécie de funil – que encerra o sítio da Cascatinha, abre-se larga a estrada chamada do Imperador, cuja conservação, embora em terras particulares, pertence já à zelosa administração da Floresta.

Desde esse ponto se evidencia o cuidado minucioso que preside a esses trabalhos: é o parque inglês que começa a desenrolar suas espaçosas alamedas ou fugitivos meandros.

Após uns 500 metros, mais ou menos, de caminho largo, quase reto, chega-se a vistoso planalto, cortado a meio por límpido córrego, e que poderia servir para uma cidade de recreio, como Petrópolis ou Friburgo, e bifurca-se a estrada.

À esquerda, numa tabuleta, mão artisticamente desenhada indica a direção da Solidão, sítio que o eminente Visconde do Bom Retiro habita em muitos meses do ano; à direita continua, entre renques de alterosas nogueiras de Bankul [2], serena e majestosa, a estrada do Imperador.

Sigamos, porém, o caminho mais apertado e modesto da Solidão, que numa larga encruzilhada não tarda também a dividir-se em três braços. O que desce vai ter à morada do visconde; o do centro segue um encanamento de águas; o que sobe toma o nome de Princesa Imperial, e, todo ornamentado de flores dos bosques, elegantes arbustos e até plantas de jardim, como variegados crótons, rubros lírios e marantas, leva, por graciosas ondulações entre a mata, à casinha ocupada pelo barão de Escragnolle.

Cascatinha, de Nicolas-Antoine Taunay, via Wikimedia Commons

III

Pago agradável tributo à ilimitada amabilidade dos habitantes da morada, tratemos sem demora de encetar o passeio, porquanto muito, muito mesmo há que caminhar e ver e admirar, verdade é, sempre à sombra e sem o cansaço de íngremes ladeiras ou resvalosas descidas.

Palmilhemos, pois, a grande aleia, que por trás da casa e com pouco a domina logo, deixando-a metida entre verdejantes cortinas de aroeiraspaus-ferropaus-brasilgrajaúbas, e outros belos espécimes da nossa riqueza florestal.

É a rua D. Pedro Augusto.

O mesmo cuidado sempre. Parece que ali impera o gênio da vigilância com cem mil olhos abertos, e que invisíveis mãos estejam de contínuo empregadas em levantar do caminho quanta folha seca se desprenda das árvores.

É o olhar do observador, acompanhando as sombras que se projetam no chão, penetra longe, por entre os troncos, vendo de vez em quando e regularmente dispostas enormes covas quadrangulares, umas já a meio tapadas por galhos mortos, restos de varreduras e mil resíduos, outras abertas até ao fundo, hiantes e com água lá em baixo.

A explicação mostra que na floresta da Tijuca organizou o barão de Escragnolle um verdadeiro sistema de sistema cientifico de silvicultura, juntando a todas as qualidades de artista empenhado em fazer valer as belezas naturais da localidade entregue aos seus desvelos e inspeção, conhecimentos especiais e predicados que sobremaneira o recomendam como profissional e homem de estudos e observação.

Empregados desses honram a administração brasileira.

Todos aqueles terrenos, morrarias e encostas de serra, são péssimos, de cascalho fino, saibrentos; inçados de grandes pedras silicosas, cheios de enormes rochas, umas enterradas em profundo seio, outras que surgem à flor da terra formando sombrias grutas, ou, então, maciços isolados e agigantados – os tais penedos erráticos que, no dizer de Agassiz, confirmavam a sua teoria, hoje repelida, da geleira universal; enfim, por toda a parte, gneiss em decomposição e feldspatos que se desagregam.

Ali, na carência quase absoluta do húmus, de terra vegetal, só podem medrar e criar algum vigor as plantas características dos maus terrenos, paus de quaresma, tapinhoans, imbaúbas, palmitos, fetos arborescentes, samambaias e outras, que a prática popular indica e nenhum dos nossos fazendeiros desconhece.

Demais, é região de águas abundantes e límpidas – outro sinal. Águas boas, terra ruim, é adágio muito comum entre os lavradores brasileiros, tão prontos aliás e fáceis em acoimarem de imprestável e cansado todo o terreno que de pronto não compensar qualquer esforço, por pequeno que seja.

E para explicar aquela inferioridade de força produtora na Tijuca há valiosíssimas razões.

Aquelas encostas todas, com as bárbaras derrubadas que se fizeram em outras épocas e iam matando à sede a cidade do Rio de Janeiro, modificando-lhe danosamente as condições climatológicas, ficaram, durante não pequeno tempo, desnudadas da floresta virgem e primitiva que as revestia. Destruído o entrelaçamento das folhas e ramos – e o que mais importante era – o inextricável tecido entressachado de raízes, e radículas, que, à maneira de precioso filtro, porejava continua umidade, a formar fios d’água, depois tênues correntes, mais longe ribeirinhos, córregos, cascatinhas e, afinal, o rio Maracanã; aniquilado todo aquele utilíssimo e lógico sistema, que, hoje, o homem, à custa de imenso trabalho, procura reconstituir, as primeiras grossas chuvas de verão que caíram, precipitaram-se em enxurrada pelas agruras abaixo e foram arrebatando tudo, levando de vencida as boas camadas e lavando em repetidas e cada vez mais esterilizadoras pancadas, todas as dobras e declividades das terras.

Presentemente, pois, para que qualquer árvore mais robusta possa ali crescer e fortificar-se, é imprescindível plantá-la em cava que da atmosfera tire, pela demorada exposição ao ar, oxigênio e ozônio, se torne um pouco mais rica dos princípios azotados que a previdência humana lhe proporcionar.

É o que faz o barão de Escragnolle, com rara perseverança e esplendidos resultados.

Bom Retiro, na Floresta da Tijuca

IV

Entre as muitas plantinhas floríferas e de curiosa folhagem, que adornam ambos os lados da rua florestal, reparai, por instantes, em lindíssimo arbusto. Terá, quando muito, três a quatro palmos de altura, e suas folhas em ramagem delicada são verde-escuras, lanceoladas e finas, terminando cada galhosinho em bastos caixos de bagas polposas, ovais, cor puríssima azul-celeste, que pendem como contas de preciosa safira ou fina turquesa.

É o que o povo chama frutinha de sabiá e que já ha muito deveria servir de incomparável enfeite à cabeça das formosas brasileiras do nosso high-life, caso tivessem as floristas da rua do Ouvidor espírito inventivo, que as libertasse algum tanto da humilde vassalagem às modas de Paris.

É uma rubiácea, uma psychotria, gênero chegado ao coffea e cujas sementes, como as deste, torrefatas e moídas, dão bebida muito agradável e perfumada.

Daquelas bagas há umas de todo o ponto azuis, outras roxas, outras, e essas mais raras, brancas e ligeiramente coradas de fugitivo róseo, todas três variedades lindas, verdadeiro encanto das matas da Tijuca.

E como plantas de ornamentação, quantas riquezas e variedades nas begônias e bromélias, nas samambaiasinhas, nos capilloseneris, adiantos[3] e musgos, e um sem conta, enfim, de vegetaizinhos agrupados em folhudos maciços, mal haja qualquer umidade mais permanente, agarrados à rocha como verdejante manto, ou amontoados nas quebradas das terras e a beira das correntes!…

E tudo aquilo, combinado pela mão inteligente do homem, parece não dever favor a ninguém e desabrocha e se expande, cheio de seiva e vigor num prazer intenso de viver, tratando, com as minúsculas energias de que dispõe e na luta pela existência, que domina o grande como o pequeno mundo, de abafar o vizinho e tomar-lhe a parte do calor e espaço, que também a ele coubera por sorte, em seus iguais direitos à existência.

Continuemos, porém, a caminhar.

Pelas abertas nas franças do arvoredo, veem-se, à direita, dois alterosos cabeços, do Bico de Papagaio e o Pico da Tijuca e, à esquerda, de vez em quando a Gávea nos apresenta a pitoresca e conhecida configuração do cume, a pétrea e estreita planura que lhe deu o nome.

A cada volta da estrada, deparam-se-nos, então, imensas rochas, umas a meio desnudadas, outras revestidas da vegetação que ora simula fino e miúdo pelo, ora cai em festões como mantos soltos ou desgrenhadas cabeleiras.

Começam, então, as surpresas.

Eis a ponte da baronesa, fronteira à cascata Diamantina, uma joia, obra de arte como Alphand, o mágico jardineiro de Paris, não faria melhor, porquanto ali só interveio o homem para descortinar com jeito e discrição tudo quanto às forças naturais criaram em adorável desalinho.

E como descrever aquele grotãozinho luminoso, alegre, fascinador em todos os seus detalhes?

Uns passos adiante, outra surpresa – a gruta de Paulo e Virgínia, dois enormes penedos encostados um ao outro e que parecem abrigar, em poética evocação, os castos amores dos dois eternamente pranteados heróis de Bernardin de Saint-Pierre.

Ali, naquele delicioso retiro, que a romaria dos curiosos nunca tornará banal, pode o observador inteligente e acostumado a penetrar intenções artísticas, ver quanto o barão de Escragnolle respeita e faz realçar o concurso da natureza para chegar a resultados, mínimos na aparência, mas que, afinal, produzem vivíssimas impressões.

Quase a meio da gruta, há uma arvorezinha lisa, muito elegante e débil, que levou os galhos até ao alto e ali, encontrando invencível obstáculo, vergou-se para continuar a crescer no sentido da luz e do ar livre. Cortada aquela árvore, ficaria de certo a gruta sempre grandiosa; mas teria, então, perdido o curioso caráter de leveza que tem, parecendo que todo o peso daquela imensa mole descansa no modesto e esbelto vegetal, a maneira de delgada e primorosa coluna em amplíssimo salão.

E a contemplar aquele gracioso acaso, tão habilmente aproveitado, compreende-se bem a alegria perene que dentro em si deve sentir quem salvou o débil arbusto do machado destruidor e brutal, sempre pronto para tudo devastar e aniquilar.

Capela Mayrink, na Floresta da Tijuca

V

Prossigamos.

Logo adiante da gruta de Paulo e Virgínia, aparece outra menor, mas igualmente característica, com basto revestimento de vegetação que frondeia alto ou se agarra à pedra e se despenha em contorcidos rolos, à maneira de grossos cabos pintados de verde.

A sopé da rocha murmura um regato que desaparece numa calha, para surgir do outro lado do caminho, a juntar as buliçosas águas às da cascata Diamantina, que logo após a ponte da Baronesa, se despejam em nova queda, limpando cada vez mais as bonitas rochas de felospatho branco, em que deslizam o espumante espanejar.

É a gruta de Bernardo de Oliveira dedicada a um dos grandes amigos da Floresta, incansável em proporcionar ao barão de Escragnolle sementes e plantinhas de toda à parte a que vá, principalmente do Paraná, mandando vir, a expensas suas, e de bem longe, mudas e espécimes valiosos, sem outro interesse que não o de verificar, de cada vez que sobe à Tijuca, os progressos dos pupilos entregues aos cuidados de vigilante preceptor.

Também é de ver-se a alegria com que contempla as suas formosas aroeiras, o schinus terebinthifolius, cujo cerne é quase indestrutível, pois resiste 50 e mais anos metido dentro d’água, e que transportadas do Paraná como sementes ou humildes plantinhas, ostentam já luxuriante copa e alterosa ramagem.

Alguns passos além da gruta Bernardo de Oliveira fica a fonte Pirayú, singela bacia circular de cimento em que morre, sem o mínimo ruído, limpidíssimo fio d’água. E também silenciosamente se escoa, ficando o nível sempre o mesmo no puro receptáculo que não desenche.

Não será a imagem da vida?

Cada gota não representa um ente criado? De que vale ele por mais amado e digno de amor que seja? Vem de longe, do desconhecido, do seio das sombras, gira, move-se, agita-se no torvelinho geral e depois, em breves instantes… desaparece, ninguém sabe como, sumindo-se de novo na densidade das selvas…

E a bacia sempre cheia! Que falta, por ventura, fez aquela gota fugitiva, por mais cristalina que fosse, por mais que soubesse refletir em suas minúsculas facetas todos os primores da criação?…

Aquela fonte, só pelo nome que tem, se liga uma lembrança pungente. Em Pirayú [4], localidade do Paraguai, morreu desastrosamente, no último período da guerra dos cinco anos, um mancebo cheio de vida, ansioso de glórias, e para o qual sorria a existência com todas as ilusões e magias da primavera em seu desabrochar.

Era o filho único do barão de Escragnolle. E comove deveras ter aquele nome, bárbaro ao coração de pai, num símbolo de suave e meiga recordação.

Adiante!…

Depois de algumas voltas de caminho, sempre elegantes e por declives insensíveis, eis-nos chegados a um dos mais belos pontos da Floresta.

É a vista do Almirante, outra homenagem de família.

E deveras, se há lugar em que possa pairar com gosto a sombra de um velho lobo do mar, o almirante Beaurepaire, é ali, ante aqueles largos horizontes, enfrentando com o colossal maciço da Gávea, cuja forma lembra gigantesca nau de guerra, como que a meio desarvorada, imóvel e encalhada após medonha tempestade, com o oceano largo, infinito, de ambos os lados, tranquilo, ao longe, como um lago; ao passo que as ondas se quebram na incessante fúria de encontro aos rochedos da restinga da Tijuca, que uma quebrada de terras deixa ver lá em baixo.

E de vez em quando, navios com as velas enfunadas salpicam de pontos brancos, cintilantes, o campo azul do mar, ou, então, são vapores, cujos rolos de fumo se adelgaçam acinzentados, tênues, como ligeira fumaça.

Azul por toda a parte, azul deslumbrante, no céu, na água, azul cortado, quase no centro da paisagem por aquela montanha sombria, negra em seu cume e dobras, verdejante nas lombas, contrafortes e declives – riquíssimo manto de veludo verde nos ombros e braços de petrificado Encelado.

Cachoeira das Almas, na Floresta da Tijuca

VI

Depois da Vista do Almirante, tem-se o Labirinto e, logo em seguida, apontada por graciosa mão em tabuleta branca, a estrada do Pico da Tijuca, cujo maciço se ergue próximo, sombrio, listado de grandes sulcos, a imitarem caracteres gráficos, quase cuneiformes, como as tão faladas inscrições da Gávea, que nada mais são do que sinais do perpassar das águas sobre o dorso da pedra lisa, ora violentas, por ocasião das enxurradas, ora morosas e gota a gota, destiladas pelo raizame das plantas saxatilis.

Não sabemos se já ha cômodo trânsito até ao cume da montanha. A sombra que ela projetava, por tal forma agravava a umidade de manhã fria e brumosa, que nos obrigou a retroceder, não sem admirar antes uma volta do caminho que parece ir esbarrar no colossal monolito. E do fundo negrejante ressalta uma renque de elegantíssimos arbustos, como que postos a cordel, em cuja delicada ramagem, parece, se poderiam contar as folhinhas. Tem seus visos de quadro pintado por Fachinetti.

Retrocedamos, porém; não há remédio: e por um atalho, eis-nos na antiga estrada principal da Floresta, bem conservada e limpa, mas com declives um tanto ásperos.

Quereis regressar já à casa do barão de Escragnolle? Tomai à direita, o caminho do Dr. Jardim; é a tabuleta vermelha e branca que vo-lo indica, e nele também encontrareis lindíssimos recantos e gratas surpresas.

Mas não, antes há muito que ver, e para tanto enveredai à esquerda, pela rua do Visconde do Bom Retiro, o simpático e respeitado morador da Solidão, o estadista a quem tanto devem a floresta da Tijuca e muitos outros serviços administrativos do Brasil.

De todos os lados, no chão, as tais covas de que falamos; umas mais chegadas, já fechadas quase de todo e com a sua plantinha, que um dia será um gigante dos bosques; outras mais afastadas, ainda hiantes como bocas de lobo; de todos os lados a expansão alegre e viçosa dos capoeirões do Brasil, que as vivíssimas cores de algumas borboletas, Adônis e Laertes, ainda mais embelezam.

Até – coisa rara nos devastados arredores do Rio de Janeiro – ouvem-se o pipilar e o canto dos passarinhos, as notas desfiadas e melancólicas do sabiá e o bater isocrônico dos pica-paus nos troncos carcomidos, quando não são bandos de periquitos que volteiam em grita, alvoroçando os ecos.

Essa vida, essa animação é boa prova do cuidado com que a administração da Floresta vela na execução dos frequentes avisos que por toda a parte mandou pregar:

“Aqui é terminantemente proibido caçar.”

Quantos encantos, quanto prestígio dos bosques destroem tola e inconscientemente os caçadores das cercanias do Rio de Janeiro! Por mero desenfado aos domingos, ou desejo de ganhar uns magros cobres, matam um sem número de sabiás, rolasinhas e até tico-ticos, que depois trazem, em enfiada, como troféus de proezas cinegéticas e recompensa de dias de labor!

E que comoção e contentamento para os bárbaros, se vissem a caça que diante de nós correu assustada, atirando-se logo por um declive abaixo!

Nada mais, nada menos, grande e formoso coati, que se embrenhou pela mata com o ruído de alimária já de vulto.

Sigamos a ensombrada trilha toda cortada de rústicas pontes. Leva-nos ao Lago das Fadas, que em breve tempo será um primor, e, depois de muitas e muitas voltas, põe-nos em frente à rocha do Pico da Tijuca, dando-nos a belíssima vista de uma queda d’água, que é, daquele lado, o final do passeio.

Voltemos, pois, pelo mesmo caminho, o que não será sacrifício algum, porquanto há sempre que admirar nas mil particularidades que a observação mais atenta nos vai descobrindo; ou, então, tomemos, por meio de um atalho, a estrada velha, passando antes defronte da feia e acaçapada casa das antigas administrações.

Uma vez abaixo do entroncamento do caminho do Visconde do Bom Retiro, entremos, do outro lado, na rua Dr. Jardim, cujo nome lembra com razão um dos mais zelosos e ativos diretores das obras públicas desta corte.

Restaurante A Floresta, na Floresta da Tijuca

VII

O caminho do Dr. Jardim desenvolve as suas graciosas curvas, como vereda de 4 a 5 palmos de largura, sempre dentro da mata, descendo por declive quase insensível desde a encruzilhada na estrada do Imperador, até à casa do barão de Escragnolle.

E nele, como aliás em todos os pontos da floresta, há que admirar o constante empenho de dar realce a quanta beleza natural foi encontrando quem cuida daqueles sítios e aí delineou os sinuosos e ensombrados caminhos.

Assim, entre mil particularidades curiosas, próprias da exuberante vegetação dos arredores deste Rio de Janeiro, a gruta Lopes Mendes, consagrada ao viajante português, que em frase entusiástica descreveu, num dos seus livros, os primores dessas paragens – e mais adiante – a cascata Gabriela, dedicada à baronesa de Taunay, irmã do barão de Escragnolle, últimos filhos do conde de Escragnolle, o qual, tocado de França, sua pátria, pelo furacão revolucionário de 1789, passou-se para Portugal e, com o rei D. João VI, para o Brasil, onde morreu, em 1828, na província do Maranhão, como comandante das armas.

Muito interessante e característica é essa queda d’água, despenhando-se grosso e limpidíssimo veio do alto de uma grande rocha, que foi partida ao meio por algum corisco. Uma das metades escorregou e afundou uns palmos no terreno, ao passo que a outra se conservou firme, formando-se entre as duas pedras uma calha natural em que corre a água e da qual ela se atira de jato em bacia de brancas areias. E em torno, reina luz misteriosa, quase verde, coada pela densa cúpula do arvoredo, a dar pela lei do contraste, mais brilho ás cintilações argênteas da cascata.

Que esplêndida decoração para inspirado quadro, como o Banho de Diana, do Dominiquino, obra prima em que tanto se admiram as iluminações internas da água, quando nela caem de soslaio os raios do sol…

Lago das Fadas, na Floresta da Tijuca

VIII

Todas as belezas que procuramos descrever e das quais temos dado imperfeito esboço, mais para excitar a curiosidade dos turistas, do que por pretensão de fixarmos no papel e a outrem transmitir as múltiplas e indizíveis impressões que nos deixou a floresta da Tijuca; todas aquelas belezas se acham na região que demora ou acima da casa da administração central ou à sua direita, para onde mais particularmente se voltaram às vistas e cuidados do criador e zelador de todo aquele imenso e estupendo parque.

Outras surpresas, porém, em breve, se preparam descobertas e exploradas na região da esquerda, em seguimento à rua do Conselheiro Costa Pereira, ministro a quem deve a Floresta a apertadíssima, e nunca assaz aplaudida nomeação do atual administrador.

Aqueles lados, olhando para a cidade do Rio de Janeiro, descortinam, então, pontos de vista e paisagens tão grandiosas e vastas, que a pena deve confessar-se incapaz de lhes reproduzir as proporções, cedendo o campo ao pincel e pincel em mão de mestre.

Também o entusiasmo do barão de Escragnolle busca expansão nos nomes com que já batizou as estradas que está abrindo e as perspectivas que foi achando.

O caminho da glória está quase pronto, até para carros, e ele nos leva … ao Excelsior!

E, com efeito, é estupendo aquilo!

Imaginai, de repente, diante de vós, a vossos pés, as várzeas do Andaraí, Vila Isabel, Engenho-Novo, Todos os Santos, Jacarepaguá e mais e mais um mundo enfim – a serra dos Órgãos no fundo, e entre a cordilheira e a planície, como um lago, quase toda a baía do Rio de Janeiro, com as suas ilhas, enseadas e praias, navios, vapores e inúmeras velas, e tereis espetáculo que, talvez, não ceda primazia às grandiosidades do Corcovado!

E quando o sol, a descambar, põe mil fascinações em todo aquele vastíssimo painel, mil centelhas de ouro e fogo nas casas e ruas da capital brasileira e cerca de gloriosa aureola a branca e bela cúpula da Candelária, como poético símbolo de uma religião de paz e de meiguice, então deve o homem, o artista, experimentar justificado orgulho por poder de relance concentrar em si e acolher dentro do seu cérebro um sem número de inexprimíveis sensações e sentimentos, que todos o elevam acima da triste contingência material e o aproximam da Inteligência Suprema que domina o Universo.

Notas do Editor

  1. Job Justino de Alcântara Barros: Professor de Arquitetura Civil no período de 1850 a 1858 da Academia Imperial de Belas Artes – AIBA; Substituto de desde 1833; Interino de 1851 a 1854; Foi Bibliotecário, Secretário e Arquivista da AIBA. Fonte: DezenoveVinte – Quadro 5 – Professores, por disciplinas.
  2. Aleurites moluccanus (L.) Willd: Inglês – Bankul nut tree, Candleberry, Candlenut, Candlenut tree, Indian walnut, Indonesian walnut, Kukui (Hawaii), Lumbangtree, Moluccan oil tree, Tallow tree, Varnish tree; Espanhol – Calumbán, Camirio, Lumbán, Nuez de bancul, Nuez de candelas; Português – Nogueira de Iguape (Brazil), Noz da India, Noz-molucana. Fonte: Multilingual multiscript plant name database.
  3. Nome científico: Adiantum capillus-veneris L. Nomes populares: avenca-comum, avenca-do-canadá, cabelo-de-vênus. Culantrillo (espanhol); capillaire (francês); maidenhair (inglês); capelvenere (italiano). Fonte: plantamed – AVENCA, Adiantum capillus-veneris.
  4. Geographic coordinates of Pirayú, Paraguari, Paraguay.

Fonte

  • Taunay, Alfredo d’Escragnolle. Viagens de Outrora. 2ª ed. São Paulo: Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1921. 164 p.

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  • Restaurante Os Esquilos, na Floresta da Tijuca. Antiga residência do Barão de Escragnolle e, depois, de todos os administradores da Floresta da Tijuca.

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