A Fronteira do Sul. Gomes Freire de Andrade (Conde de Bobadella). Hostilidades do Prata. Transferência da Capital para o Rio de Janeiro

A Fronteira do Sul. Gomes Freire de Andrade (Conde de Bobadella). Hostilidades do Prata. Transferência da Capital para o Rio de Janeiro

Em lição anterior vimos como entre a Espanha e Portugal versava, em meio século XVIII, a questão de limites do Prata, principalmente sobre a Colônia do Sacramento e os territórios meridionais do Brasil.

Pelo tratado de Utrecht, de 1715, fora essa colônia restituída aos Portugueses, sendo nomeado governador Manuel Gomes Barbosa.

Isso, porém, não fez cessar as hostilidades. Ao contrário: acirrou-as ainda mais, quando os Espanhóis resolveram fundar a atual cidade de Montevidéu, lançando mão de um plano concebido, sem resultado por Portugal, sendo a última tentativa, nesse sentido, a de Manoel de Freitas Fonseca contra dom Bruno Mauricio Zabala.

Por várias vezes, foi a praça dessa colônia atacada pelos Espanhóis de Montevidéu, salientando-se o sítio e bombardeio, em que o então comandante das armas portuguesas, Antônio Pedro de Vasconcellos, resistiu durante dois anos (1735-1737) às tropas espanholas sitiantes de dom Manoel de Salcedo, obrigando-as a recuar em debandada.

Mas o que não pôde a Espanha alcançar pelas armas, conseguiu afinal pela astúcia diplomática, mediante as negociações do tratado de Madrid, de 13 de Janeiro de 1750.

Tendo, porém, morrido dom João V nesse mesmo ano, deixou por executar esse tratado, que importava na revisão dos limites da carta da América Meridional, segundo a linha de Tordesilhas, por uma comissão composta de dom Thomaz Antônio Telles, visconde de Villa Nova de Cerveira, embaixador português, e dom José Carvajal e Lancaster, por parte da Espanha.

Em virtude do mesmo pacto diplomático, a Colônia do Sacramento passava para o domínio espanhol, ficando com Portugal o Território dos Sete Povos das Missões, composto de sete aldeamentos de Guaranis, sob a invocação de São Borja, Santo Ângelo, São João Batista, São Nicolau, São Luiz, São Miguel e São Lourenço.

Logo após ter subido ao trono dom José I, filho e sucessor de dom João V, seu primeiro ministro, Sebastião José de Carvalho e Mello (conde de Oeiras e depois marquês de Pombal), empreendeu a execução do tratado de Madrid; e nesse intento, nomeou comissários demarcadores a Gomes Freire de Andrade, sargento-mór de batalhas, capitão-general e depois conde de Bobadella, para a demarcação do Sul; e ao irmão deste último, o capitão-general do Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, para a do Norte, missão depois investida ao governador de Mato Grosso, dom Antônio Rollim de Moura, posteriormente conde de Azambuja.

Por parte da Espanha, foram nomeados para a demarcação meridional, o marquês de Valdelirios e para a setentrional dom José Iturriaga.

Gomes Freire de Andrade administrou, por cerca de 30 anos, como governador, a capitania do Rio de Janeiro, de 1733 até 1763.

Em 1750 era, a mais disso, o governador da chamada Repartição do Sul, que abrangia as capitanias do Rio, São Paulo e Minas Gerais.

Em princípio de 1752, Gomes Freire partiu do Rio de Janeiro para o Sul, e deu início com Valdelirios aos trabalhos de levantamento da carta da fronteira platina.

Logo, entretanto, se viram forçados a suspendê-los, em 1754, devido à atitude hostil dos índios das Missões, entregues aos jesuítas.

Travada a luta armada para submissão do gentio guarani, que era guiado pelo padre Mathias Strobel, superior jesuíta, e padre Lourenço Balda, chefe militar da campanha, durou dois anos, saindo esmagados os Guaranis pela ação conjunta dos exércitos espanhol e lusitano.

Após a refrega, não pôde ainda a comissão diplomática prosseguir em seus trabalhos topográficos, devido à desinteligência que se originou entre os comissários.

Bobadella retirou-se em 1759 para o Rio de Janeiro. Fracassou destarte a demarcação do Sul; enquanto a do Norte nem sequer teve início.

Foi anulado o tratado de Madrid pelo pacto firmado em 1761, após o falecimento de dom Fernando VI, sucedido por dom Carlos III de Espanha.

A Colônia do Sacramento voltou a pertencer a Portugal.

Formou-se, por essa época, a aliança contra a Inglaterra, denominada Pacto de família, isto é, entre os soberanos da família de Bourbon que ocupavam os tronos de França, Espanha e Nápoles.

Em consequência disso, Portugal não tendo aderido a esse acordo, sofreu sérias represálias não só no reino como em sua então colônia brasileira.

A tomada, de surpresa e quase sem luta, da praça da Colônia do Sacramento, em 1762, foi feita por dom Pedro de Cevallos, governador de Buenos Aires, que invadiu ainda parte do nosso território do Rio Grande do Sul.

A luta se concluiu pela vitória da Inglaterra, da qual Portugal fora sempre aliado, e pela consequente assinatura do Tratado de Paris, de 1763, que mandou voltar tudo ao statu quo ante.

Em 1762, fora Bobadella nomeado vice-rei do Brasil, título pela primeira vez deferido, em nossa História, no século XVII, em 1640, quando, ocupantes ainda de Pernambuco os Holandeses.

Bobadella, porém, de pouco sobreviveu à investidura dessa dignidade, pois tendo chegado ao Rio de Janeiro, em 5 de Dezembro de 1762, a triste nova da perda da Colônia do Sacramento e capitulação do respectivo governador Vicente da Silva Fonseca, tal foi o choque moral sofrido por Gomes Freire com essa perda que lhe foi, a mais, imputada pelo comércio do Rio, que veio a falecer, a 1 de Janeiro de 1763.

Desde que irromperam, ao Sul, as hostilidades com a Espanha, por motivo da demarcação da fronteira platina, reconheceu a política de Pombal a conveniência de aproximar-se do teatro da guerra a sede do governo do Brasil colonial.

Por esse motivo foi que o decreto real de 27 de Janeiro de 1763, elevando o Brasil à categoria de Vice-Reino, transferiu da Bahia para o Rio de Janeiro a sede da administração, tendo sido nomeado, a 27 de Junho seguinte, vice-rei, para sucessor do conde de Bobadella, dom Antônio Álvares da Cunha, conde da Cunha (1763-1767) que ao título de vice-rei acrescentava o de capitão-general de mar e terra do Estado do Brasil.

Quadro Sinótico

Em 1750, foi nomeado por dom José I, em virtude do tratado de Madrid, membro da comissão diplomática de demarcação da fronteira sul do Brasil, Gomes Freire de Andrade, depois conde de Bobadella, então governador da Repartição das Capitanias do Sul, sendo pela Espanha nomeado para o mesmo fim o marquês Valdelirios.

A demarcação ficou incompleta, aquele tratado foi anulado pelo pacto de Pardo (1761) e a Colônia do Sacramento que por aquele tratado foi entregue ao domínio da Espanha, em troca do Território das Missões, voltou a ser de Portugal. Mas, pelo tratado de Paris, de 1763, restabeleceu-se o statu quo anterior à guerra do Pacto de família.

Em 1763 (1 de Janeiro) faleceu Bobadella, que no ano anterior fora nomeado vice-rei do Brasil, e 27 dias após era o Brasil elevado a Vice-Reinado, sendo a sede da sua capital transferida da Bahia para o Rio, por achar-se mais próximo do teatro da guerra do Sul.

Traços Biográficos

Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadella (1685-1763), fidalgo português, governador e capitão-general do Rio de Janeiro durante trinta anos, (1733-1763) governou a Repartição do Sul, composta das capitanias Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais; serviu na comissão demarcadora dos limites meridionais do Brasil, com o marquês Valdelirios; comissário espanhol.

Prestou inestimáveis serviços à cidade do Rio de Janeiro: construindo a Casa dos Governadores, os Arcos da Carioca, chafarizes e tanques públicos, Fortaleza da Conceição, Convento de Santa Teresa, criando a Academia dos Selectos, de que foi patrono; e a primeira tipografia desta capital.

Recebeu os títulos de conde e vice-rei do Brasil.

Bateu-se contra os índios revoltados das Missões, em conjunto com as forças espanholas, e conseguiu reduzi-los à obediência.

Faleceu a 1 de Janeiro de 1763, comovido pela rendição da Colônia do Sacramento, e foi sepultado na capela do convento de Santa Teresa. Varnhagen considera-o o melhor dos governadores dos tempos coloniais.

Mereceu do povo o nome de “Pai da Pátria”.

Dom José I, bem como o marquês de Pombal muito o consideravam, e mandaram colocar-lhe o retrato, que ainda existe, no Paço do Senado da Câmara (Conselho Municipal Palácio Pedro Ernesto, sede da Câmara Municipal do Rio de Janeiro).

Serviu de herói ao poema épico Uruguai, de José Basílio da Gama.

Nota

  • Ponto 14º — 37ª Lição

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo em São Miguel das Missões, RS, via Wikimedia Commons.

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